© Conteúdo protegido por direitos autorais

Jornalismo de guerra

Bombas, ameaças, censura, internet bloqueada: jornalistas do Irã relatam dificuldades para cobrir a guerra

Repórteres Sem Fronteiras relata dificuldades na cobertura da guerra e insta envolvidos a respeitarem direito à informação

Prédio residencial em Teerã destruído em bombardeio

Prédio residencial em Teerã destruído em bombardeio (foto: Tasnim News Agency, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons)




A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) fez um apelo a todas as partes envolvidas na guerra no Irã para que garantam a proteção de jornalistas e o direito à informação, que desde os ataques dos EUA e de Israel no último sábado está ainda mais comprometido.

Ocupando a 178º posição no ranking de liberdade de imprensa da RSF, o Irã já vivia um agravamento da repressão ao jornalismo desde a onda de protestos iniciada em dezembro. Mas nos últimos dias a situação se tornou caótica, como relatou a entidade ao descrever as condições para o jornalismo com base em relatos de profissionais que estão no país.

“Desde o início da ofensiva dos EUA e Israel ao Irã, jornalistas no país têm trabalhado em meio aos ataques aéreos hostis, enquanto também enfrentam a repressão implacável do regime iraniano, a conexão limitada à internet e a escassez de acesso a  informações confiáveis”, afirma a entidade.

Ameaças de autoridades do Irã a jornalistas independentes

“Jornalistas estão recebendo telefonemas ameaçadores das autoridades”, disse um jornalista independente à RSF, sob condição de anonimato para evitar represálias.

Ele relatou ter deixado Teerã, mas a cidade onde se refugiou também foi bombardeada, descrevendo o cenário como aterrorizante.

Segundo o profissional, a pressão pressão política não parou com a guerra, pelo contrário: intensificou-se desde o anúncio da morte do aiatolá Ali  Khamenei.

A RSF informou ainda que além de ataques aéreos e ligações intimidatórias, jornalistas no Irã também estão sendo ameaçados de prisão.

“Em várias ocasiões, o canal de televisão estatal iraniano anunciou que qualquer atividade considerada “vantajosa para o inimigo” seria severamente punida”, disse a organização.

Um segundo jornalista que a RSF contou ter ouvido, baseado em Teerã, relatou que mesmo repórteres que tiveram acesso a áreas afetadas por explosões, com permissão do governo, chegaram a ser brevemente detidos e tiveram todas as suas fotos excluídas.

Irã sem internet e isolado do mundo

A falta de acesso à internet desde sábado, confirmada por serviços de monitoramento como o NetBlocks, impede que jornalistas ou fontes transmitam informações sobre os acontecimentos locais.

Bloqueios de internet não são novidade no Irã, cujo regime várias vezes recorreu a esse recurso para silenciar críticos. O mais recente havia ocorrido em janeiro.

Mas as dificuldades de comunicação podem se dever também aos bombardeios, afetando torres e sistemas de transmissão.

Embora alguns jornalistas tenham conexão ocasional à Internet, dependendo de sua localização e da operadora de celular, em termos gerais, o acesso à internet permanece restrito, de acordo com a RSF.

A entidade afirma que a censura também é direcionada, segundo os profissionais locais.

“Jornalistas e meios de comunicação que ecoam a narrativa do governo geralmente têm acesso a cartões de internet e telefone não monitorados. No entanto, jornalistas independentes estão sujeitos a restrições severas”, disse o repórter que deixou Teerã à RSF.

Devido à escassez de informações, as matérias são “vagas e imprecisas”, de acordo com o jornalista baseado em Teerã.

‘Respeito pelo direito à informação é obrigação’

A RSF reconhece que a situação seja volátil e caracterizada pela violência, mas destaca que “o respeito pelo direito à informação ainda é uma obrigação”.

“A segurança dos jornalistas não é negociável. A guerra não deve, sob nenhuma circunstância, dificultar o trabalho da imprensa. Ataques dos EUA e de Israel contra o Irã não devem colocar em risco os profissionais da mídia que cobrem esses acontecimentos”, disse a Repórteres Sem Fronteiras.

A ONG instou o regime iraniano a libertar imediatamente os jornalistas presos e a encerrar pressões sobre os que tentam cobrir a guerra.


error: O conteúdo é protegido.