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Comunicação ambiental

A humanização do clima: treinamento da rede CCNow ensina como conectar a ciência à vida das pessoas

Humanizar, tornar local e mostrar soluções são os três eixos propostos para engajar o público

Pescador em barco no Vietnã com turbinas eólicas ao fundo.

No Vietnã, a pesca tradicional convive com turbinas eólicas gerando energia limpa (foto: Pew Nguyen via Unsplash)




Em uma semana em que países do Hemisfério Norte continuaram sofrendo com calor extremo, falta de água e incêndios florestais, um treinamento online promovido nos EUA pela organização Covering Climate Now (CCNow) abordou questões que desafiam a imprensa em todo o mundo: como cobrir as mudanças climáticas sem afastar o público?

Como associar o que está acontecendo à ciência do clima? E como achar espaço para o tema em meio a outros acontecimentos que dominam o noticiário?

Não é impossível. E muitos veículos de imprensa pelo mundo estão fazendo isso.

Santiago Saéz, diretor de treinamento da organização, e a gerente de engajamento Elena Gonzalez apresentaram estratégias práticas para transformar a cobertura climática em matérias fáceis de entender e que criem conexão real com leitores e espectadores.

O treinamento completo da Covering Climate Now está disponível em vídeo (em inglês) para quem quiser conhecer os exemplos e as orientações em mais detalhes.

O público quer notícias sobre mudanças climáticas?

A proposta da Covering Climate Now parte de uma constatação que contraria uma percepção frequente nas redações: o público não necessariamente evita notícias sobre mudanças climáticas.

Dados apresentados no treinamento indicam que a preocupação com o aquecimento global é disseminada e que há amplo apoio a ações para enfrentá-lo.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas acreditam que essa preocupação é menos compartilhada do que deveria ser.

Ele citou dados do Reuters Institute e um relatório de 2025 da Oxford Climate Journalism Network para argumentar que a redução do consumo de notícias climáticas não pode ser atribuída apenas ao desinteresse do público: a própria diminuição da oferta desse tipo de conteúdo pelos veículos também contribui.

Humanizar, localizar e buscar soluções

A principal orientação apresentada no treinamento para quem procura entender como comunicar mudanças climáticas é resumida em três eixos: humanizar, tornar local e mostrar soluções.

Humanizar significa mostrar como fenômenos e dados climáticos interferem concretamente na vida das pessoas.

Em vez de fundamentar as matérias apenas de números, gráficos ou explicações científicas, a cobertura deve priorizar pessoas, situações cotidianas e consequências que permitam ao público compreender o que está em jogo.

Tornar local consiste em aproximar uma questão global da realidade de uma comunidade.

Isso pode envolver ouvir pesquisadores e cientistas locais, recorrer a referências que sejam familiares ao público e investigar como decisões relacionadas ao clima afetam diferentes grupos de um bairro, cidade, região ou país.

Durante o treinamento, Gonzalez apresentou exemplos de reportagens que seguiram esses princípios.

Uma delas mostrou os efeitos de uma onda de calor sobre um trabalhador na Flórida, sofrendo com a temperatura e ainda assim sendo obrigado a realizar suas atividades profissionais.

Outra abordou, a partir de Gana, as consequências que mudanças relacionadas aos combustíveis fósseis poderiam ter para agricultores e para a segurança alimentar.

Jornalismo de soluções: sem ingenuidade ou manipulação

O terceiro eixo é o jornalismo de soluções.

Gonzalez ressaltou que isso não significa produzir reportagens positivas ou promover iniciativas ambientais sem rigor na apuração para entender seu real valor.

A proposta é investigar respostas para os problemas climáticos com o mesmo olhar crítico aplicado a qualquer outra pauta, incluindo suas limitações, falhas e possíveis casos de greenwashing.

Como comunicar mudanças climáticas sem complicar a ciência

Outro desafio é traduzir conceitos científicos sem deixar de lado a precisão.

Um dos exemplos apresentados foi uma reportagem sobre enchentes em Nova York, que utilizou uma esponja para explicar por que uma atmosfera mais quente pode contribuir para chuvas mais intensas.

A analogia transformou um processo físico pouco intuitivo em uma imagem cotidiana: uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais umidade, como uma esponja capaz de absorver mais água.

Quando essa água é liberada, as precipitações podem ser mais volumosas.

O exemplo sintetiza uma das principais mensagens do treinamento da CCNow: comunicar a ciência do clima não exige necessariamente longas explicações técnicas.

Recursos visuais, comparações familiares ao público e relatos de pessoas afetadas podem ajudar a tornar fenômenos complexos compreensíveis sem retirar deles sua dimensão científica.

O que a cobertura da pandemia pode ensinar

Saéz comparou o desafio da cobertura climática ao que ocorreu durante a pandemia de Covid-19.

Naquele período, jornalistas de diferentes editorias tiveram de aprender conceitos científicos e incorporá-los à cobertura de educação, economia, saúde, esportes e comportamento.

Para ele, uma abordagem semelhante pode ser aplicada às mudanças climáticas.

Em vez de tratar o assunto principalmente durante grandes desastres ou nas conferências internacionais do clima, como as COPs da ONU, a questão deve envolver diferentes editorias e fazer parte da cobertura cotidiana.

A comparação reforça a mensagem central do treinamento: ampliar a cobertura não significa apenas publicar mais notícias sobre o clima, mas encontrar maneiras de mostrar como ele se relaciona com decisões, problemas e experiências que já fazem parte da vida das pessoas.


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