© Conteúdo protegido por direitos autorais

Redes sociais

Por que adolescentes são tão vulneráveis aos danos causados pelas redes sociais? A neurociência explica

por Salima Kerai, pesquisadora do Centro de Saúde Infantil Global do Hospital for Sick Children e professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Toronto

Menina adolescente com smartphone fazendo sinal positivo

Meninas adolescentes são desproporcionalmente afetadas por ansiedade e depressão relacionadas às redes sociais (Foto: Laura Chouette / Unsplash)




Em uma decisão histórica, um júri de Los Angeles concluiu em março que a empresa de redes sociais Meta e o serviço de streaming de vídeo YouTube prejudicaram uma jovem usuária com recursos de design viciantes que levaram a sofrimento mental, incluindo dismorfia corporal, depressão e pensamentos suicidas.

Comentaristas se referiram ao caso como o “momento tabaco” das redes sociais, e novas ações judiciais estão em andamento. O veredicto intensificou os apelos por mais regulação das plataformas de redes sociais em diferentes jurisdições.

Países como Austrália, França e Espanha já introduziram ou planejam introduzir restrições de idade para o uso de redes sociais.

Enquanto pais fazem campanha e formuladores de políticas discutem como enfrentar os danos online, uma questão crucial muitas vezes é deixada de lado: por que adolescentes são tão particularmente vulneráveis a essas plataformas?

Estímulos de dopamina em um cérebro ainda em formação

Imagine Sara, que, aos 14 anos, foi encontrada inconsciente no chão do quarto depois de tentar tirar a própria vida. Por todos os critérios, ela ia bem: tinha bom desempenho na escola, apoio da família e vivia em uma comunidade ativa.

Mas, atrás da porta do quarto, lutava com algo que ninguém conseguia ver. Ela passava horas rolando a tela, publicando conteúdo e buscando curtidas até o momento em que a validação deixava de chegar.

Aos poucos, instalou-se uma sensação silenciosa de não ser boa o suficiente. Apesar dos 150 seguidores online, ela não tinha ninguém com quem sentisse que podia realmente conversar. Passou a acreditar que estava completamente sozinha.

Sara é uma personagem composta a partir da experiência clínica e de pesquisa, mas sua história é comum. Como muitos adolescentes, Sara recorreu às redes sociais para se conectar, expressar-se e encontrar um senso de pertencimento.

No começo, parecia bom. Cada rápido estímulo de dopamina a trazia de volta, até que o hábito se tornou difícil de controlar.

A neurociência mostra que o uso intenso das redes sociais pode superestimular as vias de recompensa ainda em desenvolvimento no cérebro adolescente de maneiras semelhantes a comportamentos viciantes, como o jogo.

Esse sistema imaturo também torna adolescentes mais sensíveis ao retorno social e menos capazes de lidar com a rejeição. Isso os deixa vulneráveis aos altos e baixos da interação online, incluindo comentários negativos rápidos e repetidos, que podem intensificar o sofrimento emocional.

Pense no cérebro adolescente como uma estrada em construção. A via expressa emocional — o sistema límbico — está aberta para alta velocidade. O córtex pré-frontal — o centro de controle de tráfego do cérebro, responsável pelo julgamento e pelo controle de impulsos — ainda está sendo construído.

Esse desequilíbrio significa que o tráfego emocional acelerado frequentemente ultrapassa os sinais do centro de controle, criando congestionamentos no julgamento e no pensamento racional e tornando mais difícil para adolescentes pausar, refletir e avaliar consequências.

A comparação social alimenta a ansiedade

A comparação social aprofunda ainda mais essa pressão. Ao rolar a tela por imagens de vidas aparentemente perfeitas, Sara se sentia cada vez mais inadequada. Inveja, insegurança e medo de ficar de fora corroíam sua confiança.

Ao mesmo tempo, as redes sociais incentivavam um automonitoramento constante, à medida que ela acompanhava suas curtidas, comentários e aparência online.

Pesquisas associam esse tipo de foco voltado para si mesmo a níveis mais altos de ansiedade, especialmente em adolescentes que já estão sob pressão.

A puberdade acrescenta outra camada. Nessa fase, o cérebro se torna mais sensível a sinais sociais e emocionais.

Para meninas, essas mudanças costumam ocorrer mais cedo e de forma mais intensa, ajudando a explicar por que meninas adolescentes são desproporcionalmente afetadas por ansiedade e depressão relacionadas às redes sociais.

Conectados online, desconectados da vida real

A maior parte do tempo gasto nas redes sociais não é ativa nem social — é passiva. Dados apresentados em um processo entre a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos e a Meta mostram que apenas uma pequena fração do tempo nas plataformas da Meta envolve interação com amigos — cerca de 7% no Instagram e 17% no Facebook.

O restante é principalmente rolagem de tela e consumo de vídeos, e não interação. Isso resulta em uma ilusão de conexão, ao mesmo tempo em que aprofunda a sensação de isolamento.

Grandes estudos em países de alta renda associam de forma consistente o uso intenso de redes sociais também a piores resultados de saúde física, incluindo menos horas de sono e taxas mais altas de obesidade.

A solidão é um risco sério. A necessidade humana de se sentir visto e compreendido é fundamental. Quando ela não é atendida, o corpo registra isso como estresse. A solidão crônica já foi comparada a fumar 10 cigarros por dia em termos de impacto sobre a saúde.

Muitos adolescentes descrevem claramente esse paradoxo: estão constantemente conectados online, mas cada vez mais desconectados na vida real.

Eles relatam pressão para apresentar versões idealizadas de si mesmos e para acompanhar os pares. A comunicação online, dizem, é fácil de interpretar mal, o que pode desgastar relações e aprofundar o isolamento.

Eles se sentem presos em um movimento contraditório — atraídos pela conexão, mas muitas vezes se sentindo pior depois.

O que fazer agora?

Nós não entregaríamos as chaves de um carro a um adolescente de 14 anos sem treinamento, regras e medidas de segurança. No entanto, permitimos que esse mesmo adolescente tenha acesso irrestrito a plataformas projetadas para capturar atenção e maximizar engajamento.

Os impactos sobre sua saúde física e mental são claros. Uma pesquisa com mais de 9 mil adolescentes em oito países encontrou uma forte associação entre uso problemático de redes sociais e taxas mais altas de depressão e ansiedade.

No Canadá, por exemplo, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 24 anos. As doenças mentais já custam ao país US$ 51 bilhões por ano — cerca de R$ 280 bilhões —, e 70% das pessoas afetadas apresentam sintomas durante a adolescência.

Regular as redes sociais é essencial. E isso exige uma abordagem em camadas, muito semelhante à segurança no trânsito.

As plataformas precisam ser desenhadas de forma mais responsável. Limites de idade devem ser claramente definidos e aplicados de modo efetivo. E a educação digital deve ajudar os jovens a compreender e administrar suas experiências online.

A pergunta já não é se é preciso agir, mas se a ação virá a tempo de proteger a próxima geração.


Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.


error: Este conteúdo é protegido por direitos autorais.