Há três anos atrás, antes do lançamento do ChatGPT, se alguém precisava consertar uma torneira que pingava ou entender o que é inflação, normalmente fazia uma de três coisas: digitava a pergunta no Google, buscava no YouTube um vídeo de passo a passo ou gritava desesperado por ajuda para a Alexa.
Hoje, milhões de pessoas começam de outro jeito: abrem o ChatGPT e simplesmente perguntam o que precisam saber.
Como professora e diretora de Impacto de Pesquisa e Estratégia de IA da Mississippi State University e pesquisadora em recuperação de informação, vejo que essa mudança na “primeira ferramenta” que as pessoas usam para buscar informações é o resumo de como o ChatGPT transformou o uso cotidiano da tecnologia.
3 anos ChatGPT e a mudança na busca
A maior mudança não é o desaparecimento das outras ferramentas. É que o ChatGPT virou a nova porta de entrada para a informação.
Poucos meses depois de seu lançamento, em 30 de novembro de 2022, o ChatGPT já tinha 100 milhões de usuários semanais.
No fim de 2025, esse número chegou a 800 milhões. Isso o torna uma das tecnologias de consumo mais usadas do planeta.
Pesquisas mostram que esse uso não é só curiosidade – reflete uma mudança real de comportamento.
Um estudo do Pew Research Center de 2025 constatou que 34% dos adultos nos EUA já usaram o ChatGPT, praticamente o dobro da fatia de 2023. Entre adultos com menos de 30 anos, a maioria (58%) já testou a ferramenta.
Uma pesquisa da AP-NORC mostra que cerca de 60% dos adultos nos EUA que usam IA dizem que recorrem a ela para buscar informações, tornando esse o uso mais comum da tecnologia de IA. Entre os menores de 30 anos, o número sobe para 74%.
Dos buscadores ao ChatGPT
Motores de busca tradicionais ainda são a espinha dorsal do ecossistema de informação online, mas o tipo de busca que as pessoas fazem mudou de forma mensurável desde a chegada do ChatGPT.
As pessoas estão trocando de ferramenta na hora de dar o primeiro passo.
Por muitos anos, o Google era o padrão para tudo, de “como resetar meu roteador” a “explique o teto da dívida”.
Essas consultas informacionais básicas representavam uma fatia enorme do tráfego de busca.
Mas são justamente essas perguntas rápidas, de esclarecimento, do tipo “o que isso quer dizer” que o ChatGPT agora responde de forma mais rápida e limpa do que uma página cheia de links.
E o ChatGPT vai desbancando o Google
E as pessoas perceberam. Uma pesquisa de consumidores feita em 2025 mostrou que 55% dos entrevistados agora usam os chatbots de IA ChatGPT, da OpenAI, ou Gemini, do Google, para tarefas que antes pediriam ao Google Search, com índices ainda maiores no Reino Unido.
Outra análise, feita com base em mais de 1 bilhão de sessões de busca, constatou que o tráfego vindo de plataformas de IA generativa está crescendo 165 vezes mais rápido que as buscas tradicionais, e cerca de 13 milhões de adultos nos EUA já adotaram a IA generativa como principal ferramenta para descobrir coisas online.
Isso não significa que as pessoas pararam de “dar um Google”, mas que o ChatGPT puxou para si o tipo de pergunta em que o usuário prefere uma explicação direta a uma lista de links.
Ficou curioso sobre uma mudança de política? Precisa de uma definição? Quer um jeito educado de responder a um e-mail desconfortável? O ChatGPT é mais rápido, soa mais conversacional e passa uma sensação maior de resposta “definitiva”.
O Google tenta não ficar para trás do ChatGPT
Ao mesmo tempo, o Google não está parado. Os resultados de busca já não são os mesmos de três anos atrás, porque a empresa passou a incorporar seu sistema de IA Gemini diretamente no topo da página.
Os resumos “AI Overview” que aparecem acima dos links tradicionais agora respondem instantaneamente muitas perguntas simples – às vezes com precisão, às vezes nem tanto.
De qualquer forma, muita gente nem chega a rolar a página para além desse resumo gerado por IA. Isso, somado ao efeito do ChatGPT, ajuda a explicar o aumento dos chamados “zero-click searches” – buscas em que o usuário não clica em nada.
Um relatório baseado em dados da Similarweb mostrou que o tráfego do Google para sites de notícias caiu de mais de 2,3 bilhões de visitas em meados de 2024 para menos de 1,7 bilhão em maio de 2025, enquanto a fatia de buscas relacionadas a notícias que terminam em zero cliques subiu de 56% para 69% em um ano.
O Google Search é muito bom em apontar uma ampla variedade de fontes e pontos de vista, mas o resultado pode parecer poluído e pensado mais para o clique do que para a clareza.
O ChatGPT, por sua vez, entrega uma resposta mais focada e conversacional, que prioriza a explicação em vez do ranqueamento.
Em compensação, a resposta do ChatGPT pode carecer da transparência de fontes e da multiplicidade de perspectivas que muitas vezes aparecem em uma busca no Google.
Em termos de precisão, os dois podem errar. A força do Google está em permitir que o usuário confronte várias fontes.
Já a precisão do ChatGPT depende bastante da qualidade do comando e da capacidade do usuário de reconhecer quando uma resposta precisa ser verificada em outro lugar.
Smart speakers, YouTube e o efeito ChatGPT em 3 anos
O impacto do ChatGPT foi além dos motores de busca. Assistentes de voz, como os alto-falantes Alexa e o Google Home, continuam com números altos de adoção, mas esse índice caiu um pouco.
Um levantamento de estatísticas de busca por voz de 2025 estima que cerca de 34% das pessoas a partir de 12 anos tenham um smart speaker, ante 35% em 2023.
Não é uma queda dramática, mas a ausência de crescimento pode indicar que perguntas mais complexas estão migrando para o ChatGPT ou ferramentas semelhantes.
Quando alguém quer uma explicação detalhada, um plano passo a passo ou ajuda para redigir um texto, um assistente de voz que responde em uma frase curta passa a parecer limitado.
Já o YouTube continua gigante. Em 2024, a plataforma tinha aproximadamente 2,74 bilhões de usuários, com crescimento constante desde 2010.
Entre adolescentes nos EUA, cerca de 90% dizem usar o YouTube, o que faz dele a plataforma mais usada nessa faixa etária. Mas o tipo de vídeo que as pessoas procuram está mudando.
Hoje, muita gente tende a começar pelo ChatGPT e só depois ir para o YouTube se precisar das informações adicionais que um vídeo de passo a passo oferece.
Para muitas tarefas do dia a dia, como “explique meus benefícios de saúde” ou “me ajude a escrever um e-mail de reclamação”, as pessoas pedem ao ChatGPT um resumo, um roteiro ou um checklist.
Vão para o YouTube apenas quando precisam ver um processo físico acontecendo.
Dá para ver um padrão parecido em áreas mais especializadas. Engenheiros de software, por exemplo, há muito tempo recorrem a sites como Stack Overflow em busca de dicas e trechos de código.
Mas o volume de perguntas começou a cair forte depois do lançamento do ChatGPT, e uma análise sugere que o tráfego geral caiu cerca de 50% entre 2022 e 2024. Quando um chatbot consegue gerar um trecho de código e uma explicação sob demanda, menos gente perde tempo digitando uma pergunta em um fórum público.
Depois de 3 anos ChatGPT, onde isso nos levou?
Três anos depois, o ChatGPT não substituiu o resto do “arsenal” tecnológico – ele reorganizou esse arsenal.
A busca padrão mudou de lugar. Motores de busca continuam sendo a ferramenta para mergulhos profundos e comparações complexas.
O YouTube continua sendo o caminho para ver pessoas de verdade fazendo coisas de verdade. Os smart speakers continuam úteis pela conveniência das mãos livres.
Mas, quando as pessoas precisam entender alguma coisa, muitas agora começam com uma conversa em chat, não com uma caixa de busca.
Esse é o verdadeiro efeito ChatGPT: ele não só acrescentou mais um app ao nosso telefone – mudou, silenciosamente, a forma como a gente procura informações em primeiro lugar.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.






