O aplicativo de mensagens Telegram vive um momento conturbado, com um processo aberto em uma corte federal da Austrália e um mandado de prisão internacional emitido contra seu CEO e criador, Pavel Durov, pela Rússia na mesma semana.
Apesar de compartilharem visões diferentes sobre regulação às redes e liberdade de expressão, os dois países usam o mesmo termo em suas acusações: “terrorismo”. Mesmo com diferentes abordagens, autoridades da Austrália e da Rússia mencionam a falta de moderação para conteúdos violentos e culpam a empresa pela sua excessiva recusa a pedidos e ordens governamentais.
Enquanto os processos seguem, o dono do Telegram continua solto (ele chegou a ser preso na França em 2024) e usando as redes sociais para se manifestar, muitas vezes, de forma irônica. Na Austrália, o aplicativo funciona sem restrições, já na Rússia, vive sob um forte cerco.
Processo na Austrália
O processo mais recente contra o Telegram, anunciado nesta quinta-feira, foi do eSafety Commissioner, órgão regulador de segurança online da Austrália. De acordo com o órgão, o processo federal acontece porque a empresa não removeu conteúdo terrorista e de extremismo violento transmitido nos seus canais, mesmo após repetidos avisos.
A principal acusação do estado contra o Telegram é a falha em “detectar, deter e interromper” conteúdos pró-terrorismo. Entre eles estão materiais com decapitações e execuções realizadas pelo Estado Islâmico. Os materiais terroristas teriam ficado na plataforma por pelo menos três meses, mesmo após pedido de retirada por parte do órgão regulador.
Além disso, entre os outros pontos levantados pelas autoridades na acusação está a falha na moderação de outros conteúdos violentos.
A Austrália chegou a citar nominalmente quais vídeos a empresa teria deixado de remover das redes. Um deles foi o do massacre na mesquita de Christchurch, que aconteceu em 2020 na Nova Zelândia, e outro foi um tiroteio em um supermercado americano.
Outro problema que causou o acionamento da Justiça, segundo a ministra das Comunicações, Anika Wells, foi a demora no retorno da empresa ao governo. De acordo com ela, o órgão regulador viveu “cinco meses muito difíceis” aguardando uma manifestação da plataforma.
Possíveis punições
Se condenado na Austrália, o Telegram pode pagar multas de até 54,6 milhões de dólares australianos (R$ 195 milhões). A legislação do país não obriga que a empresa tenha uma licença para operar na Austrália, mas o órgão regulador tem poder de proibir o serviço no país, uma lei nunca antes usada.
“Nunca usamos esses poderes, mas veremos como tudo isso vai se desenrolar e se essa ação é justificável”, afirmou a coordenadora do eSafety Commissioner, Inman Grant, em pronunciamento.
Ao contrário do que aconteceu na Rússia, não há previsão de prisão para o CEO da empresa neste processo.
Rússia manda prender criador do app, que nasceu no país
No caso da Rússia, o processo judicial em curso também foca nos supostos riscos aos quais a plataforma expôs seus cidadãos, mas a punição é nominal. O país emitiu uma ordem de prisão a Pavel Durov, que é russo, considerando-o pessoalmente responsável pelos perigos oferecidos pelo Telegram.
Segundo o indiciamento contra ele, a sua liderança e filosofia de uma “comunicação sem censura” moldam a recusa da plataforma em remover conteúdos ou colaborar com governos. Além disso, as autoridades russas também ressaltaram o histórico de “desobediência” que de Durov.
Em 2014, o dono do Telegram vendeu o app Vkontakte, o “Facebook russo”, por não compartilhar dados de manifestantes que organizavam protestos no país.
Facilitação ao terrorismo
O conceito de “terrorismo” da Rússia também é um pouco diferente do australiano. Para a Justiça, os atos de terror aceitos pelo Telegram têm relação com o planejamento de ataques dentro do território russo.
De acordo com a decisão, além de traições à pátria, o app também seria usado para organizar execuções coletivas, para fraudes cibernéticas e principalmente para que serviços especiais ucranianos preparassem atos de sabotagem contra o governo russo.
As acusações evidenciam não só o histórico radical de controle das redes da Rússia, como também o momento histórico que o país vive durante a guerra com a Ucrânia.
Além de frequentemente acusar pessoas e plataformas de conluio com os ucranianos, o Kremlin também tem organizado campanhas de desinformação contra o presidente Volodymyr Zelensky nacionalmente e internacionalmente.
Durov ironizou a ordem de Putin em publicação nas redes sociais. Primeiro, ele afirmou que os russos estão “claramente confusos” sobre quem eles podem ou não banir das redes. Depois, ele postou uma foto do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, ao lado de porta-vozes do Talibã e questionou quem era o terrorista.
— Pavel Durov (@durov) July 30, 2026
O dono do Telegram não se pronunciou publicamente sobre a investigação aberta na Austrália até o momento.
Batalha na Rússia é antiga
Assim como faz com outras redes sociais fora do controle do estado, a Rússia tem restringido o funcionamento do aplicativo no país. O anúncio de prisão por terrorismo não é a primeira ação de Putin contra Patel Durov ou contra o Telegram neste ano.
Em março, o Kremlin aplicou uma multa de 35 milhões de rublos, o equivalente a R$ 2,2 milhões, por acusações de omissão para remover conteúdo extremista e pornográfico. No mês anterior, o país tinha aplicado outras restrições ao aplicativo por “fazer pouco para combater fraudes”.
As restrições fizeram o envio de fotos e vídeos parar de funcionar e obrigaram que alguns usassem serviços de VPN para tentar burlar o bloqueio.
Enquanto as autoridades seguem negando planos para banir totalmente as redes e afirmando que trabalharão com aqueles “que respeitem a lei”, o Telegram rejeita as acusações de omissão, afirmando que a Rússia tenta censurar a plataforma.
CEO já foi preso na França
Assim como a Rússia, a França também já mandou prender o dono do Telegram por facilitar atividades criminais na sua plataforma.
A polícia do país europeu prendeu Durov em agosto de 2024, quando ele desembarcou do seu jatinho no país. Na ocasião, a promotoria pública de Paris investigava a plataforma pelos crimes de transações ilícitas, abuso sexual infantil, fraude e recusa de comunicar informações a autoridades.
O executivo passou quatro dias preso e saiu da cadeia ao pagar uma multa de US$ 5 milhões. Ele classificou a prisão como “surpreendente” e disse que o país usou leis antigas para detê-lo.
Quem é Pavel Durov
Nascido na Rússia em 1984, Pavel Durov é um empresário da área da tecnologia. Ele iniciou um site de mídia social, o VKontakte, em 2006. No entanto, uma disputa sobre como os novos proprietários do site o operavam o levou a deixar a empresa em 2014.
Pouco antes de sair do VKonakte ele criou o Telegram, plataforma protagonista de polêmicas nos últimos anos, com ajuda do irmão, Nikolai Durov. Os dois se mudaram para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde fica a sede da empresa.
Durov também tem conexões com figuras famosas da tecnologia como Elon Musk e Mark Zuckerberg, e desfruta de amplo apoio na comunidade tecnológica libertária.
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