Em uma semana em que países do Hemisfério Norte continuaram sofrendo com calor extremo, falta de água e incêndios florestais, um treinamento online promovido nos EUA pela organização Covering Climate Now (CCNow) abordou questões que desafiam a imprensa em todo o mundo: como cobrir as mudanças climáticas sem afastar o público?
Como associar o que está acontecendo à ciência do clima? E como achar espaço para o tema em meio a outros acontecimentos que dominam o noticiário?
Não é impossível. E muitos veículos de imprensa pelo mundo estão fazendo isso.
Santiago Saéz, diretor de treinamento da organização, e a gerente de engajamento Elena Gonzalez apresentaram estratégias práticas para transformar a cobertura climática em matérias fáceis de entender e que criem conexão real com leitores e espectadores.
O treinamento completo da Covering Climate Now está disponível em vídeo (em inglês) para quem quiser conhecer os exemplos e as orientações em mais detalhes.
O público quer notícias sobre mudanças climáticas?
A proposta da Covering Climate Now parte de uma constatação que contraria uma percepção frequente nas redações: o público não necessariamente evita notícias sobre mudanças climáticas.
Dados apresentados no treinamento indicam que a preocupação com o aquecimento global é disseminada e que há amplo apoio a ações para enfrentá-lo.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas acreditam que essa preocupação é menos compartilhada do que deveria ser.
Ele citou dados do Reuters Institute e um relatório de 2025 da Oxford Climate Journalism Network para argumentar que a redução do consumo de notícias climáticas não pode ser atribuída apenas ao desinteresse do público: a própria diminuição da oferta desse tipo de conteúdo pelos veículos também contribui.
Humanizar, localizar e buscar soluções
A principal orientação apresentada no treinamento para quem procura entender como comunicar mudanças climáticas é resumida em três eixos: humanizar, tornar local e mostrar soluções.
Humanizar significa mostrar como fenômenos e dados climáticos interferem concretamente na vida das pessoas.
Em vez de fundamentar as matérias apenas de números, gráficos ou explicações científicas, a cobertura deve priorizar pessoas, situações cotidianas e consequências que permitam ao público compreender o que está em jogo.
Tornar local consiste em aproximar uma questão global da realidade de uma comunidade.
Isso pode envolver ouvir pesquisadores e cientistas locais, recorrer a referências que sejam familiares ao público e investigar como decisões relacionadas ao clima afetam diferentes grupos de um bairro, cidade, região ou país.
Durante o treinamento, Gonzalez apresentou exemplos de reportagens que seguiram esses princípios.
Uma delas mostrou os efeitos de uma onda de calor sobre um trabalhador na Flórida, sofrendo com a temperatura e ainda assim sendo obrigado a realizar suas atividades profissionais.
Outra abordou, a partir de Gana, as consequências que mudanças relacionadas aos combustíveis fósseis poderiam ter para agricultores e para a segurança alimentar.
Jornalismo de soluções: sem ingenuidade ou manipulação
O terceiro eixo é o jornalismo de soluções.
Gonzalez ressaltou que isso não significa produzir reportagens positivas ou promover iniciativas ambientais sem rigor na apuração para entender seu real valor.
A proposta é investigar respostas para os problemas climáticos com o mesmo olhar crítico aplicado a qualquer outra pauta, incluindo suas limitações, falhas e possíveis casos de greenwashing.
Como comunicar mudanças climáticas sem complicar a ciência
Outro desafio é traduzir conceitos científicos sem deixar de lado a precisão.
Um dos exemplos apresentados foi uma reportagem sobre enchentes em Nova York, que utilizou uma esponja para explicar por que uma atmosfera mais quente pode contribuir para chuvas mais intensas.
A analogia transformou um processo físico pouco intuitivo em uma imagem cotidiana: uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais umidade, como uma esponja capaz de absorver mais água.
Quando essa água é liberada, as precipitações podem ser mais volumosas.
O exemplo sintetiza uma das principais mensagens do treinamento da CCNow: comunicar a ciência do clima não exige necessariamente longas explicações técnicas.
Recursos visuais, comparações familiares ao público e relatos de pessoas afetadas podem ajudar a tornar fenômenos complexos compreensíveis sem retirar deles sua dimensão científica.
O que a cobertura da pandemia pode ensinar
Saéz comparou o desafio da cobertura climática ao que ocorreu durante a pandemia de Covid-19.
Naquele período, jornalistas de diferentes editorias tiveram de aprender conceitos científicos e incorporá-los à cobertura de educação, economia, saúde, esportes e comportamento.
Para ele, uma abordagem semelhante pode ser aplicada às mudanças climáticas.
Em vez de tratar o assunto principalmente durante grandes desastres ou nas conferências internacionais do clima, como as COPs da ONU, a questão deve envolver diferentes editorias e fazer parte da cobertura cotidiana.
A comparação reforça a mensagem central do treinamento: ampliar a cobertura não significa apenas publicar mais notícias sobre o clima, mas encontrar maneiras de mostrar como ele se relaciona com decisões, problemas e experiências que já fazem parte da vida das pessoas.
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