Em seu levantamento anual de violações da liberdade de imprensa em 2025, o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ) destacou o recorde de 129 mortes de jornalistas — das quais dois terços resultaram de ataques de Israel em Gaza —, mas ressaltou que guerras já não são os únicos desafios à integridade de profissionais de imprensa.
Jornalistas foram mortos em 2025 em Bangladesh, Colômbia, Guatemala, Honduras, Índia, México, Nepal, Peru, Filipinas, Paquistão e Arábia Saudita, refletindo um padrão que prevalece em países onde o Estado de Direito é fraco, facções criminosas atuam sem controle e líderes políticos abusam de seu poder.
México: escalada, ameaças e ataques durante a cobertura
O México é o maior exemplo atual. Após a morte do chefe de cartel “El Mencho”, no domingo (20),jornalistas que cobriam os confrontos liderados por membros de organizações criminosas foram alvo de tiros disparados contra seus carros, agressões físicas, ameaças e roubo de equipamentos, agravando uma situação de violência crônica.
De acordo com o CPJ, pelo menos um jornalista foi morto no México e na Índia todos os anos nos últimos dez anos; e pelo menos um jornalista foi morto em Bangladesh e na Colômbia — bem como por Israel — todos os anos nos últimos cinco anos.
No México, foram registradas seis mortes de profissionais de imprensa em 2025, contra cinco em 2024 e duas em 2023.
Nenhum dos crimes praticados no ano passado foi resolvido, confirmando um padrão de longa data de assassinatos de jornalistas não apurados e sem responsabilização, devido à poderosa influência criminosa sobre a polícia e a atividade política, além da corrupção generalizada.
A maioria dos jornalistas assassinados no México atua de forma independente, com canais próprios em redes sociais, ou em veículos de imprensa locais e regionais, o que os torna mais vulneráveis.
Um mecanismo de proteção federal introduzido para lidar com o nível persistentemente alto de assassinatos de jornalistas provou ser, em grande parte, ineficaz, afirma o CPJ.
Apesar de estar sob proteção federal desde 2014 por causa de ameaças relacionadas ao seu jornalismo, Calletano de Jesús Guerrero, vice-editor de um meio de comunicação on-line que relatava crimes, foi baleado e morto em janeiro de 2025. Seus assassinos não foram identificados.
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Filipinas, Bangladesh e Índia: ataques e impunidade
Nas Filipinas, que também têm uma longa história de violência contra jornalistas, três profissionais foram mortos a tiros em 2025, incluindo o veterano editor Juan Dayang. Apenas um caso resultou em uma prisão.
Muitos jornalistas foram brutalmente alvejados por suas reportagens sobre corrupção e crime organizado: o repórter de Bangladesh Asaduzzaman Tuhin foi perseguido até a morte por agressores armados, em um assassinato orquestrado por uma rede de fraude, de acordo com a polícia.
O jornal em língua bangla Protidiner Kagoj, para o qual Tuhin trabalhava, relatou que o ataque ocorreu depois que ele filmou vários homens armados agredindo um homem em uma disputa pública.
Na Índia, o corpo mutilado do jornalista freelancer Mukesh Chandrakar foi descoberto em uma fossa séptica semanas depois que o canal de notícias NDTV exibiu a investigação de sua autoria sobre suposta corrupção em um projeto rodoviário de 1,2 bilhão de rúpias (US$ 12 milhões).
Peru: execução após denúncias
No Peru, Gastón Medina foi morto a tiros depois que um agressor em uma motocicleta disparou 11 vezes contra ele enquanto o jornalista conversava com um amigo do lado de fora de sua casa.
A última reportagem de TV de Medina, transmitida antes de sua morte, criticava as autoridades locais por comprarem caminhões de lixo defeituosos, detalhava os excessos de custos para uma nova arena esportiva e questionava o comportamento de um chefe de polícia.
O Peru não registrava mortes de jornalistas há anos. Em 2025 foram quatro casos.
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Protestos, instabilidade política e riscos adicionais
Turbulências políticas também representam um perigo crescente para profissionais de imprensa, aponta o Comitê para a Proteção de Jornalistas.
Embora a maior parte dos casos de violência contra profissionais de imprensa durante a cobertura de protestos não tenha resultado em mortes, no Nepal o cinegrafista Suresh Rajak, do canal de notícias Avenues Television, morreu em um incêndio enquanto cobria um violento protesto pró-monarquia em Katmandu.
Regimes autoritários e a punição extrema
Regimes autoritários também continuam a punir jornalistas com a morte, embora execuções sejam raras. Ainda assim, pelo menos uma ocorreu em 2025.
O proeminente colunista Turki al-Jasser foi executado pela Arábia Saudita após sete anos de detenção. Al-Jasser havia sido condenado por acusações de traição, colaboração estrangeira, financiamento do terrorismo e ameaça à segurança nacional e à unidade.
“Alegações espúrias de segurança nacional e crimes financeiros estão sendo cada vez mais usadas por governos em todo o mundo para punir repórteres”, denuncia o CPJ.
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