A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) fez um apelo a todas as partes envolvidas na guerra no Irã para que garantam a proteção de jornalistas e o direito à informação, que desde os ataques dos EUA e de Israel no último sábado está ainda mais comprometido.
Ocupando a 178º posição no ranking de liberdade de imprensa da RSF, o Irã já vivia um agravamento da repressão ao jornalismo desde a onda de protestos iniciada em dezembro. Mas nos últimos dias a situação se tornou caótica, como relatou a entidade ao descrever as condições para o jornalismo com base em relatos de profissionais que estão no país.
“Desde o início da ofensiva dos EUA e Israel ao Irã, jornalistas no país têm trabalhado em meio aos ataques aéreos hostis, enquanto também enfrentam a repressão implacável do regime iraniano, a conexão limitada à internet e a escassez de acesso a informações confiáveis”, afirma a entidade.
Ameaças de autoridades do Irã a jornalistas independentes
“Jornalistas estão recebendo telefonemas ameaçadores das autoridades”, disse um jornalista independente à RSF, sob condição de anonimato para evitar represálias.
Ele relatou ter deixado Teerã, mas a cidade onde se refugiou também foi bombardeada, descrevendo o cenário como aterrorizante.
Segundo o profissional, a pressão pressão política não parou com a guerra, pelo contrário: intensificou-se desde o anúncio da morte do aiatolá Ali Khamenei.
A RSF informou ainda que além de ataques aéreos e ligações intimidatórias, jornalistas no Irã também estão sendo ameaçados de prisão.
“Em várias ocasiões, o canal de televisão estatal iraniano anunciou que qualquer atividade considerada “vantajosa para o inimigo” seria severamente punida”, disse a organização.
Um segundo jornalista que a RSF contou ter ouvido, baseado em Teerã, relatou que mesmo repórteres que tiveram acesso a áreas afetadas por explosões, com permissão do governo, chegaram a ser brevemente detidos e tiveram todas as suas fotos excluídas.
Irã sem internet e isolado do mundo
A falta de acesso à internet desde sábado, confirmada por serviços de monitoramento como o NetBlocks, impede que jornalistas ou fontes transmitam informações sobre os acontecimentos locais.
Bloqueios de internet não são novidade no Irã, cujo regime várias vezes recorreu a esse recurso para silenciar críticos. O mais recente havia ocorrido em janeiro.
Mas as dificuldades de comunicação podem se dever também aos bombardeios, afetando torres e sistemas de transmissão.
Embora alguns jornalistas tenham conexão ocasional à Internet, dependendo de sua localização e da operadora de celular, em termos gerais, o acesso à internet permanece restrito, de acordo com a RSF.
A entidade afirma que a censura também é direcionada, segundo os profissionais locais.
“Jornalistas e meios de comunicação que ecoam a narrativa do governo geralmente têm acesso a cartões de internet e telefone não monitorados. No entanto, jornalistas independentes estão sujeitos a restrições severas”, disse o repórter que deixou Teerã à RSF.
Devido à escassez de informações, as matérias são “vagas e imprecisas”, de acordo com o jornalista baseado em Teerã.
‘Respeito pelo direito à informação é obrigação’
A RSF reconhece que a situação seja volátil e caracterizada pela violência, mas destaca que “o respeito pelo direito à informação ainda é uma obrigação”.
“A segurança dos jornalistas não é negociável. A guerra não deve, sob nenhuma circunstância, dificultar o trabalho da imprensa. Ataques dos EUA e de Israel contra o Irã não devem colocar em risco os profissionais da mídia que cobrem esses acontecimentos”, disse a Repórteres Sem Fronteiras.
A ONG instou o regime iraniano a libertar imediatamente os jornalistas presos e a encerrar pressões sobre os que tentam cobrir a guerra.
Leia também | Aos 4 anos da guerra na Ucrânia, rede de desinformação russa passa a mirar França e Alemanha
Leia também | Além de guerras: como crime organizado, corrupção e autoritarismo estão deteriorando a liberdade de imprensa no mundo
Leia também | Tiros, agressões, roubos: criminosos atacam jornalistas no México após morte de ‘El Mencho’, denuncia RSF
Leia também | Relatório confirma 128 mortes de jornalistas a serviço em 2025: veja cinco histórias reais por trás das estatísticas






