Temperaturas recordes, oceanos mais quentes, emissões de CO₂ em alta e eventos climáticos extremos. As notícias sobre mudanças climáticas se multiplicam, acompanhadas de números que ajudam a dimensionar o que está acontecendo com o planeta.
Mas de onde vêm esses dados? Como são calculados? E o que realmente revelam sobre o aquecimento global?
Organizações como a Organização Meteorológica Mundial (WMO), o serviço europeu Copernicus e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estão entre as principais referências utilizadas pela imprensa internacional para acompanhar as transformações do clima.
Às vésperas da COP31, que será realizada em novembro, na Turquia, dez indicadores ajudam a entender as notícias sobre mudanças climáticas, com os dados mais recentes disponíveis e as fontes responsáveis pelas informações.
1. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados
O período de 2015 a 2025 reúne os 11 anos mais quentes desde o início dos registros globais de temperatura, no século XIX.
A informação foi confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (WMO) no relatório Estado do Clima Global 2025, divulgado em 23 de março de 2026. Segundo o levantamento, 2025 foi o segundo ou terceiro ano mais quente da série histórica, dependendo da base de dados utilizada, com temperatura média de aproximadamente 1,43°C acima dos níveis pré-industriais.
O aquecimento continuou em 2026. Segundo o Copernicus, em boletim divulgado em 12 de outubro, setembro foi o segundo mais quente já registrado para o mês, com temperatura global 1,63°C acima da média pré-industrial.
Foi também o segundo mês consecutivo acima de 1,5°C, em meio ao fortalecimento do El Niño, fenômeno natural que eleva as temperaturas do Pacífico e influencia o clima em várias partes do mundo.
Isso não significa, porém, que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C, prevista no Acordo de Paris, tenha sido formalmente ultrapassada. O limite se refere ao aquecimento médio de longo prazo, não ao resultado de um mês ou de um ano isolado.
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2. A concentração de CO₂ na atmosfera já supera em cerca de 50% os níveis pré-industriais
A quantidade de dióxido de carbono na atmosfera continua aumentando, mesmo depois de décadas de negociações internacionais para reduzir as emissões.
Em 2025, a concentração atmosférica de CO₂ chegou a aproximadamente 427 partes por milhão (ppm), segundo o relatório Global Energy Review 2026, publicado em abril pela Agência Internacional de Energia (IEA).
O número representa um aumento de cerca de 2,4 ppm em relação a 2024 e está aproximadamente 50% acima dos níveis anteriores à industrialização, quando a concentração era de cerca de 280 ppm.
Uma distinção importante para compreender as notícias sobre o clima é que as emissões representam a quantidade de CO₂ lançada a cada ano, enquanto a concentração indica quanto desse gás está acumulado na atmosfera.
Como parte do CO₂ permanece no sistema climático por muito tempo, sua concentração pode continuar subindo mesmo quando o ritmo de crescimento das emissões diminui.
3. As emissões mundiais de CO₂ continuam batendo recordes
Apesar dos compromissos assumidos pelos governos e da expansão das tecnologias de energia limpa, as emissões de dióxido de carbono relacionadas à energia voltaram a crescer em 2025.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o aumento foi de aproximadamente 0,4%, levando o total a quase 38,4 bilhões de toneladas de CO₂, um novo recorde.
Os dados constam do Global Energy Review 2026, publicado em 20 de abril. O levantamento inclui emissões da queima de combustíveis, processos industriais e outras atividades ligadas ao setor energético.
O crescimento foi o mais lento desde 2021. Ainda assim, o total ficou cerca de 5% acima do registrado em 2019.
A queima de carvão, petróleo e gás natural para geração de energia, transportes e atividades industriais continua entre as principais fontes de CO₂.
A desaceleração das emissões representa uma mudança importante, mas ainda não equivale à redução sustentada necessária para conter o aquecimento global.
4. A energia solar cresce em ritmo recorde, mas os combustíveis fósseis continuam dominantes
A expansão das fontes renováveis é uma das principais transformações em curso no setor energético mundial.
Em 2025, pela primeira vez, a energia solar respondeu pela maior parcela individual do crescimento da demanda global de energia, contribuindo com mais de 25% do aumento, segundo a Agência Internacional de Energia.
As fontes de baixa emissão, incluindo renováveis e energia nuclear, responderam juntas por quase 60% desse crescimento.
Na geração de eletricidade, a energia solar acrescentou aproximadamente 600 terawatts-hora em um único ano, o maior aumento anual já registrado para uma fonte de geração, desconsiderados períodos de recuperação de grandes crises.
Mas os combustíveis fósseis continuam predominantes. Segundo o balanço da IEA, o carvão respondeu por 34% da eletricidade produzida no planeta em 2025, seguido pelo gás natural, com 21%.
Por outro lado, renováveis e energia nuclear alcançaram juntas a participação recorde de 43% da geração mundial de eletricidade.
Os números revelam uma das principais contradições da transição energética: o crescimento das fontes limpas já começa a reduzir a participação dos combustíveis fósseis na eletricidade, mas ainda não eliminou a dependência global de carvão, petróleo e gás.
5. Os oceanos absorvem calor equivalente a 18 vezes o consumo anual de energia da humanidade
Os oceanos estão entre os principais indicadores do aquecimento global, embora suas mudanças nem sempre sejam tão visíveis quanto os recordes de temperatura do ar.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO), os oceanos absorveram, em média, a cada ano das duas últimas décadas, uma quantidade de calor equivalente a aproximadamente 18 vezes todo o consumo anual de energia da humanidade.
A estimativa aparece no relatório Estado do Clima Global 2025, divulgado em março de 2026.
Em setembro de 2026, a temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares chegou a 21,05°C, segundo o Copernicus, o valor mais alto já registrado para esse mês.
Oceanos mais quentes favorecem ondas de calor marinhas, prejudicam ecossistemas como os recifes de coral e contribuem para a elevação do nível do mar.
Também podem fornecer mais energia e umidade para tempestades, dependendo das condições atmosféricas de cada região.
6. O nível do mar subiu cerca de 20 centímetros desde o início do século XX
O nível médio global dos oceanos aumentou aproximadamente 20 centímetros entre 1901 e 2018, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
O dado consta do sexto relatório de avaliação do painel, que também identificou uma aceleração na velocidade dessa elevação.
Entre 1901 e 1971, o aumento médio foi de 1,3 milímetro por ano. Entre 2006 e 2018, chegou a 3,7 milímetros anuais.
As medições mais recentes da NASA confirmam a continuidade da tendência, embora existam variações de um ano para outro.
Em janeiro de 2026, a agência espacial americana informou que o nível médio global do mar subiu 0,8 milímetro em 2025, depois de um aumento de 5,9 milímetros em 2024.
Segundo a NASA, a diferença foi influenciada pelas condições de La Niña, que provocaram chuvas intensas em partes da América do Sul e contribuíram para reter temporariamente mais água sobre os continentes.
Isso não representa uma reversão da tendência de longo prazo. O aquecimento da água, que provoca sua expansão, e o derretimento de geleiras e mantos de gelo continuam impulsionando a elevação dos oceanos.
7. Ondas de calor se tornaram mais frequentes e intensas desde os anos 1950
Os extremos de calor aumentaram em frequência e intensidade na maior parte das regiões terrestres desde a década de 1950.
A conclusão é do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que considera praticamente certo esse aumento e identifica a influência humana como seu principal fator.

Incêndio florestal nas montanhas de Sierra Nevada, EUA (foto: Ross Stone / Unsplash)
A avaliação faz parte do sexto relatório do IPCC, cuja análise reúne milhares de estudos científicos sobre o funcionamento e as mudanças do sistema climático.
O painel também concluiu que as ondas de calor marinhas praticamente dobraram de frequência desde os anos 1980.
Os impactos vão além dos recordes de temperatura que aparecem nas manchetes. O calor excessivo aumenta riscos à saúde, prejudica a produtividade, pressiona os sistemas de energia e pode agravar períodos de seca.
Isso não significa que toda onda de calor seja causada exclusivamente pelas mudanças climáticas. Estudos específicos procuram determinar quanto o aquecimento global tornou um evento mais provável ou mais intenso.
8. Chuvas extremas aumentaram em muitas regiões do planeta
As mudanças climáticas não provocam apenas temperaturas mais elevadas ou períodos prolongados de seca. Elas também estão associadas ao aumento da frequência e da intensidade de chuvas extremas.
Segundo o IPCC, essa tendência já é observada desde os anos 1950 na maior parte das regiões terrestres que possuem registros suficientes para a análise. O painel considera provável que a influência humana sobre o clima seja o principal fator desse aumento.
Uma atmosfera mais quente consegue conter mais vapor d’água, o que favorece precipitações mais intensas quando as condições meteorológicas são propícias. As consequências aparecem nas notícias sobre enchentes, deslizamentos e cidades atingidas por volumes excepcionais de chuva em poucas horas ou dias.
Mas o IPCC também ressalta a importância das condições regionais. O impacto das chuvas depende de fatores como ocupação do solo, drenagem urbana, desmatamento e características geográficas.
9. As políticas climáticas atuais colocam o planeta numa trajetória de 2,8°C de aquecimento
Mesmo com os compromissos internacionais de redução das emissões, o mundo continua distante das metas do Acordo de Paris.
Segundo o mais recente Relatório sobre a Lacuna de Emissões, publicado em novembro de 2025 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as políticas atualmente em vigor apontam para um aquecimento global estimado em cerca de 2,8°C ao longo deste século.
Se todos os compromissos climáticos apresentados pelos países forem integralmente cumpridos, a projeção cai para uma faixa entre 2,3°C e 2,5°C.
O relatório estima ainda que, para manter uma trajetória compatível com a limitação do aquecimento a 1,5°C, as emissões globais anuais de gases de efeito estufa precisariam ser reduzidas em aproximadamente 55% até 2035, em comparação com 2019.
A distância entre as promessas dos governos e as medidas efetivamente adotadas é um dos principais impasses das negociações internacionais sobre o clima.
10. O mundo ainda perde 10,9 milhões de hectares de florestas por ano
O desmatamento mundial diminuiu nas últimas décadas, mas continua em um patamar elevado. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a taxa anual de desmatamento foi de aproximadamente 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025.
O dado foi divulgado na Avaliação dos Recursos Florestais Globais 2025, publicada em outubro de 2025. Entre 1990 e 2000, a perda era estimada em 17,6 milhões de hectares por ano.
A redução representa um avanço, mas a destruição das florestas continua contribuindo para as mudanças climáticas. Árvores e solos armazenam grandes quantidades de carbono, que pode ser liberado quando a vegetação é derrubada, degradada ou queimada.

As florestas também desempenham um papel importante na regulação das chuvas, na proteção dos recursos hídricos e na preservação da biodiversidade. O Brasil ocupa um lugar central nesse debate por abrigar a maior parte da Amazônia, uma das maiores florestas tropicais do planeta.
Os dez indicadores mostram que a mudança climática não é apenas uma projeção para o futuro. Seus efeitos já aparecem nas medições de temperatura, no comportamento dos oceanos, nas chuvas extremas e na transformação das florestas.
Ao mesmo tempo, os dados revelam que a expansão das energias renováveis e a desaceleração do desmatamento ainda não foram suficientes para interromper o crescimento das emissões globais.
É essa distância entre o que a ciência registra, os compromissos dos governos e as mudanças efetivas que estará no centro das negociações da COP31.
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