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Sustentabilidade da imprensa

Com queda de 5%, sites de notícias são a única categoria da internet a perder tráfego enquanto IAs disparam, mostra relatório da Similarweb

Estudo analisou audiência de cinco categorias: E-commerce, Redes Sociais, Buscas, Notícias e Chatbots de Inteligência Artificial

Computador com tela de chatbot de IA

Foto: Aerps via Unsplash




A edição 2026 do relatório Generative AI Landscape, publicado pela empresa de monitoramento Similarweb, traz uma constatação preocupante para o jornalismo tradicional: os sites da categoria Notícias foram apontados como os únicos a perder audiência nesta nova era da internet, ditada pela IA.

O estudo compara o tráfego de cinco categorias de sites. As ferramentas de IA acumularam uma média de 9,5 bilhões de visitas mensais no período analisado, registrando uma alta de 70% em um ano.

O número de visitantes únicos, por sua vez, cresceu 57%. O documento explica que o crescimento maior das visitas em relação ao número de usuários indica que os que já usam IA estão retornando aos chatbots com mais frequência.

No mesmo período, a audiência do segmento Notícias caiu 5%, para uma média de 1,4 bilhão de visitantes únicos mensais no mundo. A categoria Busca avançou modestos 2%, enquanto Redes Sociais e Comércio Eletrônico cresceram 7% cada.

Gráfico barras tráfego sites Internet Similarweb
Fonte: Similarweb

O estudo não aponta diretamente para onde os que deixaram de visitar sites de notícias migraram.

O crescimento de tráfego em redes sociais registrado pela Similarweb pode ser parte desse movimento, graças aos influenciadores de notícias, muitos deles ex-jornalistas que criaram seus próprios canais e que atraem milhões de seguidores.

Mas outro dado do relatório confirma o que outros estudos já indicaram e os veículos de notícias estão sentindo na pele: os chatbots que dão as respostas prontas na maior parte das vezes dispensam o clique em um veículo de imprensa.

Sites de notícias estão entre as principais fontes do ChatGPT

Essa impressão é reforçada por outro dado do relatório. Ao analisar de onde vêm as informações apresentadas pelas ferramentas de IA, sites de notícias estão entre as categorias mais presentes nas fontes citadas pelo ChatGPT.

Entre as 10 mil principais citações examinadas pela Similarweb em computadores nos Estados Unidos, em maio de 2026, sites de avaliações e conteúdo gerado por usuários (UGC) ficaram em primeiro lugar, com 28,9%.

Os sites de notícias aparecem logo depois, respondendo por 26% do total de citações analisadas no ChatGPT.

Gráfico assuntos citados em chatbots de IA
Fonte: Similarweb

Isso não significa que veículos jornalísticos estejam presentes em 26% de todas as respostas. O percentual corresponde apenas à participação da categoria dentro do bloco das 10 mil principais citações analisadas no levantamento.

Embora as referências ainda apareçam em uma parcela pequena do total de interações, a tendência é de aumento.

Nos Estados Unidos, a proporção de respostas do ChatGPT contendo fontes citadas passou de 1,6% em junho de 2025 para 6,8% em maio de 2026.

A frequência dessas citações varia de acordo com o assunto. Em conversas sobre viagens, 22,6% das respostas apresentavam citações. A proporção foi de 13,5% no varejo, 10,7% em esportes, 8% em finanças, 6,6% em tecnologia e 6% em mídia e entretenimento.

Harry Clarkson-Bennett, da DJB Strategies, faz um alerta no relatório:

“Os sites de notícias e empresas jornalísticas precisam encontrar novas formas de atrair e manter públicos na era da IA, com um foco renovado em engajamento e lealdade de audiência, reduzindo a expectativa de que os canais de distribuição tradicionais entreguem os mesmos resultados de antes.”

Perfil dos usuários em transição e a resistência da Geração Z

Embora as ferramentas de IA estejam avançando de forma geral, o perfil dos usuários vem se transformando.

Inicialmente adotadas principalmente por pessoas mais jovens (Geração Z e Millennials), as plataformas de IA agora mostram um perfil muito mais equilibrado: hoje, metade dos usuários tem entre 18 e 34 anos e a outra metade tem 35 anos ou mais, diz o estudo.

Mas nem tudo é entusiasmo. A Similarweb constatou sinais sutis de “fadiga de IA” (“AI fatigue”), especificamente entre os mais jovens.

Discursos de formatura focados no crescimento inevitável da IA têm sido recebidos com protestos e vaias por parte de graduados nos EUA, diz o relatório.

Esse comportamento se reflete no uso de ferramentas alternativas. Um exemplo citado é o mecanismo de busca “No-AI” do buscador DuckDuckGo, que remove completamente resumos gerados por inteligência artificial e atrai um público jovem.

Nos EUA, o grupo de 18 a 24 anos representa apenas 16% da população geral de usuários de internet, mas compõe expressivos 33% dos usuários da ferramenta “No-AI”.

De acordo com o estudo da Similarweb, essa resistência confirma que o engajamento humano direto se tornará cada vez mais um ativo valioso.

SEO ‘clássico’ continua importante

E onde fica o SEO nisso tudo?

Para quem deseja conquistar visibilidade dentro das respostas de IA (prática conhecida como GEO, ou Generative Engine Optimization), o relatório traz um lembrete fundamental: não existem atalhos, e o SEO clássico continua sendo a base de tudo.

Isso porque as principais ferramentas de busca de IA dependem da tecnologia RAG (Retrieval-Augmented Generation), que recupera conteúdos em tempo real a partir de índices de motores de busca tradicionais.

Se a visibilidade orgânica tradicional de uma marca cai, a sua presença nas buscas de IA cairá na mesma proporção, diz a Similarweb.

Lily Ray, Vice-Presidente de SEO e Busca por IA da empresa Amsive, alerta no relatório para o risco de tentar burlar esse sistema:

“Recentemente, vimos problemas decorrentes da produção de conteúdo em massa utilizando ferramentas de IA, em um esforço para ganhar visibilidade nas buscas em chatbots, que acabaram prejudicando o desempenho de SEO.

Estamos presenciando o declínio inevitável de tráfego e visibilidade de muitos desses sites. Como eles cortaram caminho em vez de focar em conteúdo valioso e de alta qualidade, agora enfrentam uma jornada de recuperação muito mais íngreme, tanto em SEO quanto em GEO, do que se nunca tivessem buscado esse atalho.”

Páginas citadas e páginas visitadas seguem caminhos diferentes

A análise da Similarweb também revelou uma disparidade marcante entre as páginas que o ChatGPT utiliza como fontes e aquelas que efetivamente recebem o tráfego dos usuários que decidem clicar nas referências fornecidas pela IA.

Do total de URLs citadas pelo ChatGPT, 65% estavam dois ou três níveis de pastas abaixo da página inicial dos sites (páginas profundas de conteúdo). As páginas posicionadas no segundo nível de profundidade, sozinhas, representavam 41,7% das citações.

Por outro lado, 58,8% de todo o tráfego de referência proveniente das plataformas de IA chegou diretamente às páginas iniciais (homepages) dos sites.

Aleyda Solis, fundadora da Orainti e especialista em SEO, explicou que essa distinção altera profundamente a forma como o desempenho deve ser otimizado:

“As páginas citadas contêm o conteúdo que os sistemas de IA usam como evidência, enquanto as páginas de tráfego mostram por onde os usuários entram no site.

Elas servem a propósitos diferentes: é preciso fortalecer as páginas profundas que influenciam as respostas da IA, ao mesmo tempo em que se garante que as páginas iniciais, que recebem os cliques, ofereçam uma experiência relevante, persuasiva e pronta para a conversão.”

O impacto das atualizações de produto e o efeito “portal”

Essa concentração massiva de tráfego direcionado para as páginas iniciais não é um comportamento estático, mas sim o resultado de mudanças no design das próprias ferramentas.

A Similarweb observa que a atualização de busca lançada pelo ChatGPT em 7 de maio de 2026 redefiniu drasticamente o comportamento de clique.

O tráfego de referência geral cresceu significativamente nas semanas seguintes. Contudo, a proporção de visitas em homepages mais do que dobrou, saltando de patamares próximos a 25% para quase 60% após a mudança.

Em vez de enviar os usuários diretamente para páginas de artigos ou tópicos específicos, os novos links em azul em destaque no ChatGPT passaram a funcionar como um verdadeiro portal de entrada.

O comportamento de “prompting” muda as buscas no Google

Por fim, a Similarweb também destaca que o impacto da IA generativa não está apenas desviando tráfego, mas alterando a forma como os usuários pesquisam, usando a forma de conversa adotada nas interações com chatbots também em buscadores clássicos como o Google.

Isso foi percebido analisando-se o tamanho médio das consultas de pesquisa no Google nos EUA.

Os usuários estão deixando de lado as consultas curtas por palavras-chave e fazendo buscas em linguagem natural, com frases mais longas e complexas, como se fossem prompts de IA.

A participação de buscas longas (contendo 5 ou mais palavras) no total de pesquisas realizadas no Google nos EUA saltou de 13,6% em maio de 2025 para 16,1% em maio de 2026.

Para sites de notícias e empresas jornalísticas, aponta o relatório, essa evolução exige que o conteúdo seja estruturado para responder a perguntas reais e complexas, antecipando as dúvidas dos usuários tanto no mundo das buscas tradicionais, no Google e em outros buscadores, quanto nos chatbots de IA.


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