Profissionais de atividades variadas como cientistas, professores, advogados e executivos estão usando cada vez mais aplicações de inteligência artificial generativa (IA) em tarefas no trabalho que exigem imaginação, criatividade e solução de problemas.
Mas ironicamente, pesquisas recentes mostram que pessoas que interagem com a IA generativa em atividades profissionais podem acabar pensando de forma menos crítica.
Elas podem se render às respostas rápidas e confiantes da IA, o que pode levar a soluções velozes, mas de baixa qualidade.
Pesquisadores chamam esse problema, cada vez mais comum, de descarga ou terceirização cognitiva. E vêm mostrando que ele pode enfraquecer justamente as habilidades que tornam esses profissionais valiosos.
A pesquisa que fizemos sobre a relação entre inteligência artificial e trabalho oferece, porém, uma visão diferente. Em um estudo, entrevistamos 45 profissionais de uma universidade pública dos Estados Unidos.
Todos usavam aplicações de IA generativa em atividades essenciais de seu trabalho: gerar novas ideias, resolver problemas complexos e desenvolver soluções inovadoras.
Também analisamos os comandos (prompts) e as respostas das conversas dos participantes com chatbots de IA.
Constatamos que quando esses profissionais usam deliberadamente a IA para desafiar suas ideias , criando confronto, podem melhorar significativamente o desempenho do chatbot.
Pesquisas anteriores sobre colaboração entre humanos e IA na avaliação de empréstimos chegaram a resultados semelhantes.
Como criar confronto com a IA
Usar a IA para encontrar informações que contrariem as suas pode revelar perspectivas capazes de romper uma lógica já conhecida e provocar novas visões.
Isso é particularmente importante porque os modelos de IA rapidamente se familiarizam com a maneira como cada usuário formula seus pedidos e interpreta as respostas, e passam a apresentar informações de acordo com esses padrões.
Por exemplo, uma profissional de marketing que participou do nosso estudo pediu à IA que criasse clientes virtuais com perfis que os levassem a não gostar de um produto em desenvolvimento (um programa de certificação em contabilidade).
O contraponto apresentado pela IA revelou preferências dos clientes que a profissional responsável pelo programa não havia considerado, como usar vários casos de setores diferentes para ilustrar um princípio, em vez de exemplos de um mesmo setor.
Um advogado usou a IA para encontrar brechas jurídicas pouco conhecidas e analisar como empresas poderiam explorá-las. Isso revelou cenários surpreendentes, mas realistas, de comportamentos antiéticos de funcionários difíceis de detectar.
Usar o próprio conhecimento para questionar
Explorar ideias improváveis e opostas apresentadas pela IA pode causar certa desorientação.
Para lidar com isso, os profissionais devem se apoiar no próprio conhecimento para questionar informações surpreendentes que um chatbot de IA possa fornecer.
Um pesquisador da área de pesquisa operacional que trabalha com cadeias de suprimentos contou que adaptou programas de computação de outras áreas, até então desconhecidos para ele e sugeridos pela IA, como processamento de sinais e comunicação sem fio.
Isso o ajudou a criar um programa próprio mais robusto. Embora aqueles programas fossem novos para ele, seu conhecimento sólido de modelagem de redes de suprimentos permitiu decidir como poderia aplicá-los.
Um estudo constatou que redatores criativos produzem textos melhores quando usam a IA como interlocutora, em vez de deixá-la escrever por eles.
Olhar o mesmo problema por diferentes ângulos
Pessoas que usam a IA no trabalho também podem usar as respostas dos chatbots para examinar temas sob diferentes pontos de vista e aprofundar seu conhecimento.
Um pesquisador que participou do nosso estudo pediu a um conjunto de IA artigos científicos que usassem determinado conceito com o qual ele trabalhava, mas em contextos muito diferentes.
Isso o ajudou a compreender o conceito sob outros ângulos.
Uma advogada, por sua vez, aprofundou citações jurídicas sugeridas por um modelo de IA pedindo diferentes tipos de casos que servissem como exemplos. Isso a ajudou a compreender plenamente o caso original e a escrever uma peça jurídica sólida.
Como ajudar profissionais a tirar mais proveito da IA
Dirigentes de organizações podem incentivar seus profissionais a desenvolver perguntas e comandos para modelos de IA capazes de gerar esse tipo de confronto.
Uma forma direta de fazer isso é usar comandos que questionem o raciocínio da pessoa em vez de simplesmente concordar com ele.
As pessoas também podem recorrer ao próprio conhecimento, à experiência profissional e à ética de sua profissão para examinar criticamente as respostas da IA.
Às vezes, percebem que uma resposta não tem originalidade, mesmo estando correta do ponto de vista factual.
Os gestores também podem criar programas para que profissionais compartilhem experiências e aprendizados.
Sessões regulares conduzidas por grupos multidisciplinares de IA ou por profissionais que funcionem como referências internas no tema também podem ajudá-los a acompanhar a rápida evolução das ferramentas de IA.
Oferecer recursos para esses profissionais também é importante. Cursos intensivos internos de IA e workshops conduzidos por especialistas ou usuários experientes podem ajudá-los a entender o que essas ferramentas conseguem e não conseguem fazer.
Competições internas com prêmios para quem estuda IA
Uma professora que lidera uma iniciativa sobre o uso da IA no ensino contou que criou competições internas, com prêmios para professores que concluíssem com sucesso cursos intensivos de IA.
As organizações também podem oferecer ambientes de testes de IA , consistindo em espaços seguros e privados nos quais os funcionários possam experimentar e aprender a usar essas ferramentas.
Nessas iniciativas de apoio aos profissionais, há um detalhe importante: criar confronto pode dar a impressão de que o sistema de IA está trabalhando contra você.
Mas, como mostram novas pesquisas sobre o uso da IA no trabalho, isso na verdade o ajuda a trabalhar a seu favor.
Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation, por Monideepa Tarafdar, professora de Sistemas de Informação da UMass Amherst, e é republicado sob licença Creative Commons
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