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Liberdade de imprensa

Um ano sob Trump: RSF faz linha do tempo da ‘guerra total contra a liberdade de imprensa’

Organização listou as violações, que a seu ver elevam Trump à categoria de ‘predador da liberdade de imprensa’

Donald Trump com boné MAGA e punho cerrado

Foto: Truth Social



No relatório sobre o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) afirma que os ataques à liberdade de imprensa nos Estados Unidos se intensificaram a ponto de ameaçar os fundamentos democráticos do país.


Comparando a postura de Donald Trump à de líderes autoritários como Vladimir Putin, Xi Jinping, Viktor Orbán e Daniel Ortega, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) afirmou em relatório marcando um ano do presidente no cargo que o presidente dos Estados Unidos está “travando uma guerra total contra a liberdade de imprensa e o jornalismo”.

A organização, que monitora “predadores da liberdade de imprensa” no mundo, compilou uma linha do tempo dos ataques do governo americano desde a posse de Trump, em 20 de janeiro de 2025. Agora ele é considerado na reta final para se tornar um dos predadores.

Para a RSF, há sérios riscos de que o país que já foi modelo em liberdade” afunde a níveis de repressão semelhantes aos de regimes autoritários”.

“Depois de ganhar a reeleição em 2024, Donald Trump prometeu ser um ditador ‘desde o primeiro dia”. Quando se trata de liberdade de imprensa, ele manteve sua palavra, estendendo a guerra contra a imprensa que iniciou desde a campanha eleitoral que o elegeu para um primeiro mandato com graves ataques globais ao acesso a informações confiáveis”, diz a RSF.

Desqualificar e atacar a imprensa é padrão Trump desde o primeiro mandato

A história não é nova, lembra a entidade.

“Nos últimos 10 anos, Trump rotulou jornalistas e meios de comunicação com os quais discorda como “inimigos do povos” e “fake news”.

Esses ataques podem estar contribuindo para o declínio da confiança no jornalismo verificada em diversas pesquisas.

De acordo com o Instituto Gallup, apenas 28% dos americanos têm um “muita” ou “um nível razoável” de confiança na mídia.

Em seu segundo mandato, no entanto, Trump combinou sua história de retórica violenta com uma série de ações concretas que prejudicaram severamente a liberdade de imprensa nos Estados Unidos e em todo o mundo, assinala a RSF.

“Nos últimos doze meses, ele censurou dados do governo, desmantelou as emissoras públicas americanas, armou agências governamentais independentes para punir a mídia que critica suas ações, interrompeu o financiamento da ajuda para a liberdade da imprensa internacionalmente, processou meios de comunicação desfavorecidos, aplicou pressão para instalar ‘comparsas’ para liderar outros e muito mais.”

Essas ações ecoam as medidas anti-imprensa dos implacáveis ditadores na categoria “política” da Lista de Predadores da Liberdade de Imprensa de 2025, como o presidente Daniel Ortega na Nicarágua e o presidente russo Vladimir Putin.

Liberdade de imprensa pode afundar ainda mais

A RSF se disser preocupada com o risco de “as táticas cada vez mais autoritárias de Trump possam descer para níveis ainda mais alarmantes”.

A Lista de Predadores da Liberdade de Imprensa da organização expõe tentativas sistêmicas de silenciar a imprensa livre, destacando personagens da sociedade que exercem uma influência desproporcional e prejudicial na liberdade de imprensa em cinco categorias: política, de segurança, jurídica, econômica e social.

O presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA, Brendan Carr, já entrou na lista de 2025 na categoria “jurídica”, enquanto o magnata da tecnologia alinhado com Trump, Elon Musk, foi listado na categoria “econômica”.

Trump, predador da liberdade de imprensa

A RSF observa que a dimensão dos ataques pode passar despercebida  devido à rotatividade do ciclo de notícias.

Mas quando são vistos em conjunto, a conclusão é inevitável: o presidente dos EUA está travando uma guerra total contra a liberdade de imprensa e o jornalismo.

“Trump é um predador da liberdade de imprensa”, afirma a Repórteres Sem Fronteiras.

“Qualquer cobertura, jornalista ou veículo que o desagrade se torna um alvo, e não apenas com ameaças vazias. Ele e sua administração saíram do seu caminho para punir, investigar, prejudicar, reduzir financiamento e castigar a mídia independente.

A guerra de Trump à liberdade de imprensa tem consequências dramáticas para a democracia americana e a cobertura de notícias confiáveis em todo o mundo, e precisa ser interrompida.”

Lista de violações: circo dos horrores

A linha do tempo com as violações à liberdade de imprensa nos EUA em um ano de Trump de volta à Casa Branca é um circo dos horrores à luz dos padrões de países democráticos.

Ela reúne atos jurídicos e legislativos, ataques pessoais sobretudo contra jornalistas mulheres, ameaças a negócios da mídia que dependem de aprovação do governo e o endosso a práticas das grandes plataformas de mídia social que favorecem desinformação e discurso de ódio.

Janeiro: início explosivo do segundo mandato de Trump

7 de janeiro – A Meta desmantela o programa de checagem de fatos, em um exemplo inicial de cumprimento antecipado de ameaças de Trump. O CEO Mark Zuckerberg e outros executivos de Big Tech comparecem à posse de Trump pouco depois.

20 de janeiro – Trump assina ordem executiva para “encerrar a censura federal”, eliminando o monitoramento governamental de desinformação e informação enganosa.

22 de janeiro – O presidente da FCC (Comissão Federal de Comunicações), Brendan Carr, restabelece queixas de licenciamento contra as redes ABC, CBS e NBC pela cobertura das eleições de 2024, mas não restabelece uma queixa semelhante contra a Fox News, aliada histórica de Trump.

24 de janeiro – Trump congela quase toda a ajuda externa, desmantela a USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) e corta mais de US$ 268 milhões destinados à liberdade de imprensa; veículos independentes em vários países entram em caos.

29 de janeiro – Carr abre uma investigação sobre as redes públicas PBS e NPR, em paralelo a esforços políticos para cortar seu financiamento federal.

Fevereiro: sanções e censura

3 de fevereiro – O governo derruba milhares de páginas oficiais dos EUA com informações que vão de vacinas a mudança climática.

6 de fevereiro – Trump impõe sanções a autoridades do TPI (Tribunal Penal Internacional) em retaliação à investigação de crimes de guerra em Gaza, incluindo ataques contra centenas de jornalistas.

8 de fevereiro – Trump fecha acordo para receber indenização US$ 20 bilhões da CBS por ter editado uma entrevista com sua adversária eleitoral, a ex-vice-presidente Kamala Harris.

11 de fevereiro – A Casa Branca barra repórteres da Associated Press por se recusarem a adotar o nome preferido por Trump para o Golfo do México.

21 de fevereiro – O governo demite trabalhadores responsáveis por pedidos via FOIA (Lei de Liberdade de Informação), criando barreiras ao acesso de repórteres a dados.

25 de fevereiro – A Casa Branca anuncia mudanças no “press pool” e diz que passará a escolher quem pode participar das coletivas.

Março: radiodifusão pública sob ataque

14 de março – Trump decreta o desmonte da USAGM (U.S. Agency for Global Media, agência que supervisiona a alocação de recursos a emissoras públicas dos EUA), responsável por financiar a VOA (Voice of America, emissora pública internacional), além de RFE/RL, MBN, Radio/TV Marti e RFA. A RSF entra com ação judicial para salvar a VOA.

14 de março – Em discurso, Trump acusa a imprensa, sem evidências, de “comportamento ilegal”, fala vista como incentivo para o Departamento de Justiça mirar inimigos percebidos por ele na mídia.

15 de março – O governo coloca toda a equipe da VOA em licença administrativa, interrompendo praticamente toda a produção jornalística.

Abril: novos cortes e pressão jurídica

13 de abril – Trump começa a punir escritórios de advocacia que fazem trabalho pro bono com o qual ele não concorda, incluindo atuação na proteção de jornalistas.

15 de abril – O governo anuncia que planeja cortar o financiamento da NPR e da PBS.

25 de abril – O Departamento de Justiça revoga uma política que impedia a busca por registros telefônicos de repórteres.

Maio: restrições de acesso

13 de maio – Repórteres de agências de notícias são barrados no Air Force One durante a viagem de Trump ao Oriente Médio.

15 de maio – Mais de 500 funcionários da VOA recebem avisos de demissão, apesar de uma liminar obtida pela RSF e coautores, incluindo jornalistas da VOA e sindicatos.

24 de maio – O secretário de Defesa Pete Hegseth limita o acesso de jornalistas credenciados dentro do Pentágono, dificultando reportagens sobre a sede de defesa do país.

Junho: repressão e violência contra repórteres

3 de junho – A conselheira sênior da USAGM, Kari Lake, apresenta planos de cortar mais de 900 funcionários.

8 de junho – Trump envia a Guarda Nacional a Los Angeles após protestos contra operações de imigração.

14 de junho – O jornalista Mario Guevara é detido ao cobrir operações de imigração em Atlanta, na Geórgia. As acusações são retiradas e ele é liberado por ordem, mas a polícia local o transfere ao ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), que inicia procedimentos de deportação para El Salvador, apesar de seu status legal de trabalho.

Julho: pressão sobre entretenimento e imprensa

11 de julho – Um juiz emite uma liminar temporária contra o LAPD (Departamento de Polícia de Los Angeles) por uso de força excessiva; desde 6 de junho, ao menos 70 ataques contra jornalistas são relatados.

18 de julho – Contrato do “The Late Show with Stephen Colbert” não é renovado após o apresentador criticar o acordo entre a Paramount (controladora da CBS) e Trump, levantando dúvidas sobre a independência política da emissora.

19 de julho – Trump processa o Wall Street Journal por reportagem sobre seus vínculos com Jeffrey Epstein.

Agosto: jornalistas estrangeiros na mira

8 de agosto – O Departamento de Segurança Interna propõe restrições severas a vistos para jornalistas estrangeiros nos EUA.

26 de agosto – O embaixador indicado por Trump na Turquia, Tom Barrack, diz a repórteres libaneses para “agirem de forma civilizada” e os acusa de serem “animalísticos” ao serem questionados.

Setembro: endurecimento após morte de Charlie Kirk

17 de setembro – A ABC tira do ar o apresentador Jimmy Kimmel após pressão de Brendan Carr (FCC) por comentários sobre a reação de políticos republicanos à morte de Charlie Kirk.

19 de setembro – O Departamento de Defesa exige que repórteres assinem um juramento comprometendo-se a publicar apenas informações “autorizadas para divulgação pública”; a maior parte do “press pool” do Pentágono abandona o trabalho em massa.

28 de setembro – A repórter Asal Rezaei é atingida por uma “pepper ball” que atravessa a janela do carro perto de uma instalação do ICE em Broadview, Illinois. Agentes também apontam armas para jornalistas; outros repórteres são atingidos nos dias seguintes.

29 de setembro – O YouTube concorda em pagar US$ 24,5 milhões para encerrar um processo com Trump após suspensões de contas ligadas ao 6 de janeiro de 2021.

30 de setembro – Um agente do ICE agride dois jornalistas em frente a um tribunal de imigração em Nova York; um deles, L. Vural Elibo (do veículo turco Anadolu), é hospitalizado.

Outubro: deportação e novas barreiras

3 de outubroMario Guevara é deportado para El Salvador após mais de 100 dias sob custódia do ICE.

17 de outubro – Trump reapresenta processo por difamação contra o New York Times por sua cobertura das eleições de 2024.

18 de outubro – Policiais do LAPD atacam jornalistas no protesto No Kings, em violação direta da liminar de julho.

28 de outubro – Repórteres são barrados de cobrir uma audiência de imigração em Maryland; o acesso a procedimentos de imigração é prejudicado por uma paralisação do governo.

31 de outubro – O governo restringe o acesso da imprensa na Ala Oeste e barra repórteres da área do segundo andar conhecida como “Upper Press”.

Novembro: “Hall of Shame” e ataques à imprensa

10 de novembro – Trump ameaça processar a BBC pela edição de imagens da insurreição de 6 de janeiro de 2021.

17 de novembro – O Departamento de Estado anuncia novas restrições e regras de credenciais para jornalistas no prédio Harry S. Truman.

18 de novembro – Trump minimiza o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi (2018) e defende o príncipe herdeiro saudita Muhammed bin Salman.

18 de novembro – Trump grita “Quieta, porquinha!” para a jornalista Catherine Lucey (Bloomberg) e faz outros ataques pessoais a repórteres mulheres ao longo de novembro e no início de dezembro.

28 de novembro – O governo lança o site “Hall of Shame” mirando veículos e incentiva cidadãos a enviarem reclamações a uma “tip line” administrada pela Casa Branca, voltada a jornalistas.

Dezembro: ordem judicial ignorada e pressão sobre mídia

2 de dezembro – Trump anuncia que fechará escritórios da VOA no exterior, contrariando uma ordem judicial de retorno ao trabalho emitida em abril.

10 de dezembro – Trump se envolve na possível fusão entre Warner Bros. Discovery, Paramount e Netflix e pressiona pela venda do canal CNN.

20 de dezembro – A editora-chefe da CBS, Bari Weiss, retira uma reportagem sobre deportação do “60 Minutes”, gerando críticas sobre politização da emissora. O episódio foi ao ar neste fim de semana, sem comentários do governo sobre o caso, o que tinha sido apontado como motivo para o adiamento.

As violações continuaram nos primeiros dias de 2026. Na semana passada, o FBI foi à casa de uma jornalista do Washington Post que publicou reportagens sobre demissões no governo Trump a partir de documentos internos vazados por uma fonte – prática consagrada no jornalismo e protegida por lei nos EUA.

Os agentes fizeram buscas e apreenderam computadores e outros equipamentos, embora ela não estivesse sob investigação e sim o funcionário público que supostamente entregou os documentos confidenciais.

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