A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) está instando a comunidade internacional a incluir o caso da jornalista Sophia Huang Xueqin, a voz mais importante do movimento #MeToo na China, em suas negociações diplomáticas com Pequim.
Condenada em 2021, ela deve terminar de cumprir sua pena em 18 de setembro de 2026, mas ainda poderá enfrentar quatro anos de privação de direitos políticos, incluindo restrições de circulação, impedimento de viajar ao exterior e vigilância das autoridades, diz a RSF, a exemplo de com outros jornalistas após o cumprimento das penas.
A RSF afirma que a jornalista, com 37 anos, passou quase cinco anos em condições de detenção abusivas, com graves impactos à saúde, por seu trabalho jornalístico sobre violência de gênero e violações de direitos humanos.
De acordo com a RSF, a China é hoje o maior carcereiro de profissionais de imprensa do mundo, com 121 jornalistas presos.
A jornalista que ajudou a impulsionar o MeToo na China
Sophia Huang Xueqin começou a carreira na agência estatal China News Service. Depois, passou ao jornalismo independente, buscando afastar seu trabalho da censura estatal, segundo a RSF.
Em 2015, tornou-se repórter investigativa da Southern Metropolis Weekly, publicação regional da província de Guangzhou conhecida por expor escândalos políticos e sociais.
Em 2018, Sophia publicou o relatório “A survey on workplace sexual harassment of female journalists in China”, divulgado pelo Guangzhou Gender and Sexuality Education Center (GSEC).
Segundo o comunicado, o levantamento reuniu dados e testemunhos sobre violência de gênero na indústria da mídia, deu espaço para vítimas se manifestarem e ajudou a impulsionar o #MeToo na China.
A RSF afirma ainda que reportagens posteriores de Sophia sobre o assédio sexual sofrido por uma estudante universitária levaram o Ministério da Educação chinês a implementar reformas nacionais.
RSF pede mobilização diplomática
No comunicado, Aleksandra Bielakowska, gerente de advocacy da RSF para a Ásia-Pacífico, afirma que Sophia “incorpora o espírito do jornalismo” ao transformar injustiças testemunhadas em histórias capazes de promover mudanças.
Segundo Bielakowska, o caso da jornalista se insere em um padrão mais amplo de repressão. Ela afirma que o Partido Comunista Chinês busca sistematicamente silenciar jornalistas “trabalhadores e confiáveis” por exporem aspectos sombrios da sociedade chinesa.
A RSF pediu que a comunidade diplomática permaneça vigilante no monitoramento da situação de Sophia Huang Xueqin e mantenha sua segurança como tema de suas relações com Pequim.
A organização afirma que ela deve recuperar sua liberdade plena ao concluir o que classifica como uma sentença injusta.
Segundo a RSF, o líder chinês Xi Jinping conduz uma campanha contra o jornalismo dentro e fora do país desde que chegou ao poder, em 2012.
A China ocupa a 178ª posição entre 180 países e territórios no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026.
O que amigos dizem sobre Sophia Huang Xueqin
Para explicar a importância da trajetória da jornalista, a RSF ouviu uma pessoa próxima a Sophia, que pediu anonimato por razões de segurança.
“Para Sophia, o jornalismo nunca foi meramente uma profissão — era inseparável de seu senso de dever com as pessoas cujas histórias ela contava”, disse a amiga à organização.
Segundo essa pessoa próxima, Sophia entendia que seu jornalismo tinha papel importante no apoio a sobreviventes de assédio sexual.
“Ela passava longas horas conversando com vítimas e as levava para espaços comunitários — grupos de leitura, eventos — para que pudessem encontrar apoio e solidariedade.”.
A amiga também disse que Sophia resistia às pressões das autoridades. De acordo com seu relato à RSF, durante interrogatórios em 2019, quando agentes diziam que ela estava errada, Sophia questionava:
“Onde estou errada? Há alguma lei que estipule isso?”
Segundo a amiga, ela debatia justiça, liberdade e filosofia política com agentes de segurança do Estado.
Prisões, condenação e denúncias de maus-tratos
Segundo a RSF, Sophia foi presa pela primeira vez em outubro de 2019, em Guangzhou, pela polícia local, sob a acusação de “provocar brigas e problemas”.
A prisão ocorreu em razão de sua cobertura dos protestos em Hong Kong, na qual condenava a repressão violenta das autoridades. Ela ficou detida por três meses e depois obteve liberdade sob fiança, sem que acusações fossem formalizadas.
Em setembro de 2021, foi presa novamente pela polícia de Guangzhou, acusada de “incitar a subversão do poder do Estado”, ao lado do ativista trabalhista Wang Jiabing, que desde então foi libertado.

Segundo o comunicado, a acusação está relacionada a encontros regulares dos quais ela participava para discutir desafios enfrentados pela sociedade civil, além de seu trabalho jornalístico.
A jornalista permanece presa desde então. De acordo com amigos citados pela RSF, as autoridades a submeteram a métodos duros de interrogatório, incluindo o uso da chamada “cadeira do tigre”, descrita pela organização como um instrumento de tortura.
A RSF afirma que Sophia ficou em confinamento solitário por cinco meses sem acesso a advogados e enfrentou interrogatórios repetidos, muitas vezes no meio da noite.
Ainda segundo o comunicado, ela sofreu perda extrema de peso, teria parado de menstruar e apresenta deficiência severa de cálcio, hipoglicemia e pressão baixa.
Em 14 de junho de 2024, Sophia foi condenada a cinco anos de prisão por “incitar a subversão do poder do Estado”.
Libertação prevista, mas com restrições
A pena de Sophia deve ser concluída em 18 de setembro de 2026, com a dedução dos dias em que ela esteve detida antes da decisão judicial. No entanto, segundo a RSF, a jornalista continuará privada de direitos políticos por mais quatro anos.
Para a amiga ouvida pela organização, sair da prisão não significa recuperar a liberdade. “Para pessoas como Sophia, deixar a prisão não significa recuperar a liberdade”, afirmou. “Muitas vezes significa passar de uma prisão pequena para uma maior.”
Apesar dos riscos e da possibilidade de repressão contínua, a amiga disse acreditar que Sophia continuará buscando formas de reportar notícias e manter o público informado.
“Conhecendo Sophia — sua resiliência, seu calor humano, seu inabalável senso de propósito — acredito que ela encontrará uma maneira de continuar, de qualquer forma que seja possível. Ela já mostrou, repetidas vezes, que não pode ser silenciada.”
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