Após semanas de indiretas e acusações nas redes sociais, o bilionário Elon Musk deu o primeiro passo para um processo por difamação contra Alex Gibney, diretor de “Musk”, documentário de quase quatro horas que conta a vida do dono da Tesla e chegará a cinemas dos EUA em 9 de outubro.
O advogado do bilionário, Alex Spiro, enviou uma carta à produtora do filme, Jigsaw Productions, acusando o diretor de difamação, de se recusar a ouvi-lo (o que ele nega) e de promover em uma das suas entrevistas uma teoria da conspiração desmentida sobre satélites da Starlink.
Gibney, respeitado documentarista detentor de um Oscar, não parece preocupado com o risco e continua se posicionando firmemente contra os ataques de Musk, que o chamou de “pessoa horrível” e “sem integridade”, em uma batalha que deve aumentar o interesse sobre o filme.
Em um post no X comentando a informação da ameaça de processo, Gibney escreveu: “Musk claims to be a “free speech absolutist.” It appears that he is more interested in FEE speech”, fazendo um trocadilho com as palavras free (livre) e fee (preço).
Em tradução livre, “Musk diz ser um ‘absolutista da liberdade de expressão’. Parece estar mais interessado em expressão que tem um preço.”
No Festival de Cinema de Toronto, onde o filme foi exibido após a estreia no Festival de Veneza, o diretor também bateu forte no empresário que retratou em uma produção com quase quatro horas de duração, depoimentos de pessoas próximas e um avatar com falas reais do dono do X.
“Ele parece ter perdido a cabeça e ameaçou processar, o que não é o que eu esperaria de alguém que se diz um absolutista da liberdade de expressão.”
E foi bem direto ao sugerir a Musk que “aja como adulto e aceite a liberdade de expressão”.
As reações não foram apenas à ameaça de processo, mas a diversas declarações de Elon Musk em sua conta no X.
O empresário chamou o filme de “hit piece” (obra feita para atacar) e disse que Gibney é “um velho amargurado que perdeu o rumo há muito tempo”.
Também afirmou que o documentário “erra o alvo” e comete “o pecado fatal de ser chato durante quatro horas”.
A carta do advogado de Musk
A carta enviada pelo advogado de Elon Musk pode ser considerada uma medida pré-processual: além de ameaçar uma ação por difamação, coloca formalmente os produtores em aviso e pede que preservem documentos relacionados ao filme para um eventual processo.
Ela acusa diretor de “não cooperar” para verificar os fatos veiculados no documentário.
O que Spiro queria, de acordo com jornais que tiveram acesso ao documento, era o acesso à integra do filme antes da sua estreia.
“Como você se recusou a exibir o filme, a verificar os fatos conosco e a ouvir as testemunhas que o procuraram, temos todos os motivos para acreditar que ele contém outras declarações sobre o Sr. Musk que você sabe serem falsas, ou cuja falsidade você deliberadamente optou por não investigar.”
O advogado também destacou outro trecho do documentário, que mostra uma entrevista com Ashley St. Clair, ex de Musk.
Nesse trecho, St. Clair descreve mensagens enviadas por Musk antes das eleições que elegeram Trump pela segunda vez. O bilionário menciona que estava “otimista” sobre a vitória e que “liberaria uma anomalia na Matrix” com “mais de 10 mil lasers no espaço”.
De acordo com Spiro, esse trecho teria propagado uma teoria da conspiração já desmentida sobre uma fraude eleitoral cometida pela Starlink na vitória de Trump.
“Você está ciente, antes da publicação, de que a insinuação é falsa, que o material que a refuta é público e que você optou por não saber o restante”, diz outro trecho da carta.
Resposta de Gibney
O diretor de “Musk” assegurou em Toronto que o bilionário recusou diversas tentativas de contato da equipe do filme.
“Com exceção de seus comentários no Twitter, não recebemos nenhuma resposta”, disse.
Ele também reafirmou que a pesquisa envolveu múltiplas fontes, checadores independentes e revisão jurídica “linha por linha”.
“Todo documentário que faço passa por uma verificação rigorosa, e este foi verificado ainda mais rigorosamente que o habitual.”
Em entrevista à agência Reuters durante o festival canadense, Alex Gibney disse que o filme é na verdade, um sobre como o poder absoluto corrompe.” Ou, talvez, sobre como o poder revela o caráter de alguém”. completou.
Poder dos oligarcas da mídia
Para o diretor, no entanto, a maior ameaça à produção não é um processo de Musk, mas sim a possível venda da Warner Bros à Paramount, administrada por David Ellison, um conservador próximo a Donald Trump.
Hoje, a Warner é dona da HBO, que se comprometeu a exibir o documentário nos streamings após a sua exibição no cinema.
“Preocupo-me com as nuvens de tempestade no horizonte e com o fato de que a HBO está em meio a uma batalha de aquisição pela Paramount”.
Larry Ellison, citado no filme, é um dos amigos de Elon e um dos investidores na aquisição do Twitter.
Produtora de “Musk” responde
A produtora de Alex Gibney divulgou uma carta rebatendo as ameaças.
No documento, eles ironizaram a tentativa de violar o direito à liberdade de expressão, tão mencionado pelo bilionário ao defender a propagação de discursos de ódio nas suas redes.
“O direito de participar de debates abertos e análises baseadas em fatos sobre figuras públicas poderosas é protegido pela Primeira Emenda — algo que deve ser reconhecido e defendido por todos os americanos, incluindo os associados de Elon Musk, que se autoproclamou um ‘absolutista da liberdade de expressão’.”
Processo de difamação é “piada”, diz ex de Musk
Ouvida pela rádio pública dos EUA, NPR, Ashley St. Clare ironizou a carta do advogado de Musk, chamando as ameaças legais de “uma piada”.
“É mais provável que eles colonizem Marte do que ganhem um processo por difamação contra Alex Gibney”, afirmou ao jornal.
O processo pode, de fato, ser difícil, afirmou uma especialista ouvida pela rádio. De acordo com Genevieve Lakier, os advogados do bilionário precisam comprovar que o diretor agiu de má fé veiculando uma informação falsa.
Para Lakier, a carta em tom de ameaça é uma forma de tentar suprimir a liberdade de expressão de Gibney.
“Parece que Musk não gosta do documentário, então ele quer fazer tudo o que puder para impedi-lo e intimidar os distribuidores.
Seria uma democracia muito mais pobre se não tivéssemos permissão para fazer documentários sobre figuras públicas que as criticassem.”
Quase quatro horas de filme
O filme “Musk” teve pré-estreias nos festivais de Veneza e de Toronto.
A estreia em cinemas estava prevista para 16 de outubro em cinemas de Los Angeles e Nova York, mas foi antecipada para não coincidir com o lançamento de “You Can See Everything”, que conta a história de Elizabeth Holmes, dona da empresa falida de testes sanguíneos Theranos.
A produção tem 3h45min, acompanhando o período desde o começo da carreira empresarial do bilionário até a sua passagem pelo governo de Donald Trump, onde ele foi nomeado como responsável por um programa de eficiência na administração pública.
Apesar de não ter a participação de Musk, o documentário conta com a presença de algumas pessoas importantes na vida do bilionário, como ex-mulheres, o pai e jornalistas especializados em tecnologia que acompanham o setor e a trajetória dele.
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