A TV pública italiana Rai decidiu retirar um de seus jornalistas investigativos mais conhecidos do comando do programa que apresentava havia quase uma década depois de uma reviravolta surpreendente na investigação de um atentado a bomba contra ele: um amigo confessou ter sido o mandante do ataque.
O caso, que parece um enredo de filme, está provocando forte repercussão na Itália e recebendo ampla atenção da imprensa e do público.
Sigfrido Ranucci construiu sua carreira com investigações sobre máfia, corrupção, política e relações entre poder econômico e instituições públicas.
Ex-jornalista e empresário, Valter Lavitola é uma figura controversa, conhecido pela proximidade no passado com o magnata da mídia e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi e por condenações em casos envolvendo extorsão, corrupção e uso irregular de recursos públicos.
Ranucci mantinha uma relação próxima com Lavitola e frequentava o restaurante do empresário em Roma, onde os dois chegaram a ser fotografados juntos.
Mas a investigação não encontrou até agora evidências de que o jornalista soubesse previamente do atentado, que aconteceu em 2025, ou tivesse participado de sua preparação.
Rai tira Ranucci do comando do Report
A Rai anunciou que a próxima temporada do Report será apresentada pelos jornalistas Giulia Presutti e Daniele Piervincenzi. Ranucci comandava a atração desde 2017 e se tornou seu principal rosto.
Ele não foi demitido da emissora. A Rai informou que ofereceu ao jornalista outras possibilidades de trabalho dentro da empresa.
Segundo Ranucci, entre as alternativas estão posições no telejornal Tg3, na RaiNews ou um posto de correspondente no Cairo, no Egito.
À mídia italiana o jornalista disse que não pretende aceitar as propostas e questionou a lógica da decisão. Afirmou não entender por que, se não é considerado adequado para continuar no Report, seria considerado adequado para trabalhar em outros programas jornalísticos da Rai.
A possibilidade de trabalhar no Cairo provocou uma reação ainda mais dura.
Ranucci lembrou que vive sob escolta policial na Itália e afirmou que perderia essa proteção no exterior. Também evocou Giulio Regeni, pesquisador italiano sequestrado, torturado e morto no Egito em 2016, ao sugerir que poderia correr risco semelhante.
Atentado contra jornalista ocorreu em 2025
A crise teve início na noite de 16 de outubro de 2025, quando um explosivo foi detonado diante da casa de Ranucci em Pomezia, nos arredores de Roma.
A explosão destruiu o carro do jornalista, danificou o veículo de sua filha e atingiu parte da propriedade. Ninguém ficou ferido. Depois do atentado, sua segurança foi reforçada.
O Report, exibido pela Rai 3, é um dos programas de jornalismo investigativo mais conhecidos da Itália e se tornou referência por reportagens sobre crime organizado, corrupção, política, administração pública e grandes empresas.
Nos meses seguintes ao ataque, os investigadores trabalharam com diferentes hipóteses, inclusive a possibilidade de que a bomba tivesse sido uma represália por alguma investigação jornalística.
Amigo confessou ser mandante do atentado
A investigação mudou de direção em 2026. Quatro pessoas foram presas sob suspeita de participação na execução material do atentado, e as autoridades chegaram posteriormente a Valter Lavitola, empresário, ex-jornalista e ex-editor do jornal Avanti!.
A investigação encontrou telefonemas e mensagens trocados entre os dois. Entre os assuntos discutidos estava uma possível entrada de Ranucci na política, e Lavitola teria considerado inclusive a realização de uma pesquisa de opinião para medir o potencial eleitoral do jornalista.
Preso em agosto, Lavitola admitiu ter sido o mandante do atentado ao jornalista.
A motivação, porém, ainda é alvo de investigação. Lavitola afirmou que pretendia provocar uma intimidação para que as autoridades reforçassem a segurança do amigo.
Os investigadores trabalham também com a hipótese de que o atentado tenha sido planejado para aumentar a popularidade de Ranucci e favorecer uma eventual carreira política da vítima, da qual Lavitola esperaria se beneficiar.
Relação com mandante abriu crise dentro da Rai
A revelação da proximidade entre Ranucci e Lavitola abriu uma crise dentro da emissora.
Ranucci afirma que a relação nunca interferiu no conteúdo do Report e argumenta que manter contato com personagens controversos faz parte do trabalho de um jornalista investigativo.
Em julho, a Rai suspendeu preventivamente as reprises do programa e iniciou verificações internas sobre o caso.
A situação também teve repercussões políticas, já que a RAI é uma empresa pública de mídia.
Integrantes da coalizão que sustenta o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni questionaram a permanência de Ranucci, enquanto representantes da oposição acusaram a direção da Rai de aproveitar o episódio para enfraquecer um programa conhecido por investigações que atingem diferentes setores do poder.
Jornalistas da Rai contestam decisão
A substituição de Ranucci encontrou resistência dentro da própria emissora.
Jornalistas históricos do Report classificaram a decisão como inaceitável, e dois integrantes veteranos da equipe recusaram funções de chefia oferecidas pela direção.
A Usigrai, sindicato dos jornalistas da Rai, também cobrou explicações e defendeu diálogo com a redação. A entidade afirmou que o programa é um patrimônio da emissora e de seus profissionais e pediu esclarecimentos sobre os motivos para a retirada de Ranucci do comando.
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