A morte de Ted Turner, anunciada pela Turner Enterprises em nome da família nesta quarta-feira (6), provocou manifestações que lembraram tanto seu papel como fundador da CNN e pioneiro das notícias 24 horas na TV quanto sua atuação posterior em causas filantrópicas e ambientais.
Um dos grandes magnatas da mídia americana do fim do século 20, Turner ocupou um lugar muitas vezes comparado ao de Rupert Murdoch, embora com trajetórias distintas.
Enquanto Murdoch ficou associado a uma mídia de identidade ideológica mais marcada no campo da direita conservadora, Turner entrou para a história sobretudo pela criação de um modelo global de notícia contínua e se associou a causas liberais.
Nascido em Ohio, Turner morreu em 6 de maio, aos 87 anos, cercado pela família. O comunicado informou que haverá uma cerimônia privada e que um memorial público será anunciado posteriormente.
A causa da morte não foi divulgada, mas há seis anos ele havia revelado que tinha uma doença degenerativa cerebral progressiva.
O texto destacou sua atuação como fundador da CNN e de redes como Cartoon Network, TNT e Turner Classic Movies, além de suas doações – ele destinou US$ 1 bilhão para a ONU – da preservação de terras e do trabalho em defesa de espécies ameaçadas.
Turner também teve presença no esporte. Foi dono do Atlanta Braves, time de beisebol da MLB, e do Atlanta Hawks, da NBA, usando a televisão a cabo para ampliar a visibilidade das equipes.
No iatismo, foi o capitão de um barco que venceu em 1977 uma das competições mais tradicionais da vela, a America’s Cup.
Fonda e Trump falam de Ted Turner
Jane Fonda, atriz e ativista que foi casada com Turner de 1991 a 2001, foi uma das vozes públicas que lamentaram sua morte.

Em homenagem publicada após o anúncio, ela mencionou a inteligência estratégica, o humor, a relação com a natureza e o impacto que ele teve em sua vida.
Mesmo depois do divórcio, os dois mantiveram uma relação amistosa e Fonda costumava se referir a Turner como seu “ex-marido favorito”.
Já Donald Trump aproveitou o momento para mais uma alfinetada na CCN, alvo constante de seus ataques verbais contra a imprensa.
Em um post na Truth Social, ele disse que “Turner, seu amigo”, foi um dos grandes nomes da radiodifusão.
Mas teria ficado ‘devastado’ após a venda da CNN, porque seus novos donos a teriam “destruído e transformado-a em tudo aquilo que ele não representava”.
O empresário que apostou na notícia 24 horas
Antes da CNN, Turner já havia construído uma presença importante na televisão, depois de ter herdado uma empresa de outdoors de seu pai.
A partir de uma emissora local em Atlanta, desenvolveu a TBS, distribuída nacionalmente por cabo e satélite.
Depois, ampliou o grupo com canais como TNT, Cartoon Network, Turner Classic Movies e finalmente a CNN International, a cabo.
A rede foi lançada em 1980, em um momento em que a televisão americana ainda era dominada pelas grandes emissoras abertas e por telejornais exibidos em horários fixos.
A CNN criou um novo espaço para a cobertura de acontecimentos em andamento, 24 horas por dia. Com o tempo, passou a influenciar o modo como outros veículos tratavam crises, eleições, guerras e desastres.
Antes da internet comercial, das redes sociais e dos alertas no celular, a CNN já oferecia ao público a experiência então única de acompanhar acontecimentos em desenvolvimento quase em tempo real.
A Guerra do Golfo e a projeção global da CNN
A CNN ganhou projeção internacional durante a Guerra do Golfo, em 1991, quando seus correspondentes transmitiram de Bagdá o início da Operação Tempestade no Deserto.
Bernard Shaw, Peter Arnett e John Holliman estavam no hotel Al-Rashid e relataram ao vivo, principalmente por áudio, os clarões, as explosões e o fogo antiaéreo no céu da capital iraquiana.
A cobertura tornou-se um marco para o canal criado por Ted Turner. O Poynter Institute, em uma série sobre 50 momentos e pessoas que moldaram o jornalismo nos últimos 50 anos, descreveu a transmissão da CNN na Guerra do Golfo como o episódio que lançou uma nova era na cobertura televisiva.
Ted Turner não permaneceu no controle da CNN até o fim da vida. Em 1996, a Turner Broadcasting System, grupo que reunia a CNN, TBS, TNT, Cartoon Network e outras marcas, foi incorporada à Time Warner em uma operação bilionária.
A CNN passou depois por novas mudanças de controle, acompanhando as fusões e reestruturações do setor, e hoje integra a Warner Bros. Discovery, que acaba de ser vendida para a Paramount, do empresário David Elisson, um aliado próximo de Donald Trump.
A fusão ainda não foi concluída e segue em meio a preocupações públicas expressas por figuras relevantes da mídia americana sobre um possível impacto na linha editorial da CNN.
Turner e Murdoch: grandes magnatas da mídia
Turner e Rupert Murdoch pertencem à geração de empresários que transformou a televisão a cabo em uma força política, econômica e cultural.
As trajetórias, porém, foram diferentes. Murdoch consolidou um império com jornais, televisão e canais de opinião, especialmente com a Fox News, alinhada ao campo da direita e a Donald Trump.
Turner ficou ligado principalmente à criação da CNN e ao estabelecimento da notícia 24 horas como produto jornalístico global, sem afiliações diretas.
A rivalidade entre os dois também teve dimensão empresarial e pessoal. O jornal britânico Guardian descreveu Murdoch como rival antigo de Turner e lembrou que ambos construíram conglomerados globais a partir de negócios familiares.
Jane Fonda e a vida pública
O casamento com Jane Fonda aproximou Ted Turner de uma das figuras mais conhecidas do cinema e do ativismo americano.
A união durou de 1991 a 2001 e teve grande exposição pública, em parte porque reunia personagens associados a universos diferentes: ele, empresário da televisão e dos esportes; ela, atriz premiada e ativista política desde os anos 1960 e 1970.
Na homenagem após a morte de Turner, Fonda lembrou aspectos pessoais da convivência, mas também citou sua atuação na mídia, nos negócios, na preservação ambiental e em causas ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU).
A atriz também mencionou o trabalho conjunto dos dois na Georgia Campaign for Adolescent Power and Potential, organização voltada a adolescentes no estado da Geórgia.
Filantropia, ONU e meio ambiente
Depois de se consolidar como empresário de mídia, Turner passou a ser reconhecido também por iniciativas filantrópicas.
A mais conhecida foi o compromisso de doar US$ 1 bilhão para apoiar causas ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU), gesto que levou à criação da United Nations Foundation.
Sua atuação pública incluiu a defesa da conservação ambiental. O comunicado da família destacou a preservação de mais de dois milhões de acres de terras e o trabalho de proteção a espécies ameaçadas.
Outra frente de atuação foi a segurança internacional. Turner participou da criação da Nuclear Threat Initiative (NTI), organização dedicada à redução de riscos nucleares, biológicos e tecnológicos.
O empresário se aproximou, em diferentes momentos, de pautas associadas ao campo liberal americano, como meio ambiente, cooperação internacional, apoio à ONU, saúde pública e desarmamento nuclear.
Em 2016, declarou apoio a Hillary Clinton, candidata do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos.
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