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Liberdade de Imprensa

IFJ reúne casos de assédio contra mulheres jornalistas no mundo e defende regulamentação da IA para combater sofisticação do assédio digital

Conselho de Gênero da Federação Internacional de Jornalistas registrou ataques de atores externos e assédio dentro das próprias redações

Julia Mengolini, jornalista argentina

Processada por Javier Milei e alvo de deepfakes pornográficos, a argentina Julia Mengolini é um dos exemplos citados pela Federação (foto: X)




A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês) fez um alerta sobre o aumento de ataques sexistas contra mulheres jornalistas em todo o mundo e instou governos e empresas jornalísticas a se empenharem mais para defender a voz vital das profissionais de imprensa na transmissão de notícias de interesse público.

O alerta foi baseado em relatos recebidos pelo Conselho de Gênero da IFJ, que tem a brasileira Samira de Castro, presidente da Federação Nacional de Jornalistas, como uma das integrantes.

O grupo afirma que, em vários países, mulheres jornalistas enfrentam uma escalada sem precedentes de hostilidade física e digital, fazendo com que o assédio online tenha se tornado parte do trabalho, uma normalização perigosa que afeta não apenas as profissionais de imprensa mas a sociedade que depende delas se informar.

A IFJ aponta que a natureza desses ataques escalou de trollagem individual para campanhas organizadas usando inteligência artificial (IA) para ameaçar a segurança física, prejudicar a credibilidade profissional e forçar a autocensura.

Assédio contra mulheres jornalistas também ocorre nas redações

Mas há também a persistência de um problema histórico na profissão: o assédio dentro das próprias redações. Um dos países destacados no alerta do Conselho de Gênero é a Itália, onde uma pesquisa feita com 100 jornalistas registrou histórias de comentários sexistas, assédio direto e até abuso físico.

Na Espanha, uma manifestação em julho reuniu mulheres diante de um tribunal para apoiar uma jornalista que denunciou o CEO da empresa onde trabalhava por assédio.

IFJ relata ataques contra mulheres jornalistas em vários países

Segundo a IFJ, o sexismo e os ataques de gênero contra mulheres jornalistas têm sido registrados em diferentes regiões do mundo.

Um dos casos destacados é o da argentina Julia Mengolini, alvo de uma queixa criminal apresentada pelo presidente Javier Milei por suposta calúnia e difamação. Ela também foi alvo de ataques misóginos e sexistas, acompanhados de ameaças de morte contra ela e sua família, por meio de e-mails e contas de mídia social ligadas ao governo.

O próprio presidente ampliou os ataques, dedicando 93 postagens a ela na plataforma de mídia social X, incluindo a disseminação de imagens pornográficas criadas com IA (deepfakes), na tentativa de destruir sua imagem pública, afirmou a IFJ.

Na Índia, a entidade afirma que a situação atingiu um ponto crítico em 2025 e 2026.

Em julho, várias mulheres jornalistas que cobriam protestos do Partido Bharatiya Janata (BJP) em Jantar Mantar, em Nova Delhi, relataram ter sido cercadas, maltratadas e submetidas a contato físico inadequado e assédio por integrantes da multidão enquanto tentavam trabalhar.

Assédio no ambiente de trabalho e discriminação

No Camboja, uma jornalista de um jornal local de língua inglesa relatou ter sofrido assédio sexual físico e verbal no local de trabalho. Segundo a IFJ, os episódios começaram em 2023 e, apesar das reclamações feitas ao departamento de recursos humanos, o caso permanece sem solução.

A entidade também cita o caso de uma jornalista de uma emissora de televisão local que, em 14 de março de 2025, teria sido impedida de entrar em um ministério do governo cambojano, em Phnom Penh, por causa de seu traje religioso.

Muçulmana, ela afirmou que um segurança exigiu que retirasse o lenço que usava na cabeça para que pudesse entrar no local e cobrir um evento.

No Uruguai, a IFJ destaca o caso da jornalista Sofía Romano, que foi alvo de comentários sexualizados depois de rejeitar uma piada sexista durante um programa de televisão ao vivo. O episódio provocou manifestações públicas em defesa de uma resposta institucional e contra comportamentos destinados a desacreditar e silenciar mulheres que participam do debate público.

A entidade relata ainda outro episódio ocorrido na televisão uruguaia. Durante uma transmissão do programa Buscadores, o comentarista Antonio Maeso perguntou à historiadora Daniela Bouret, no meio de uma discussão, se as pessoas em casa “a chutaram para fazê-la calar a boca”.

O comentário provocou condenações de partidos políticos, sindicatos e instituições públicas. Posteriormente, Maeso fez um pedido público de desculpas.

Na Espanha, como mencionado anteriormente, profissionais de mídia se reuniram diante de um tribunal de Sevilha para apoiar uma jornalista que denunciou por assédio sexual e no ambiente de trabalho o ex-CEO da produtora Andalucía Digital Multimedia (ADM).

Na Itália, a IFJ cita uma investigação realizada pela IrpiMedia, com apoio da Federação Nacional da Imprensa Italiana (FNSI), que reuniu depoimentos de 100 jornalistas vítimas de violência e sexismo. Os relatos incluem bullying, comportamento sexista, assédio sexual e casos de estupro ou tentativa de estupro.

Ataques online e uso de inteligência artificial

No Peru, a jornalista Clara Elvira Ospina relatou, em um vídeo publicado em suas redes sociais, uma série de insultos recebidos por meio de comentários de contas de trolls e outras contas afiliadas, segundo a IFJ.

No Panamá, Sol Lauría Paz, diretora do veículo independente Concolón, foi alvo de uma campanha sistemática após a publicação da investigação regional Digital Loggers, que expôs redes de violência online relacionadas ao debate sobre a mina Cobre Panamá.

De acordo com a IFJ, os ataques incluíram ameaças explícitas, divulgação de informações pessoais, insultos e manipulação de sua imagem com o uso de inteligência artificial.

IFJ pede regulamentação da IA contra ataques a jornalistas

Diante do aumento dos ataques, o Conselho de Gênero da IFJ defende uma série de medidas para ampliar a proteção das mulheres jornalistas.

Entre as medidas destacadas está a regulamentação da inteligência artificial para impedir o surgimento de desinformação e evitar o uso da tecnologia para difamar mulheres e silenciar suas vozes.

A recomendação ocorre em um contexto no qual, segundo os casos reunidos pela própria IFJ, ferramentas de IA já vêm sendo utilizadas para manipular imagens de jornalistas e produzir conteúdo sexualizado falso, além de integrar campanhas de intimidação e ataques à reputação.

O Conselho também pede a identificação segura dos autores de ameaças e insultos online, inclusive nos casos em que os ataques possam ser organizados por grupos políticos ou sociais contrários aos direitos das mulheres.

A entidade defende ainda o cumprimento das leis internacionais e nacionais destinadas a prevenir e punir a violência e o assédio aos quais mulheres jornalistas estão sujeitas em diferentes partes do mundo.

Outra recomendação é a criação de ambientes de trabalho mais seguros para mulheres jornalistas, tanto nas redações quanto durante coberturas em campo, como protestos e conflitos.

O Conselho de Gênero também defende que mulheres jornalistas tenham maior acesso a cargos de gestão, em condições de igualdade com os homens e com base em suas habilidades e mérito.


 

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