Um tribunal de Kyiv proibiu o veículo investigativo Slidstvo.Info, a organização Centro de Ação Contra a Corrupção (AntAC) e a jornalista Alina Stryzhak de publicarem uma investigação sobre imóveis supostamente pertencentes a Oleksandr Sukhachov, irmão de Oleksii Sukhachov, diretor do Escritório Estatal de Investigações da Ucrânia (SBI), responsável por apurar crimes cometidos por autoridades públicas.
A reportagem estava prevista para sair no dia 13 de julho, mas a decisão judicial emitida uma semana antes suspendeu a publicação.
Em nota, o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ) afirmou que a medida representa uma proibição prévia à publicação de uma investigação jornalística e alertou para seus possíveis impactos sobre a liberdade de imprensa na Ucrânia.
“O bloqueio judicial da publicação de uma investigação pelo Slidstvo.Info e pela AntAC é uma manobra jurídica sem precedentes”, afirmou Gulnoza Said, coordenadora da organização para Europa e Ásia Central do CPJ.
Liminar foi concedida a pedido de empresa ligada ao investigado
De acordo com o CPJ, a decisão atendeu a um pedido de liminar apresentado pela empresa Parkovyi-2 LLC, apontada pelo Slidstvo.Info como ligada a Oleksandr Sukhachov.
A jornalista Alina Stryzhak havia procurado a empresa em 24 de junho para pedir um posicionamento sobre a investigação.
Segundo o Slidstvo.Info, o juiz entendeu que a publicação poderia causar danos irreparáveis e revelar segredos comerciais. Pela legislação ucraniana, a empresa tem dez dias, a partir de 6 de julho, para apresentar uma ação judicial.
Em declaração à emissora pública Suspilne, o tribunal afirmou que a proibição é temporária.
O CPJ observou que liminares desse tipo normalmente são utilizadas para preservar ativos ou provas durante um processo, e não para impedir previamente a divulgação de reportagens.
Veículo afirma que decisão é inédita
O Slidstvo.Info e a AntAC anunciaram que recorrerão da decisão.
Segundo Anna Babinets, fundadora e editora do Slidstvo.Info, esta é a primeira vez que um tribunal impede a publicação de uma reportagem ainda inédita na Ucrânia.
Em nota citada pelo CPJ, a diretora-executiva da AntAC, Daria Kaleniuk, afirmou que as duas organizações acreditam estar sendo usadas para testar um mecanismo destinado a impedir jornalistas de revelar casos de corrupção.
O CPJ informou que procurou o Escritório Estatal de Investigações da Ucrânia (SBI) e a Parkovyi-2 LLC para comentar o caso, mas não recebeu resposta.
Corrupção na Ucrânia
O caso ocorre em um contexto em que a corrupção continua sendo apontada como um dos principais desafios institucionais da Ucrânia.
Segundo a organização Freedom House, o país ainda enfrenta problemas de corrupção no governo, no Judiciário e em outros setores, embora tenha avançado no fortalecimento de órgãos anticorrupção e na investigação de autoridades de alto escalão, o que levou ao afastamento de integrantes do governo nos últimos anos.
Em novembro de 2025 o presidente Volodymyr Zelenskyy demitiu dois altos funcionários e impôs sanções associados próximos depois de investigadores do governo terem revelado que $100 milhões tinham sido desviados do sector energético através de propinas pagas por empreiteiros.
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