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Clonagem de voz

Dublador vence disputa judicial após ter voz clonada com IA em vídeos no TikTok no Japão

Kenjiro Tsuda levou à Justiça 188 vídeos com uma voz semelhante à sua; tribunal reconheceu pela primeira vez que a voz pode ter proteção legal no Japão

Tsuda Kenjiro, dublador do Japão, teve sua voz clonada em vídeos publicados no TikTok

Tsuda Kenjiro, dublador do Japão, teve sua voz clonada em vídeos publicados no TikTok (foto: Foto: Dick Thomas Johnson / Wikimedia Commons)




A Justiça do Japão reconheceu que a voz de uma pessoa pode ser protegida contra exploração comercial não autorizada, em uma decisão envolvendo vídeos com voz gerada por inteligência artificial no TikTok.

O entendimento foi apresentado nesta quarta-feira (30) pelo Tribunal Distrital de Tóquio em um processo movido pelo dublador e ator Kenjiro Tsuda contra a empresa responsável pela plataforma.

A imprensa japonesa trata a decisão como a primeira manifestação judicial no país a incluir expressamente a voz no chamado direito de publicidade.

O que aconteceu

Tsuda pediu a remoção de 188 vídeos publicados entre julho de 2024 e setembro de 2025.

Segundo a sentença divulgada pelo Tribunal Distrital de Tóquio, as gravações traziam narrações sobre lendas urbanas, fenômenos sobrenaturais e curiosidades com uma voz semelhante à do artista. A conta tinha mais de 210 mil seguidores, e alguns usuários comentavam que reconheciam a voz de Tsuda.

O responsável pela conta afirmava que não havia usado a voz original do dublador para treinar a ferramenta. Segundo uma explicação reproduzida nos autos, teria sido usada a voz de um amigo capaz de imitar Tsuda, posteriormente processada por IA.

O TikTok também contestou que o áudio pudesse ser considerado uma reprodução da voz do artista.

Voz pode fazer parte dos direitos de uma pessoa

Ao analisar o processo, o tribunal afirmou que a voz de uma pessoa, assim como sua imagem, pode funcionar como um símbolo de sua personalidade.

Para a Justiça, o uso não autorizado da voz de um artista pode violar o chamado direito de publicidade quando ela tem poder de atrair consumidores e é usada justamente para explorar comercialmente esse valor.

Isso não significa, porém, que a Justiça tenha considerado ilegais os 188 vídeos citados por Tsuda. O tribunal constatou que o responsável pela conta a havia apagado em maio e que os dados dos vídeos tinham sido eliminados dos servidores do TikTok em junho.

Como o conteúdo que Tsuda queria retirar já não existia, seu pedido foi rejeitado e os juízes decidiram não analisar os demais pontos da disputa — inclusive se aqueles áudios específicos violavam seus direitos.

Uso de voz por IA já preocupa o governo japonês

A discussão sobre o uso de vozes por IA já vinha sendo examinada pelo governo japonês.

Em agosto, o Ministério da Justiça do Japão publicou um relatório sobre o uso não autorizado de imagem e voz por sistemas de inteligência artificial e sobre como regras existentes, entre elas o direito de publicidade, podem ser aplicadas a esses casos.

A decisão de Tóquio estabelece um princípio sobre a possibilidade de proteção da voz, mas deixa uma incerteza para futuros processos: em que condições uma voz criada ou modificada por IA é suficientemente semelhante à de uma pessoa real para caracterizar violação de seus direitos.


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