Imagens de um horrível ataque a faca em Belfast começaram a circular nas redes sociais na noite de segunda-feira (8). Um sudanês de aproximadamente 30 anos, que entrou no Reino Unido em 2023 e estava aguardando tramitação de seu pedido de asilo, foi acusado de tentativa de homicídio.
A extrema direita rapidamente explorou a situação para impulsionar sua agenda anti-imigração nas redes sociais.
Distúrbios violentos se seguiram nas ruas de Belfast e de outras localidades na noite de terça-feira.
Casas, carros e um ônibus foram incendiados, e homens mascarados foram vistos quebrando janelas. Alguns dos ataques a propriedades teriam tido motivação racista.
Em publicação anterior nas redes sociais, o ativista Tommy Robinson, nome verdadeiro Stephen Yaxley-Lennon, pediu que apoiadores participassem de protestos de rua contra esse “ataque invasor”.
Robinson divulgou uma lista de locais na Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte onde havia protestos planejados para a noite de terça-feira.
Sua publicação no X foi compartilhada pelo bilionário da tecnologia Elon Musk, que pediu que cidadãos protestassem “repetidamente e em alto e bom som” para mudar as políticas do governo em relação à imigração.
O líder do Restore UK, Rupert Lowe, prometeu que seu partido daria início a deportações em massa e restabeleceria a pena de morte para impedir ataques cometidos por “bárbaros”.
Ao mesmo tempo, mensagens de WhatsApp enviadas por contas anônimas começaram a circular, convocando homens de 18 anos ou mais na Irlanda do Norte a “estar preparados para lutar ou serem presos”.
Apelos por calma
Políticos de diferentes lados da divisão política da Irlanda do Norte fizeram apelos por calma, com alguns condenando políticos ingleses de direita, como Lowe, por parecerem explorar o ataque em benefício próprio.
E o chefe da Polícia da Irlanda do Norte, Jon Boutcher, pediu que os cidadãos não fossem “enganados” e levados à desordem violenta por pessoas online interessadas em provocar confusão.
O fato de um homem ter sido acusado de tentativa de homicídio pouco fez para conter as multidões, formadas em sua maioria por homens jovens, que se reuniram em Belfast, incendiaram um ônibus na Lower Newtownards Road e se envolveram em confrontos com a polícia em diferentes pontos da cidade.
Também houve relatos de violência em cidades como Ballyclare e Portadown. Em Ballyclare, o estabelecimento de um barbeiro turco foi atacado.
Também houve prisões depois de manifestações em Glasgow, onde três pessoas ficaram feridas.
Um roteiro já conhecido
Não seria difícil pensar que esse roteiro já foi visto antes. Nos últimos dois anos, atores da extrema direita usaram plataformas online para instrumentalizar incidentes envolvendo minorias como parte de suas campanhas anti-imigração.
Entre esses casos estão alegações de uma tentativa de estupro de uma adolescente em Ballymena, o assassinato de três meninas em Southport e o assassinato do jovem Henry Nowak em Southampton.
Informações falsas circulam com frequência em ambientes online quando as autoridades são pressionadas a confirmar a etnia e a situação migratória de suspeitos.
A Polícia da Irlanda do Norte divulgou esses detalhes muito rapidamente, presumivelmente para evitar a criação de um vácuo de informação no qual boatos pudessem se espalhar com rapidez.
O surgimento de um discurso tóxico
Os fatos não parecem importar para aqueles que usam o choque e o trauma para promover a ideia de que a imigração é culpada por atos de violência.
A condenação de agitadores online da extrema direita por políticos costuma vir acompanhada de críticas às grandes empresas de tecnologia por não fazerem mais para impedir que agitadores incitem violência em suas plataformas.
Políticos e figuras públicas precisam fazer mais do que dizer “não em nosso nome”. Eles devem assumir parte da responsabilidade por terem ajudado a criar um discurso tóxico sobre imigração, que transforma solicitantes de asilo e migrantes em “outros”.
A janela de Overton, o termômetro do que é considerado um argumento politicamente aceitável, deslocou-se para a direita, como demonstram as declarações de Rupert Lowe.
Informações falsas e desinformação sobre imigração ganham força em algumas comunidades porque elas ouvem com frequência que solicitantes de asilo recebem prioridade de acesso a serviços públicos já subfinanciados.
Uma frase recorrente entre políticos é que essas são “preocupações legítimas”, mesmo quando há pouca evidência para sustentar essas alegações.
Isso frequentemente leva comunidades minoritárias a serem responsabilizadas por problemas que nada têm a ver com elas.
Imigração: preocupação para britânicos
A normalização de visões de direita sobre imigração é reforçada por uma cobertura da mídia que muitas vezes deixa de checar afirmações sobre temas como solicitantes de asilo e benefícios sociais.
Nesse contexto, talvez não surpreenda que a imigração apareça entre os temas de maior preocupação para eleitores na Grã-Bretanha.
Agora cabe aos políticos decidir como responder à violência vista em Belfast e em outros lugares nesta semana.
Embora as plataformas online claramente possam fazer mais para remover publicações inflamatórias, figuras públicas também precisam corrigir o problema que ajudaram a criar.
O público precisa de uma narrativa baseada em fatos sobre imigração, que pare de culpar solicitantes de asilo e refugiados por problemas sociais mais amplos.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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