Os laços entre o governo do presidente dos Estados Unidos Donald Trump e os líderes das empresas gigantes da tecnologia estão cada vez mais próximos, resultando em um alinhamento que influencia a regulação das plataformas digitais.
Diferente do que aconteceu no primeiro mandato do bilionário, quando a relação entre os dois lados era tensa e Trump chegou a ser banido das redes após os ataques ao Capitólio, agora o presidente e as gigantes da tecnologia parecem nutrir uma situação de “uma mão lava a outra”.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) analisou como os dois lados se uniram ao longo do segundo mandato de Trump, que acaba de completar um ano, para atacar regulações digitais que protegem a segurança da informação, mas criam entraves para o lucro das big techs.
A ong chamou esse processo de Muskificação, em referência à Elon Musk e à “reformulação brutal” que ele fez no Twitter após comprar a plataforma, hoje chamada de X.
A proximidade de Trump com os líderes das plataformas digitais
Dois momentos do último ano deixam clara a aproximação de Trump com as gigantes da tecnologia, de acordo com a RSF. O primeiro é sua cerimônia de posse, em janeiro, que recebeu grandes doações das empresas de tecnologia e contou com a presença destacada de seus líderes.
Mark Zuckerberg, Elon Musk, Jeff Bezos, entre outros, estão entre os nomes que compareceram no evento. Em seguida, Musk passou até a integrar o governo por um curto período, saiu do governo com desavenças com o presidente, que parecem ter se resolvido.
Outro foi um jantar, em setembro, organizado pela Casa Branca que reuniu as maiores empresas de tecnologia e inteligência artificial, novamente com presença dos grandes nomes mencionados anteriormente. Na ocasião, o governo defendeu o “domínio americano da IA”.
Além disso, dados mostram que os CEOs e donos das plataformas digitais ficaram ainda mais ricos em 2025, favorecidos por marcos regulatórios e leis de incentivo que impulsionaram o desenvolvimento do digital.
Para Vincent Berthier, chefe da seção de Tecnologia e Jornalismo da RSF, “o alinhamento estratégico entre as grandes empresas de tecnologia e o presidente dos EUA é óbvio.”
“Essa união se baseia em um jogo sutil no qual o governo Trump pressiona as plataformas por meio de instituições governamentais e defende os interesses econômicos do Vale do Silício, principalmente ao tentar impedir que a União Europeia aplique a Lei de Serviços Digitais da UE às plataformas digitais.”
Elon Musk e os ataques à regulações europeias
O governo ficou ao lado de Elon Musk quando a Comissão Europeia impôs multas ao X. Em um congresso sobre inteligência artificial em Paris, o vice-presidente JD Vance também atacou Bruxelas (sede do governo europeu) por “regulação excessiva da tecnologia”, algo que ele classificou como “censura”.
Desde que comprou o Twitter e o transformou em X, Elon Musk adotou uma estratégia de enfrentamento com a União Europeia, que tem regras mais rígidas para as plataformas digitais.
Essa postura também foi adotada pelo governo Trump, aponta a RSF, exemplificando com as sanções impostas pelo governo dos EUA a figuras públicas europeias, como Thierry Breton, ex-Comissário Europeu para o Mercado Interno, devido a seu trabalho na regulamentação digital da UE, nomeadamente a Lei de Serviços Digitais (DSA).
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A Primeira Emenda como argumento contra regulação das plataformas digitais
A primeira emenda da Constituição americana dispõe sobre liberdade de expressão. Ela sempre é usada pelos líderes das gigantes da tecnologia e pelo governo Trump para justificar a defesa de regras menos rígidas no ambiente digital.
Para o chefe da RSF, “esse conceito está muito distante dos textos constitucionais e cria uma falsa dicotomia entre liberdade de imprensa e liberdade de expressão.”
“Sob o pretexto de combater a alegada ‘censura estrangeira’, Washington está visando explicitamente a legislação democrática — especialmente da União Europeia e do Reino Unido — e retratando essas leis como ferramentas ilegítimas usadas por ‘reguladores não eleitos’.”
A entidade alerta que a política de atacar leis estrangeiras e afrouxar a regulação digital nos EUA favorece os interesses financeiros das gigantes da tecnologia e representa uma grave ameaça à credibilidade do conteúdo online.
Checagem de fatos e desinformação
Em setembro de 2025, a Alphabet, responsável pelo Youtube, divulgou uma carta na qual afirma que não trabalha e não tinha intenção de trabalhar com fact-checkers nos Estados Unidos, da forma como aconteceu na Europa. A empresa também criticou a lei digital europeia DSA e chamou-a de risco à liberdade de expressão.
Também no campo da checagem de fatos, em abril de 2025 a Meta encerrou parcerias com dez organizações de checagem nos Estados Unidos. O sistema foi substituído pelas “notas da comunidade”, copiando o que havia sido implantado no X, recordou a Repórteres Sem Fronteiras em sua análise.
Até mesmo o TikTok, empresa chinesa mas que nos EUA conta com investimentos do diretor da Oracle, Larry Ellison, começou a experimentar uma ferramenta chamada “notas de rodapé”, algo similar às notas da comunidade.
Segundo a RSF, essas medidas reabrem as portas das plataformas digitais para que desinformação seja espalhada e conteúdos nocivos sejam tolerados.
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