Após um juiz federal dar ganho de causa ao New York Times em um processo contra a política de cobertura de imprensa imposta em 2025 aos jornalistas credenciados para cobrir o Pentágono, o órgão decidiu desafiar a ordem e anunciou a proibição total de correspondentes dentro do prédio, salvo se escoltados, em vez de restituir o acesso aos profissionais do jornal.
O anúncio de que o Corredor dos Correspondentes seria fechado, feito pelo porta-voz do órgão, Sean Parnell, na segunda-feira (23), causou revolta e foi interpretado como uma desobediência a uma decisão judicial por organizações de liberdade de imprensa e pelo próprio New York Times.
“A nova política não está de acordo com a ordem do juiz”, disse Charlie Stadtlander, porta-voz do Times, em um comunicado. “Continuam a ser impostas restrições inconstitucionais à imprensa. Nós vamos voltar ao tribunal.”
A Associação de Imprensa do Pentágono disse em nota que as novas regras são “uma clara violação da letra e do espírito” da decisão judicial, e que estava analisando os aspectos jurídicos para decidir como agir.
O presidente do National Press Club, Mark Schoeff Jr. emitiu uma declaração apontando o impacto sobre as informações transmitidas ao público.
“Fechar o Corredor dos Correspondentes e forçar o acesso escoltado prejudica a reportagem independentes no Pentágono, em um momento em que o público precisa de informações claras e não filtradas sobre as atividades militares dos EUA”.
A decisão judicial contra o Pentágono
Comandado por Pete Hegseth, ex-militar e ex-apresentador da Fox News, o Pentágono criou ano passado um conjunto de regras que os jornalistas credenciados para cobertura regular do órgão ficaram obrigados a assinar, sob pena de perderem seus crachás e o acesso livre.
Elas incluíam limites para circulação dentro do prédio e compromisso de não divulgar informações obtidas em conversas não oficiais, como briefings ou entrevistas agendadas, reduzindo o espaço para jornalismo investigativo e revelações de notícias de interesse público fora da narrativa oficial.
Por se recusarem a assinar a nova politica, jornalistas credenciados renunciaram aos seus crachás em outubro de 2025 e deixaram seus postos no prédio. Eles foram redistribuídos a veículos e influenciadores simpáticos ao governo Trump.
Na sexta-feira (20), o juiz federal Paul Friedman concluiu que a política era excessivamente ampla e violava garantias constitucionais básicas, em um processo movido pelo New York Times, mandando devolver os crachás de oito profissionais do jornal.
Segundo seu entendimento, as regras infringiam a Primeira Emenda, por restringirem a liberdade de imprensa, e Quinta Emenda, por permitirem punições sem o devido processo legal.
O resultado foi celebrado por organizações de defesa da liberdade de imprensa, embora o Pentágono tivesse anunciado imediatamente que iria recorrer.
Na segunda-feira, porém, a reação foi além do recurso judicial, expulsando todos os jornalistas do prédio principal para não ter que restituir o acesso a alguns deles.
Como o Pentágono reagiu à ordem judicial
Segundo Sean Parnell, porta-voz do Pentágono, o fechamento do corredor dos correspondentes será seguido pela criação de um “novo e melhorado espaço” para os jornalistas.
Eles trabalharão em um prédio anexo, fora das dependências de onde estiveram por mais de 80 anos. Alguns veículos tinham até salas próprias para acomodar suas equipes e equipamentos de transmissão.
Parnell também informou que todo o acesso de jornalistas ao Pentágono exigirá escolta por pessoal autorizado do Departamento a partir de agora.
“Os titulares de credenciais continuarão a ter acesso ao Pentágono para coletivas de imprensa agendadas, coletivas de imprensa e entrevistas organizadas por meio de escritórios de relações públicas”, afirmou.
Jornalistas lamentam e relembram coberturas
Após o fim do corredor ser anunciado, jornalistas lamentaram a decisão lembrando momentos históricos da presença de equipes de imprensa dentro das instalações, uma prática iniciada em 1943, quando o prédio foi inaugurado.
“Na manhã de 11 de setembro, por volta das 9h30, um policial sozinho chegou gritando pelo corredor dos correspondentes. ‘Saiam, saiam todos, fomos atingidos'”, disse Barbara Starr, ex-CNN.
Howard Mortman, do canal C-SPAN, divulgou um vídeo do ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld elogiando os jornalistas ao assumir o cargo, em 2001.
“A imprensa do Pentágono certamente tem uma história de profissionalismo excepcional”, diz o ex-secretário.
“I am looking forward to working with all of you. The Pentagon press corps certainly has a proud history of outstanding professionalism. And under whose tenure was the Correspondents Corridor opened? Mel Laird.”
– Don Rumsfeld first press briefing as Defense Secretary 1-26-2001 pic.twitter.com/kVh33GEFEH
— Howard Mortman (@HowardMortman) March 24, 2026
Outros ironizaram a reação do Pentágono.
“O ‘Departamento da Defesa mais transparente da história’ tenta contornar a decisão de um juíz federal”, disse Andrew deGrandpré, editor do The Washington Post, referindo-se à nota de Sean Parnell.
Ao anunciar as novas regras, o porta-voz escreveu que o Departamento continuava comprometido com a transparência e com o trabalho com jornalistas credenciados.
Idrees Ali, correspondente da Reuters, compartilhou o comunicado de Sean Parnell encontrando uma forma “criativa” de se comunicar com as fontes. Ele divulgou o seu Signal, aplicativo para troca de mensagens sigilosas, e pediu que fontes não o esquecessem:
“Se você trabalha no Exército dos EUA, pode me chamar no Signal”, provocou.
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