© Conteúdo protegido por direitos autorais

Censura?

Ex-diretora que denunciou Facebook em livro processa Meta por ordem de silêncio e ‘perseguição’

Sarah Wynn-Williams era diretora de políticas globais do Facebook e lançou um livro com duras críticas à big tech em 2025, mas foi proibida de falar sobre a publicação em eventos

Montagem mostra Sarah Wynn, ex-diretora do Facebook, ao lado de Mark Zuckerberg, CEO da empresa

Foto: Hay Festival/Reprodução e Instagram/Reprodução




Uma ex-diretora de políticas globais do Facebook entrou com uma ação judicial contra a Meta por ter imposto a ela uma ordem de silêncio sobre seu livro com denúncias contra a empresa, decidida por uma organização particular de arbitragem extrajudicial.

Sarah Wynn-Williams lançou o livro em março de 2025, mas, desde então, não pôde dar qualquer declaração sobre a publicação, ou precisaria pagar uma multa de milhares de dólares.

O caso contra a mulher, que trabalhou por sete anos na empresa, acabou gerando cenas curiosas, como um painel em um festival literário no Reino Unido no qual ela permaneceu em silêncio.

Do outro lado, a Meta, que enfrenta uma série de processos judiciais e condenações por questões envolvendo a saúde mental de crianças e adolescentes, afirma que as declarações de Sarah são difamação.

A empresa alega ainda que ela violou um contrato de confidencialidade, versão aceita pelo árbitro particular que determinou seu silêncio.

Árbitro foi a favor da Meta

A Meta conseguiu judicialmente o silêncio da ex-diretora antes mesmo da publicação do livro.

O caso foi levado à Associação Americana de Arbitragem, organização que administra processos extrajudiciais de forma sigilosa.

Em uma audiência de emergência que aconteceu dias após o acionamento, um árbitro considerou que a Meta apresentou provas concretas de que a ex-diretora violou o contrato de rescisão.

Por causa disso, a Justiça proibiu que ela divulgasse o livro, sob pena de multa de US$ 50 mil em cada evento de promoção.

A decisão também pedia a retratação dos comentários “depreciativos” que ela fez em público sobre a Meta. A publicação do livro, porém, não foi banida e as vendas seguiram.

A ordem segue em vigor até que uma decisão definitiva sobre o assunto aconteça.

Em um comunicado, a Meta afirmou, apenas, que a decisão judicial mostra que “o livro falso e difamatório nunca deveria ter sido publicado”.

À imprensa, a companhia disse que o livro tem uma “mistura de alegações desatualizadas e divulgadas anteriormente”. Além disso, a Meta afirmou que o livro tem acusações falsas contra executivos.

Sobre a acusação do suposto assédio sexual de seu chefe, Joel Kaplan, a Meta informou que uma investigação formal foi aberta em 2017 e inocentou o diretor.

Processo de Sarah

A ação judicial movida pela ex-diretora do Facebook contra a Meta afirma que a empresa usou “um árbitro privado para silenciar Sarah Wynn-Williams”.

De acordo com o posicionamento, assinado pelo advogado Ravi Naik, a defesa quer que um tribunal aberto e judicial desfaça o que a corte arbitrária e privada propôs.

““Há 470 dias, a Meta usou um árbitro privado para silenciar Sarah Wynn-Williams. Sem juiz, sem julgamento e sem constatação de que ela tenha dito algo falso. Apenas um procedimento secreto entre um árbitro e uma das corporações mais poderosas do mundo.”

Segundo o advogado, a ex-diretora do Facebook não teve representação legal na corte arbitrária que ordenou seu silêncio. A defesa de Sarah afirma, ainda, que assinou seu contrato de rescisão sob coação. Este documento é a principal prova da Meta para alegar que a ex-diretora está errada.

Além disso, o advogado alega que a Meta vigiou a ex-diretora, enviando representantes da empresa para fotografá-la e documentar suas aparições públicas.

A ação judicial foi aberta na quinta-feira (25) em um tribunal federal da Califórnia. Além de pedir que a ordem de silêncio caia, a defesa da ex-diretora quer a anulação do contrato de confidencialidade dela.

Ao comentar o assunto, a Meta informou que Sarah “tenta usar o processo legal para vender livros”. A empresa falou, ainda, que a publicação dela é “dissociada da realidade, depreciativa e com alegações falsas”.

O que diz o livro

O livro da ex-diretora do Facebook chegou às prateleiras em março de 2025. Com a publicação de nome “Careless People” (pessoas descuidadas, em português), Sarah listou uma série de acusações graves contra a Meta.

A mulher acredita que sua demissão foi uma consequência da denúncia de má conduta sexual contra seu chefe, Joel Kaplan, dentro da empresa. Posteriormente à demissão dela, a Meta promoveu Kaplan.

Além disso, ela afirmou que alguns funcionários da Meta tinham tanto conhecimento sobre os problemas das redes sociais na cabeça de crianças e adolescentes, que proibiam seus filhos de usarem o produto.

A ex-diretora também explanou questões globais e até mesmo diplomáticas da Meta.

Segundo ela, o Facebook colaborou com a coleta de dados de cidadãos de Hong Kong para o governo chinês e veiculou anúncios de campanha para Donald Trump nas eleições de 2016. O mesmo serviço foi oferecido à equipe de Hilary Clinton, que recusou a proposta.

Antes da proibição judicial imposta pela Meta, a ex-diretora comentou sobre o livro para a rede de rádio pública dos EUA, a NPR.

Na conversa, ela explicou que deixou seu emprego na ONU por acreditar na proposta da Meta (na época, chamada somente de Facebook).

De acordo com ela, Mark Zuckerberg sempre foi alguém desinteressado em políticas globais e focado em uma “dominação global”.

“Ele encara o mundo como se fosse um jogo de tabuleiro, tipo um jogo de Risk. E o objetivo é ocupar todos os territórios, construir um império. Essas são as coisas que o preocupam, não o impacto real que isso teria no mundo.”

Painel silencioso

Sob ameaças de novas ações judiciais da Meta, a autora do livro sobre o Facebook protagonizou uma cena curiosa durante o Hay Festival, tradicional festival de literatura do País de Gales.

A ex-diretora do Facebook subiu ao palco em um painel para promover seu livro, mas ficou em silêncio durante toda a programação.


No palco, os mediadores da conversa leram uma carta do advogado da ex-diretora. O comunicado explicava que a meta conseguiu uma liminar proibindo Sarah de “promover o livro ou falar sobre certos assuntos, independente da veracidade do que ela afirma”.

Os membros do painel, a jornalista Carole Cadwalladr e o acadêmico Tim Wu, classificaram a situação como uma censura.

Na ocasião, a Meta respondeu ao fato, afirmando que não estava silenciando a ex-diretora. Segundo eles, a situação era fruto de uma “sentença arbitral provisória”.

Cerco apertado contra a Meta

O livro de Sarah é só mais uma pedra no caminho da Meta nos últimos anos. Diante do debate sobre os efeitos das redes sociais em crianças e adolescentes, a companhia enfrenta uma série de ações judiciais movidas por jovens que acusam seu design viciante de causar dependência.

Em dois desses processos, no Novo México e na Califórnia, a Meta perdeu e precisou, ao menos em primeira instância, pagar indenizações milionárias.

Em outro caso, no Kentucky, a empresa fechou um acordo extrajudicial para não seguir o processo adiante.


error: Este conteúdo é protegido por direitos autorais.