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Inteligência artificial

Viés, privacidade, copyright: entenda as polêmicas em torno de três IAs chinesas que desafiam as Big Techs americanas

Seedance, Qwen3 e DeepSeek ganharam tração dentro e fora da China em meio a controvérsias e acusações como violação de direitos autorais e propaganda política

Novo vídeo gerado por IA chinesa levantou alerta de produtores em Hollywood

Novo vídeo gerado por IA chinesa levantou alerta de produtores em Hollywood



Três IAs generativas chinesas estão em alta, mas a repercussão do desempenho e crescimento fora do país vem junto com um pacote de desconfiança: viés, privacidade, direitos autorais e riscos regulatórios, em um debate que remete ao caso TikTok nos Estados Unidos.


Em um mercado dominado por Big Techs dos EUA, plataformas de IA de inteligência artificial da China estão desafiando as gigantes americanas e surpreendendo analistas com sua performance – mas o reconhecimento da excelência tecnológica tem sido acompanhado por desconfiança, questionamento e bloqueios.

O movimento é semelhante ao que aconteceu com o TikTok, da empresa chinesa ByteDance, que acabou tendo que vender o controle de sua operação nos EUA a um consórcio formado por empresários locais por força de uma lei aprovada no Congresso por risco de que as informações de usuários fossem transmitidas para o governo da China.

Três IAs chinesas estão no centro de polêmicas recentes: DeepSeek, Qwen3 e Seedance, esta última de propriedade da mesma ByteDance. Os problemas apontados incluem discriminação, promoção de narrativas favoráveis à China e violação de direitos autorais.

DeepSeek: do frisson ao bloqueio

Lançado no mundo em janeiro de 2025, o chatbot DeepSeek causou frisson no mercado internacional. Ele chegou a se tornar o aplicativo gratuito mais baixado dos Estados Unidos, disparando em relação a outras IAs da China e de outros países.

A  plataforma funciona de forma semelhante ao ChatGPT, com inteligência artificial generativa, respondendo a comandos. Ela é uma criação de uma empresa do mesmo nome, lançada em 2023 pelo desenvolvedor Liang Wenfeng. Em pouco tempo, porém, estudos acenderam o alerta para sua parcialidade.

Desde que estourou, em 2025, o aplicativo da DeepSeek já teve mais de 75 milhões de downloads. A China tem 34% dos downloads totais da plataforma, segundo o serviço de inteligência App Magic.

IA faz ‘discriminação alarmante’, segundo estudo

Uma análise feita em 2025 na IA R1 da empresa da China mostrou que a DeepSeek, ao contrário de outras IAs, teria “falhas éticas alarmantes”. A pesquisa, conduzida pela Enkrypt AI, dos Estados Unidos, mostrou vulnerabilidades de código.

A empresa americana disse que a IA da China tem grande viés de discriminação. Ela afirmou, ainda, que quase metade do conteúdo da DeepSeek contorna protocolos de segurança, gerando guias de planejamento criminoso e propaganda extremista. Ainda segundo a pesquisa, ele tem alta frequência de linguagem obscena e capacidade de detalhar ameaças biológicas.

O modelo demonstrou ser altamente tendencioso, além de produzir conteúdo nocivo e tóxico, incluindo discursos de ódio, ameaças e material explícito ou criminoso. Quando comparado ao OpenAI, ele tinha 11 vezes mais propensão de gerar conteúdo prejudicial, segundo a análise.

A DeepSeek também coleta 11 tipos de dados únicos, como a entrada do usuário (incluindo histórico de chat). Ela declara reter informações pelo tempo necessário, armazenando-as em servidores na República Popular da China. As informações são da empresa de segurança digital Surfshark.

Punições tornaram DeepSeek a IA mais banida do mundo

Um levantamento da empresa da Surfshark a partir de dados coletados em fevereiro mostra que o DeepSeek tem sido bloquedo por algumas nações com alegações de riscos de segurança. Somente dois países, porém, impuseram um veto em nível nacional à IA da China: Itália e Coreia do Sul.

Os demais casos, por sua vez, teriam apenas restrições limitadas a sistemas ou dispositivos do governo.

O diretor de Segurança da Surfshark, Tomás Stamulis, afirmoiu que, diferentemente de chatbots como ChatGPT e Gemini, que operariam sob a lei federal dos EUA e com interação com reguladores, a DeepSeek não está sujeita a marcos comparáveis. Essa falta de supervisão, por sua vez, aumentaria preocupações sobre responsabilização e proteção de dados.

Mesmo assim, o estudo diz que o DeepSeek parece ser popular não só na China, mas também em territórios onde chatbots americanos não estão disponíveis.

Qwen3: uma criação da gigante chinesa Alibaba

A Qwen é uma das IAs da China que funciona de forma semelhante ao ChatGPT. Usuários podem fazer, por exemplo, pesquisas e também pedir intervenções ou criações de fotos com prompts, assim como com a plataforma americana.

A dona da plataforma é a Alibaba Cloud, que, por sua vez, é a líder do mercado de computação em nuvem na China. A versão operada atualmente pela Qwen foi lançada em abril de 2025.

Segundo a Alibaba, usuários fazem mais de 24 milhões de ações ao chatbot por dia. Apesar de grande, o número é apenas uma pequena fração do máximo de tokens diários feitos pelo ChatGPT: 78,3 bilhões, segundo a OpenAI.

Acusações de conteúdo positivo para a China

O projeto China Media Project foi responsável por revelar a grande polêmica envolvendo a Qwen3. Eles analisaram como a IA respondia a perguntas sobre a China em comparação a perguntas sobre outros países.

Com base em um prompt feito por outro cientista de tecnologia, David Bau, eles concluíram que a IA recebia orientações claras para falar positivamente do país em seu código-fonte. Além de pedir uma resposta “positiva e construtiva”, a programação orienta a IA a focar nas conquistas e contribuições da China para o mundo.

Por fim, o código também pede que a plataforma evite construções negativas, use exemplos claros e responda em inglês.

Por outro lado, quando recebe perguntas sobre outros países, a programação orienta a IA a ser “neutra, objetiva e sem viés político”. Além disso, ela disse que não deveria “usar linguagens ou expressões emocionais” e nem “expressões que possam ser usadas como declaração política”. \Os pesquisadores fizeram o teste em questão pedindo comentários sobre os Estados Unidos, Quênia e Bélgica.

Seedance 2.0: um braço da dona do Tiktok

A Seedance 2.0, criada pela ByteDance, é a mais recente criação entre as IAs polêmicas da China. Lançada em 10 de fevereiro, ela é apresentada como uma plataforma para “oferecer controle sobre a narrativa audiovisual” a diretores e produtores.

O chatbot recebe prompts simples e entrega “narrativas complexas, com múltiplas tomadas de áudio nativo e sincronizado”, declarou a companhia.

A ByteDance elencou três pontos como diferenciais em relação a outras plataformas: a possibilidade de movimentação das câmeras, a consistência no rosto dos personagens e a qualidade dos áudios e a sincronização com os lábios dos personagens. Os vídeos, mesmo que imperfeitos, causaram polêmica no cenário do cinema dos Estados Unidos.

Segundo a própria ByteDance, usuários criaram mais de 500.000 vídeos somente na primeira semana de lançamento da plataforma.

IA chinesa movimentou discussão em Hollywood

A polêmica em torno dos limites do Seedance 2.0 aconteceu após um diretor de Hollywood compartilhar um vídeo de 15 segundos, feito com um prompt de duas linhas. “Talvez Hollywood esteja acabada”, declarou Ruari Robinson, ao falar das IAs.

As imagens geradas mostram Tom Cruise e Brad Pitt trocando chutes e socos em um cenário de destruição. A plataforma de IA também incluiu efeitos sonoros da briga.

Além disso, o diretor postou outros vídeos entregues pela plataforma da China com prompts diferentes. Em um deles, Brad Pitt bate em um zumbi, enquanto no outro ele bate em um robô e em um ninja.

Entre as alegações causadas pelo vídeo em questão estão acusações de que a IA é capaz de acabar com empregos formais de roteiristas e produtores.

Por outro lado, membros de “menor escalão” da indústria audiovisual afirmaram que veem em plataformas do tipo uma chance de pessoas fora de Hollywood também conseguirem produzir bons efeitos visuais.

Acusação de pirataria fez Bytedance “voltar atrás”

Advogados da Disney enviaram uma notificação extrajudicial aos donos da IA da China afirmando que ela entregou uma “biblioteca pirateada” dos seus personagens à Seedance.

Antes da Disney, a Motion Picture Association repudiou os vídeos criados pela Seedance 2.0. Ela divulgou na quinta-feira (12) uma nota na qual ordena que a ByteDance encerre “suas atividades ilegais”.

Em resposta, a IA chinesa disse que vai readequar o produto, sem explicar como fará isso. Ela disse, ainda, que respeita a propriedade intelectual e que ouviu as preocupações das multinacionais.

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