O Departamento de Guerra dos Estados Unidos, o Pentágono, anunciou que o Star and Stripes, jornal militar historicamente considerado independente passará por uma reforma e eliminar “distrações woke”, uma forma pejorativa de se referir a assuntos ligados a políticas inclusivas.
A justificativa oficial para a medida é a de “modernizar” a publicação. O porta-voz do Departamento de Defesa, Sean Parnell, também disse em uma postagem no X que o Stars and Stripes retornaria à sua “missão original: reportar aos nossos combatentes”.
“Estamos trazendo o Stars & Stripes para o século 21. Modernarizaremos as operações. Focaremos o conteúdo para que ele fique longe de distrações woke que minam a moral, e o adaptaremos para atender às novas gerações de militares. Sem mais colunas de fofoca de Washington, sem mais republicações da Associated Press.”
A medida surpreendeu até a redação e causou protestos de organizações de defesa da liberdade de imprensa, preocupadas com o futuro de um jornal histórico, criado durante a Guerra Civil americana.
Jornalistas pegos de surpresa
O jornal Military.com relatou que a redação do Star and Stripes ficou sabendo das mudanças pelas redes sociais. O editor Erik Slavin afirmou que a notícia pegou a todos de surpresa e que ainda buscavam mais informações do Pentágono.
“As pessoas que juram defender a Constituição conquistaram o direito de desfrutar de seus benefícios, incluindo o acesso a uma imprensa livre e independente. As relações públicas não podem replicar isso.”
Ele também explicou ao Military.com um pouco sobre a linha editorial da publicação:
“Agimos da forma mais objetiva possível. Embora isso signifique incluir as perspectivas do comando, também responsabilizamos os oficiais militares quando necessário”.
Para o Pentágono, isso não agrada. Em seu comunicado, o porta-voz explicou que agora o jornal será customizado para os combatentes militares, focando em “guerra, sistemas de armas, condicionamento físico, letalidade, capacidade de sobrevivência e TUDO RELACIONADO AO MILITARISMO”.
STATEMENT:
The Department of War is returning Stars & Stripes to its original mission: reporting for our warfighters.
We are bringing Stars & Stripes into the 21st century. We will modernize its operations, refocus its content away from woke distractions that syphon morale,…
— Sean Parnell (@SeanParnellASW) January 15, 2026
O que é o Star and Stripes
Segundo a descrição no próprio site do jornal militar do Pentágono, “o Stars and Stripes fornece notícias e informações independentes para a comunidade militar dos EUA”.

O veículo destaca que mantém independência editorial e é regido pelos princípios da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que é a que fala sobre a liberdade de expressão e de imprensa.
A descrição explica ainda que o Pentágono financia metade do orçamento anual do jornal militar e que o valor é usado “principalmente para imprimir e distribuir o jornal para as tropas espalhadas pelo mundo, inclusive em zonas de guerra como Afeganistão, Iraque e Síria”. Publicidade e assinaturas completam o orçamento.
Leia também | Harry, Elton John e outros famosos vão ao tribunal em Londres para julgamento de ação contra Daily Mail
Washington Post relatou viés em processo de contratação
Na véspera do anúncio de reformulação do Star and Stripes, o jornal americano The Washington Post relatou que há viés no processo da publicação militar de contratação de novos funcionários.
Segundo o Post, pessoas que estavam se candidatando para vagas no Star and Stripes estavam sendo perguntadas se elas concordam com políticas do presidente Donald Trump e o que fariam para promovê-las.
Um exemplo de pergunta que constava no processo de seleção é:
“Como você promoveria as Ordens Executivas e as prioridades políticas do Presidente nesta função? Identifique uma ou duas Ordens Executivas ou iniciativas políticas relevantes que sejam significativas para você e explique como você ajudaria a implementá-las, caso fosse contratado(a).”
Organizações repudiam mudanças
A reformulação não foi bem recebida por entidades da área do jornalismo. A PEN America, por exemplo, afirmou que as mudanças são uma “ameaça à liberdade de imprensa”. A organização aponta como problemática a decisão de colocar oficiais do Pentágono no comando do conteúdo editorial.
“O Pentágono está tentando transformar esta redação independente em um porta-voz da mensagem política do governo”, disse Tim Richardson. diretor do programa de jornalismo e desinformação da PEN America.
“Essa ação atropela tanto a Primeira Emenda quanto a determinação do Congresso de que a publicação mantenha sua independência editorial. […] Os Estados Unidos precisam de mais jornalismo independente – não menos.”
Pentágono tem histórico de ações contra imprensa
A notícia sobre as mudanças no Star and Stripes chega poucos meses após o Pentágono alterar as regras de credenciamento para jornalistas que cobrem o Departamento de Guerra.
Jornalistas de grandes veículos de diversos espectros políticos, da Fox News ao New York Times, abandonaram a cobertura após se recusarem a aceitar as novas regras. Uma nova geração de imprensa credenciada foi anunciada, com predominância de influencers e de veículos de extrema direita.
Leia também | Um ano sob Trump: RSF faz linha do tempo da ‘guerra total contra a liberdade de imprensa’
Leia também | FBI faz busca e apreensão de computadores na casa de repórter do Washington Post que investigou demissões no governo
Leia também | Por que Trump processa tanto a imprensa? Para silenciar e não para ganhar, apontam especialistas






