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Aliciamento digital

Crime organizado da Colômbia está usando Facebook e TikTok para recrutar crianças, diz Human Rights Watch

Estimativa publicada em relatório da ONG de direitos humanos aponta que 44% dos menores que entraram no crime organizado do país em 2025 foram influenciados ou diretamente cooptados pelas publicações feitas nessas redes sociais




Uma pesquisa feita pela ONG Humans Right Watch apontou que as facções armadas da Colômbia têm usado o Facebook e o TikTok para aliciar crianças e adolescentes para o crime.

O relatório “Recrutamento e uso de crianças por grupos armados colombianos”, divulgado nesta segunda-feira (25), lista as táticas de convencimento dos menores, como a ostentação do crime em posts, e também as manobras que os criminosos fazem para burlar as ferramentas de segurança das big techs.

O documento aponta ainda que tanto as redes quanto o estado colombiano falham em monitorar a exposição dessas crianças, o que resultou em um índice alarmante.

Segundo dados da Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia, que monitorou a relação de adolescentes que fazem parte de facções com as plataformas em 2025, 44% dos menores que entraram para o crime organizado naquele ano foram cooptados no ambiente digital.

A pesquisa

A análise da Human Rights Watch (HRW) vai além da cooptação de crianças e adolescentes para o crime organizado da Colômbia por meio do Facebook e do TikTok.

Os pesquisadores também investigaram a expansão do recrutamento infantil por grupos armados como um todo, principalmente em áreas rurais e comunidades indígenas do país.

Para fazer o estudo, a ONG combinou a análise das redes com investigações em campo, entrevistando 184 pessoas. Entre os entrevistados estão líderes comunitários, trabalhadores humanitários e vítimas cooptadas pelo crime.

As pesquisas em campo aconteceram nas cidades de Bogotá e em áreas consideradas “de conflito crítico”, como nos departamentos de Cauca, Córdoba e Putumayo.

Entre as vítimas ouvidas estavam cinco crianças recrutadas pelas redes sociais que acabaram deixando o crime e outras cinco que passaram pelas primeiras “fases”, da cooptação, mas foram resgatadas antes de entrar oficialmente para o crime.

Cooptação de crianças e adolescentes

Para atrair as crianças e adolescentes, membros de grupos armados atuam como verdadeiros influenciadores, publicando fotos e vídeos com suas fardas camufladas e armas de fogo modernas.

Além disso, eles focam não só no combate, mas também na rotina “divertida” por trás do crime, mostrando momentos de lazer e vídeos com exercícios de treinamento.

Com intuito de se adequar à linguagem das crianças e adolescentes, as publicações usam músicas de narcocorrido, um gênero que alia os tradicionais corridos mexicanos, canções narrativas, com histórias da vida no crime.

Os perfis também glorificam o luxo, com vídeos mostrando maços de dinheiro, joias, celulares modernos e motocicletas caras. É com essas imagens que os criminosos conseguem recrutar pessoas de populações mais vulneráveis, como crianças de áreas rurais e indígenas.

A pesquisa destacou cinco posts feitos em perfis do TikTok que exemplificam essa cooptação. Um deles mostra as mãos de um homem usando um anel do Exército de Libertação Nacional.

Esta publicação tinha centenas de comentários com usuários perguntando como podiam se juntar ao grupo.

Outra publicação reportada é de um acampamento do Estado Maior Central, uma dissidência das FARC.

O vídeo postado por membros dessa facção tem quase 30 pessoas, algumas delas aparentemente menores de idade, construindo infraestruturas em uma região montanhosa de Cauca.

Vítimas vulneráveis

O relatório da Human Rights Watch também monitorou as promessas que, somadas aos vídeos, atraem as vítimas.

Muitas vezes, os aliciadores publicam anúncios oferecendo empregos atraentes em fazendas ou plantações de coca.

Quando as crianças chegam ao local, acabam obrigadas a se unir ao crime. Em outras, as organizações criminosas se oferecem para fazer gratuitamente o transporte de adolescentes em áreas como Catatumbo, Cauca e Tolima.

A análise do HRW aponta que crianças indígenas são as mais vulneráveis ao aliciamento, compondo quase 50% de todos os casos registrados em 2025. Comunidades afrocolombianas também têm um grande número de crianças exploradas.

A maioria delas têm entre 15 e 16 anos e vive em áreas rurais, com pouco acesso à educação. Outro perfil de adolescentes cooptados é o dos que estão sob situação de violência doméstica, que acabam encontrando um “escape” nos vídeos encontrados online.

Táticas para burlar as ferramentas de segurança

Buscando alcançar as crianças e adolescentes apesar das ferramentas de segurança do Facebook e do TikTok, os cooptadores usam táticas para burlar a moderação das plataformas.

Uma das mais comuns, de acordo com o relatório, é o disfarce alfanumérico, transformando “FARC” em “F4RC”, por exemplo. Com essa tática, a moderação automática das plataformas deixa passar termos problemáticos com facilidade.

Além disso, os grupos também têm um ótimo padrão de reconfiguração digital, criando com rapidez contas exatamente iguais às derrubadas pelas moderações.

Outra grande vulnerabilidade explorada pelos grupos é a utilização de idiomas indígenas, já que as big techs não têm filtros ou treinamento adequado para identificar essas linguagens na sua busca automatizada.

O “arremate” das cooptações também acontece com ajuda de uma tática dos criminosos: o deslocamento rápido para espaços privados.

Assim que uma criança ou adolescente manifesta seu interesse em entrar para o crime, os recrutadores os orientam a chamar na DM, onde filtros de moderação não avançam com facilidade.

Emojis ajudam a comunicação proibida

Outra popular forma de burlar as regras de segurança é a substituição de textos por códigos visuais, aponta o relatório. Com sutileza, a proposta de aliciamento para os adolescentes aparece com emojis de dinheiro ou de um trevo.

Eles também usam emojis de ninjas para simbolizar membros das organizações criminosas e bandeiras de países estrangeiros para sinalizar as facções.

A bandeira da Colômbia ao lado da da Armênia representa as dissidências da Farc, enquanto a bandeira de Angola significa o Exército de Libertação Nacional, já que tem as mesmas cores dele.

O papel das redes

A análise não só apontou as falhas no monitoramento por parte das big techs, mas também constatou que as próprias plataformas ajudavam a expandir o alcance dos posts. .

Com uma conta de teste, membros da ONG visualizaram um vídeo de um grupo armado. A partir daí, o algoritmo das duas plataformas passou a sugerir automaticamente mais postagens semelhantes.

Além disso, essas mesmas plataformas recomendavam que contas com a mesma temática fossem seguidas, ou adicionadas como amigos.

A análise recomendou que as plataformas fizessem auditorias periódicas para avaliar os riscos sofridos pelas crianças.

A Human Rights Watch também salientou a necessidade de canais de denúncia, inclusive, em línguas indígenas e de mecanismos de resposta rápida para casos de risco.

Uma importante recomendação feita pela HRW é a da necessidade de uma supervisão humana significativa para os sistemas de moderação.

A Meta, por exemplo, tem trabalhado em migrar a maior parte da sua supervisão para sistemas de IA, algo amplamente criticado por especialistas.

O estado colombiano também tem uma parcela de culpa, afirma a análise. Além de políticas públicas desatualizadas, que não refletem o ambiente digital atual dessas crianças, o sistema judicial do país apresenta altos índices de impunidade. Isso resulta em poucas condenações para quem recruta os menores.

O que o Facebook e o TikTok responderam

Tanto a Meta quanto a Bytedance, dona do TikTok, responderam à HRW.

A Meta afirmou que tem recursos para proteger menores de 18 anos, citando canais colaborativos com autoridades e a ferramenta de supervisão parental, que em muitos dos casos da Colômbia, nos quais as crianças têm pais com pouca ou nenhuma instrução educacional, é uma medida inefetiva.

O TikTok também afirmou que trabalha junto com as autoridades colombianas. Além disso, a rede disse que removeu 99,4% do conteúdo que violava as políticas contra o ódio publicado no país antes mesmo que esses conteúdos fossem denunciados pelos usuários.

Apesar dos sistemas de proteção, o órgão apontou que novas contas continuam surgindo pouco após os banimentos. Isso mostra que as medidas atuais não são suficientes


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