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BBC corta mais de 500, tira programas do ar e diz que onda de demissões vai continuar: entenda a crise

Demissões fazem parte de plano de reestruturação apresentado pelo novo diretor-geral do canal, Matt Brittin, ex-executivo do Google, em um momento em que a TV perde espaço como fonte de notícias no mundo

BBC demite funcionários e prevê mais corte de vagas em movimento após crise aprofundada Foto: TechnicalFault/Creative Commons




Meses após viver uma série de crises e mudar seu diretor-geral, o canal britânico BBC anunciou uma onda de demissões e o corte de programas históricos.

As mudanças são parte de um plano de reformulação da lendária emissora que nasceu há mais de 100 anos, faz parte da vida cultural do país e se consolidou como um pilar do soft power britânico no mundo.

Matt Brittin, executivo que fez carreira no Google e assumiu o cargo de diretor-geral em março, posição historicamente reservada a jornalistas, deixou claro que eles continuarão.

O corte anunciado nessa quarta-feira (16) acabou com 550 postos de trabalho, 200 deles na divisão de notícias da companhia, que compreende vários canais de TV locais e internacionais, sites de notícias, emissoras de rádio e podcasts.

Eles acontecem em um momento de baixa no pagamento da taxa obrigatória de licença por parte dos cidadãos britânicos. Este valor ajuda a financiar os custos do canal, que é público.

Mudanças no canal

A maior vítima do corte anunciado nessa quarta foi o tradicional programa The World Tonight, da BBC Radio 4. O programa, que apresenta diariamente notícias nacionais e internacionais, é premiado e tem mais de 50 anos de história.

No lugar dele, o canal colocará um boletim nacional e transmitirá o programa Newshour, do serviço mundial da BBC.

Além dele, também chegarão ao fim no próximo ano na rádio os programas Midnight News, Money Box Live, AntiSocial, The Law Show e Crossing Continents. No Wolrd Service da BBC, três programas acabarão em 2027: The Inquiry, The Conversation e The Fifth Floor.

A empresa também quer cortar de 100 a 150 horas de seus programas originais até 2028 e vai unificar a produção dos programas “Sunday with Laura Kuenssberg” e “Newsnight”.

Migração para o digital

De acordo com o jornal britânico The Guardian, em um comunicado interno aos funcionários, o diretor-geral da BBC afirmou que um dos focos desta reformulação é concentrar cortes em áreas que ajudariam na migração do conteúdo da BBC para os serviços online.

Isso coincide com alguns dos pontos da reformulação divugados pela BBC. Segundo o canal, as mudanças querem apresentar um foco mais internacional ao canal de notícias, focando na “audiência fora do Reino Unido”.

Além disso, a BBC afirmou que fará uma análise do portfólio dos canais da TV aberta, enquanto o público “migra para a internet”.

BBC sob nova direção

As decisões de reformulação do canal são um resultado direto da operação de Bittin, diretor-geral, nomeado em maio deste ano para o cargo. De acordo com ele, a BBC tem uma meta de economizar £500 milhões nos próximos dois anos e, nesta onda de demissões, atingiu o número de £160 milhões.

Ele afirmou, ainda, que novas demissões acontecerão, que a meta da empresa é cortar entre 1.800 e 2.000 empregos e que as vagas de 10% dos líderes seniores e de 700 cargos corporativos estão no planejamento de cortes da companhia.  A companhia tem cerca de 21.500 funcionários no mundo inteiro.

Brittin está de férias, segundo a própria BBC, mas participou das reuniões do comitê executivo de forma remota e vai tirar dúvidas de funcionários sobre a reformulação da marca na próxima semana.

A BBC anunciou Matt Brittin para o cargo de diretor-geral em março deste ano, em substituição a Tim Davie, que deixou o cargo após sucessivas crises envolvendo não apenas questões financeiras, mas também escândalos com estrelas da rede que muitos apontaram terem sido abafados.

O novo diretor trabalhou por 18 anos como executivo do Google, de onde saiu para viver um ano sabático. Ao assumir, em uma carta divulgada pela própria BBC, Brittin afirmou que o canal precisava “enfrentar os desafios com coragem e prosperar como um serviço público preparado para o futuro”.

TV perde espaço no mundo

A onda de demissões na BBC aparece como um dos sinais do desgaste da TV em um mundo dominado pelas redes sociais. Um relatório da Reuters divulgado nesta semana mostrou que 54% das pessoas usam regularmente as redes digitais para se informar.

Isso colocou outras mídias tradicionais, como a TV, sites e aplicativos de empresas jornalísticas atrás no quesito de fonte de informação. No Brasil, por exemplo, as mídias sociais têm 9 pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias.

Dentro do público que consome notícias nas redes sociais, o Instagram fica na frente como “fonte de informação”, sendo o preferido de 49% dos usuários. Já o Whatsapp fica em segundo lugar, citado por 46% dos entrevistados.

Crise crescente na BBC

Com mais de 100 anos de história, a emissora pública do Reino Unido vive uma sequência de crises, que se agravaram em 2025. Antes da onda de demissões, a BBC tirou um documentário sobre Gaza do ar porque o narrador da história era o filho de um membro de alto escalão do Hamas.

Naquele mesmo ano, pelo menos duas outras crises relacionadas à guerra aconteceram. Em uma delas, o canal sofreu boicotes por não exibir o documentário Doctors Under Attack, sobre profissionais de saúde em Gaza.

Em outro, o canal foi cliticado por não bloquear a transmissão ao vivo do festival de Glastonbury quando cantores lideraram coros pedindo a morte das IDF, o Exército de Israel.

Antes disso, em 2024, o canal afastou o apresentador do MasterChef, Gregg Wallace, por acusações de má conduta sexual. Um relatório interno confirmou 45 casos de comentários sexuais, piadas e insinuações inapropriadas por parte dele em 20 anos.

A BBC também entrou em uma batalha judicial com o presidente Donald Trump após editar de forma equivocada um discurso do americano. Antes das eleições de 2024, o canal exibiu, pelo programa Panorama, um trecho de um discurso dele antes da invasão ao Capitólio.

Nele, a BBC exibiu Trump dizendo: “Lutamos com tudo. E se vocês não lutarem com tudo, não terão mais um país”. No entanto, o programa omitiu uma parte essencial da fala, em que Trump também dizia: “Sei que todos aqui em breve estarão marchando até o Capitólio para, de forma pacífica e patriótica, fazerem suas vozes serem ouvidas”.

A edição deu a impressão de que o americano incitava a violência, algo também confirmado por um relatório da BBC. No momento, o processo de difamação movido por Trump contra o canal segue ativo na Justiça.

Queda no pagamento da taxa de licença

As polêmicas refletiram na perda de apoio público, com 300 mil residências deixando de pagar a taxa obrigatória de licença do canal em um ano. Por consequência, a BBC teve uma perda financeira de £50 milhões.

Embora tenha um braço comercial que produz filmes e séries para o mundo inteiro, o  jornalismo da BBC é inteiramente financiado por recursos públicos. Esse dinheiro vem tanto do orçamento do governo quanto de uma taxa obrigatória paga pelas residências que acessam os canais pela TV, rádio ou internet.

Afastamento de diretores e novo comando

Após as polêmicas, um relatório interno da BBC apontou falhas de imparcialidade editorial do canal e dois membros de alto escalão do jornalismo pediram demissão. Um deles foi o diretor-geral da rede, Tim Davie, e a outra foi a diretora-geral de jornalismo, Debora Turness. A decisão abriu espaço para que o novo diretor-geral da BBC, Matt Brittin, assumisse o cargo.

Além disso, a BBC emitiu uma carta formal de desculpas ao parlamento britânico especificamente pelo caso envolvendo Donald Trump.


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