No Dia das Mães, as pessoas se dedicam à compra de presentes e a refeições fora de casa para homenagear as mulheres em suas vidas. Segundo algumas estimativas, os gastos dos consumidores nos Estados Unidos nesta data giram em torno de US$ 34 bilhões.
Essa ênfase consumista é criticada há muito tempo — inclusive pela fundadora da data, Anna Jarvis.

Ela iniciou a celebração em 1908 para homenagear sua própria mãe, Ann Jarvis, ativista da época da Guerra Civil americana que fundou os Mothers’ Day Work Clubs em seu estado natal, a Virgínia Ocidental.
Esses clubes eram associações de mães locais que se reuniam em dias de trabalho coletivo, nos quais ofereciam educação e assistência às famílias.
Quando a Guerra Civil começou, os clubes passaram a promover a paz e a reconciliação e ofereceram alimentos e assistência médica tanto a soldados da União quanto da Confederação. Essas mães viam a paz como a única forma de preservar suas comunidades e garantir a saúde e o bem-estar de todos.
Mães além da esfera doméstica
Como estudiosa da Antiguidade grega e romana, entendo que homenagear a maternidade vai muito além do trabalho das mulheres na esfera doméstica.
Na verdade, por milênios, o papel das mães incluiu não apenas gerar e educar filhos, mas também proteger a comunidade como um todo, especialmente por meio da defesa da paz.
Textos que remontam ao século 5 a.C. mostram mães promovendo a paz. Na comédia “Lisístrata”, de Aristófanes, as mulheres de Atenas se unem para pôr fim à Guerra do Peloponeso.

A líder do movimento pela paz argumenta que as mulheres sofrem duas vezes mais que os homens na guerra — ao gerar filhos apenas para enviá-los à morte como soldados.
Mães e deusas antigas
No mundo antigo, a própria maternidade garantia poder à mulher dentro de sua família e de sua comunidade, especialmente se o bebê fosse do sexo masculino.
O nascimento oferecia um herdeiro à família e assegurava que a mulher não seria rejeitada pelo marido por não ter filhos.
Na verdade, como explica a classicista Florencia Foxley, a maternidade elevava a mulher à condição de protetora e sustentadora da cidade porque ela fornecia uma nova geração de cidadãos e soldados para a comunidade.
O nascimento de filhos também dava à mulher poder e influência informais sobre as decisões políticas tomadas por seu marido e seus filhos, como dramatizado na peça “Lisístrata”.
A deusa grega Hera
O culto à deusa grega Hera, esposa de Zeus e rainha dos deuses, reflete essa dupla função das mães como protetoras das crianças e das comunidades no mundo antigo.
Hera era cultuada em rituais de casamento e presidia o parto na figura de sua filha Ilítia, a deusa parteira. Para além da esfera doméstica, Hera também era a protetora divina da antiga cidade de Argos.
Em Roma, sob seu nome latino Juno, ela era cultuada com os epítetos de Pronuba, como deusa do casamento, e Lucina, como deusa do parto.

Ainda assim, Juno também era parte integrante da Tríade Capitolina, com Júpiter e Minerva, o trio de divindades que protegia a cidade.
Na verdade, atribuía-se a Juno o salvamento de Roma de um ataque dos gauleses em 390 a.C., quando seus gansos sagrados alertaram os romanos sobre a aproximação do exército inimigo.
Práticas contemporâneas
O enorme poder das mulheres como defensoras da paz e protetoras das comunidades continua hoje.
Como mostrou a jornalista Margot Adler, alguns neopagãos acreditam que sociedades antigas que cultuavam divindades maternas eram mais pacíficas do que culturas com tradições religiosas patriarcais.

Hoje, esses adoradores buscam reviver os cultos às divindades maternas para retornar a esse modo de vida harmonioso. Eles invocam deusas-mães para promover o poder político das mulheres, a desmilitarização e a harmonia com o mundo natural, bem como a paz mundial.
Lisístrata, inspiração da defesa da paz
Da mesma forma, “Lisístrata” continua a inspirar a defesa da paz por mulheres no mundo todo. Em 2003, por exemplo, as ativistas pela paz Kathryn Blume e Sharron Bower defenderam oposição à Guerra do Iraque ao coordenar mais de mil leituras de “Lisístrata” em todo o mundo em um único dia.
É verdade que a peça apresenta personagens femininas de maneiras ridículas e, como apontou a classicista Mary Beard, o fim da peça deixa claro que o poder político das mulheres é apenas uma fantasia.
Ainda assim, a peça reconhece que as mulheres sofriam de forma desproporcional as consequências da guerra na Antiguidade, assim como sofrem hoje.
A peça também reconhece, ainda que de forma humorística, que as mulheres exercem enorme poder em favor da paz, algo que também se confirma hoje.
Na verdade, segundo um estudo do King’s College London, “Estados onde as mulheres têm mais poder político são menos propensos a entrar em guerra e menos propensos a cometer abusos de direitos humanos”.
Maria, paz e justiça
Em outro contexto, católicos no mundo todo honram Maria como uma figura materna associada à paz e à justiça. Uma de suas manifestações, Nossa Senhora de Guadalupe, é uma figura popular de veneração no México e na América Latina, especialmente entre pessoas de ascendência indígena.

Nossa Senhora de Guadalupe é representada grávida e venerada por fiéis que buscam proteção e paz. O papa João Paulo II, em uma oração pública a Nossa Senhora de Guadalupe em 1979, pediu a ela que “conceda paz, justiça e prosperidade aos nossos povos”.
A origem do Dia das Mães vai além do consumo
A forma como o Dia das Mães é celebrado hoje omite de maneira evidente o enorme poder que as mulheres exercem para além da esfera doméstica.
Embora o trabalho das mulheres na criação dos filhos e no apoio às famílias seja importante e deva sempre ser homenageado, Anna Jarvis imaginou este dia como algo mais amplo — uma data que homenageia as mulheres como atores políticos e morais, especialmente como agentes da paz globalmente.
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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