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Violência contra jornalistas

Ano mais letal do século: Violência contra jornalistas no Peru bate recorde, com quatro mortes em 2025

Informe de associação de imprensa reporta 458 ataques contra jornalistas no país no último ano

Violência contra jornalistas no Peru

Quatro jornalistas foram assassinados no Peru em 2025. Foto: Reprodução/ANP



Violência contra jornalistas no Peru, agravada em 2025, incluiu assassinatos, assédio, perseguição judicial e tentativas de censura legislativa. O país registrou quatro mortes de profissionais de imprensa em 2025.


O ano de 2025 foi o mais letal do século para o jornalismo no Peru, colocando fim a uma era em que o país nunca figurava entre os mais perigosos para a prática do jornalismo em uma região em que a taxa de crimes contra profissionais de mídia sempre é historicamente alta.

No total, foram registradas quatro mortes de profissionais da imprensa: Gastón Medina Sotomayor, Raúl Celis López, Fernando Nuñez Guevara e Mitzar Castillejos, das quais duas em dezembro, indicando uma escalada da violência.

Os dados são do informe anual da Associação Nacional de Jornalistas do Peru (ANP).

A ANP alerta que esses crimes ocorreram em um contexto de impunidade estrutural, com investigações que não avançam com a velocidade ou diligência necessárias, aumentando assim o risco para jornalistas no país.

As quatro mortes trazem um cenário preocupante, tanto pelo crime em si, quanto pelo fato de que, segundo a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ), fazia quase uma década que não se registravam assassinatos de profissionais da mídia no Peru.

“2025 deixa uma verdade inegável: no Peru, informar custa vidas. E o que é realmente perigoso é se acostumar com isso”, escreveu Zuliana Lainez, presidente da ANP.

Letalidade na América Latina

O número aproxima o Peru do patamar de violência observado no México, país com a pior taxa de letalidade de jornalistas na América e a segunda pior do mundo, onde nove profissionais foram assassinados em 2025, segundo a Repórteres sem Fronteiras (foram três na contagem da IFJ e seis na do Comitê de Proteção a Jornalistas).

As mortes no Peru também contribuem para a estatística que classifica a América Latina como a região mais letal do mundo para jornalistas fora de zonas de guerra. Os crimes no continente são persistentes e impulsionados pela impunidade, como mostra a IFJ.

“Essa falta de justiça envia uma mensagem perigosa: assassinar um jornalista na América Latina e no Caribe continua sendo um crime de baixo risco.”

Ataques e intimidação

O informe da associação de imprensa também contabiliza 458 ataques contra jornalistas em 2025. Em média, foram 38 ataques mensais, mais do que um por dia.

A maior parte dos casos (127) foram de ameaças e assédio. Foram registrados também 114 casos de agressões físicas, 46 casos de intimidação judicial e quatro sanções ou pressões administrativas.

Por tipo de mídia, o jornalismo digital foi o mais atacado, com 219 casos, seguido pela televisão (108), imprensa escrita (66) e rádio (65). “O ambiente digital, fundamental para o jornalismo investigativo e a fiscalização do poder, tornou-se um dos principais alvos de ataques e retórica estigmatizante”, aponta a IFJ, que divulgou o relatório da ANP.

O documento traz ainda uma análise por gênero, com os homens enfrentando maior volume de ataques e as mulheres sofrendo ataques específicos, que incluem assédio, violência simbólica e descrédito profissional.

Censura e risco à liberdade de imprensa

Além dos ataques individuais, os jornalistas no Peru enfrentam riscos e ameaças coletivos vindos dos três poderes da República.

No relatório, a ANP destaca, por exemplo, a tentativa de aprovação de leis de censura, tentativa de camuflar figuras que criminalizam o trabalho jornalístico – tanto durante o governo de Dina Boluarte quanto de José Jerí –, pedidos de operadores da Justiça de quebra de sigilo profissional, entre outros.

Aumento de violência em momentos-chave

Outro dado alarmante trazido pelo relatório sobre a violência contra jornalistas no Peru é o padrão de intensificação das agressões em períodos chave do debate público.

Setembro e outubro, quando ocorreram manifestações contra o governo da então presidente Dina Boluarte e seu subsequente impeachment, foram os meses mais críticos.

Diante disso, a ANP chama atenção para o fato de que 2026 é um ano eleitoral no país e, por isso, os riscos para jornalistas se elevam. “A atmosfera do que está por vir é tudo menos promissora”, escreve a presidente da organização.

Outro ponto de atenção é o fato de que a maioria dos responsáveis por ataques são funcionários públicos (217 casos). Em seguida, vêm os membros das forças de segurança (121). Coletivamente, agentes estatais foram responsáveis ​​por mais de 70% dos ataques registrados, “um número alarmante que destaca o papel do Estado não apenas como garantidor, mas também como perpetrador de violações à liberdade de imprensa”, aponta a IFJ.

“A Federação Internacional de Jornalistas compartilha da preocupação da ANP e enfatiza que os ataques contra a imprensa no Peru não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão sistemático que visa silenciar vozes críticas, inibir o jornalismo investigativo e restringir o debate público.”

A IFJ também se somou aos apelos de que as autoridades peruanas lutem contra a impunidade e garantam o livre exercício do jornalismo:

“Garantir condições seguras para o exercício do jornalismo é uma obrigação indelegável e um requisito essencial para o funcionamento da democracia e para o direito do público à informação.”


Acesse o relatório da ANP completo, em espanhol, aqui.

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