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Relatório Reuters 2026

Mídias sociais assumem liderança no acesso a notícias no mundo, mas público confia mais no jornalismo profissional, revela estudo de Oxford

No Brasil, confiança nas notícias caiu ao menor nível em 12 anos, segundo o Digital News Report 2026 do Instituto Reuters, enquanto veículos tradicionais seguem com índices de credibilidade acima da 50%

YouTube, uma das principais fontes de consumo de notícias no mundo

Foto: Souvik Banerjee / Unsplash




Pela primeira vez na história do mais abrangente estudo global de tendências de consumo de notícias, o Digital News Report, as redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassaram em 2026 os sites, aplicativos de empresas jornalísticas e a TV como fonte de informação – mas a liderança na distribuição não se reflete em credibilidade.

De acordo com o relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, baseado em pesquisas realizadas em 48 mercados e divulgado nesta terça-feira (16) em Oxford, 54% dos entrevistados agora usam regularmente plataformas digitais para se informar. Mas apenas 22% dizem confiar nas notícias encontradas nesses ambientes.

A desconfiança também aparece no uso de inteligência artificial: embora 10% do público global já recorra a chatbots para acessar notícias, apenas 20% declaram confiança nas respostas geradas por eles.

Tendências de consumo de notícias mostram queda de confiança

O estudo aponta que a confiança nas notícias caiu de forma geral, considerando tanto o conteúdo consumido em veículos jornalísticos quanto em plataformas digitais.

O índice global chegou a 37%, o menor nível desde que o relatório começou a medir o indicador, em 2015. A queda foi registrada em 29 dos 48 mercados pesquisados, com recuos mais acentuados nas Filipinas, Irlanda, Tailândia, Peru e Polônia.

No maior mercado de mídia do mundo, os Estados Unidos, a confiança caiu para 25%, um dos níveis mais baixos entre os países pesquisados. Entre americanos alinhados à direita política, o índice chega a apenas 15%.

No Brasil, a confiança recuou seis pontos percentuais em apenas um ano e chegou a 36%, o menor patamar registrado no país em 12 anos.

Segundo o relatório, o desgaste está associado à persistente polarização partidária, intensificada pela eleição presidencial de 2026 e pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano anterior.

O país também registra elevados níveis de evasão de notícias: 47% dos brasileiros afirmam evitar o noticiário às vezes ou frequentemente.

Apesar desse cenário, os veículos jornalísticos tradicionais mantêm níveis de credibilidade significativamente superiores à média geral.

CNN Brasil, Record News, SBT News, BandNews, Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e UOL registram índices de confiança entre 53% e 62%, sugerindo que a perda de credibilidade está mais relacionada ao ecossistema de informações como um todo do que ao jornalismo profissional.

As mídias sociais mantêm uma vantagem de 9 pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias no Brasil, onde 33% da população obtém conteúdo de criadores ou influenciadores que se concentram principalmente nas notícias. Instagram (49%) e WhatApp (46%) figuram como as redes mais citadas como fonte de informação.

Desinformação segue como preocupação de quem consome notícias

A preocupação com a desinformação continua elevada no mundo.

Em média, 62% dos entrevistados afirmam estar preocupados com a capacidade de distinguir o que é verdadeiro e falso na internet, em um ambiente cada vez mais influenciado por plataformas digitais, criadores de conteúdo e ferramentas de inteligência artificial.

O Brasil foi o único mercado em que a preocupação com desinformação caiu em relação ao ano anterior, com recuo de três pontos percentuais.

Ainda assim, o índice permanece elevado e acompanha a tensão entre alto uso de plataformas e baixa confiança nesses ambientes.

Criadores entram nas tendências de consumo de notícias

Os dados que fundamentam o relatório de tendências no consumo de notícias foram coletados pelo Instituto YouGov entre meados de janeiro e o fim de fevereiro de 2026, com quase 100 mil entrevistados em países das Américas, Europa, Ásia e África.

As novas gerações estão relatando hábitos de consumo muito diferentes dos de seus pais. Mais da metade (56%) dos jovens entre 18 e 24 anos afirma nunca ter lido jornais impressos regularmente.

Mas a mudança nos hábitos de consumo não se restringe aos jovens e já alcança praticamente todas as faixas etárias.

O relatório mostra que a preferência por televisão e por sites de notícias recuou desde 2021 em quase todos os grupos analisados, com exceção dos maiores de 55 anos.

O avanço das plataformas também impulsiona a presença de criadores de conteúdo e influenciadores como fontes de informação.

Globalmente, 27% dos entrevistados afirmam obter ao menos parte das notícias por meio de criadores especializados em informação, enquanto 46% acompanham algum tipo de criador de conteúdo.

Criadores no Brasil

No Brasil, 33% dos entrevistados afirmam consumir conteúdo de criadores ou influenciadores focados principalmente em notícias.

O relatório identifica Nikolas Ferreira como o criador mais mencionado, em um campo marcado pela presença de comentaristas políticos e influenciadores com forte atuação nas redes.

Felipe Neto aparece como uma das principais referências entre públicos mais jovens no campo progressista, enquanto o canal Galãs Feios é citado como exemplo de conteúdo que combina sátira e crítica política.

Os pesquisadores destacaram ainda o crescimento dos influenciadores financeiros – são 904, em mapeamento feito pela Associação Brasileira de Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima).

Apesar do crescimento desse segmento, os pesquisadores observam que criadores complementam mais do que substituem o jornalismo tradicional.

Apenas 3% dos entrevistados afirmam que todas as suas necessidades de informação são atendidas exclusivamente por criadores focados em notícias.

IA amplia novas formas de consumo de notícias

O uso de chatbots para notícias avançou de 7% para 10% globalmente em apenas um ano. Entre pessoas com menos de 35 anos, a taxa chega a 16%.

O Brasil aparece acima da média global, com 13% dos entrevistados afirmando utilizar ferramentas de inteligência artificial para acessar notícias.

Segundo o relatório, os usuários recorrem aos chatbots principalmente para resumir conteúdos complexos, obter explicações adicionais e fazer perguntas complementares sobre temas em destaque.

Ainda assim, a tecnologia é utilizada mais como complemento do que como substituição das fontes jornalísticas.

Entre os usuários de IA para notícias, 42% afirmam clicar frequentemente nos links das fontes originais citadas pelos chatbots. Entre os que fazem isso, 44% dizem que o principal motivo é verificar se a informação apresentada está correta.

O dado sugere que, mesmo quando recorrem à inteligência artificial para resumir ou explicar notícias, muitos usuários continuam buscando validação em fontes jornalísticas tradicionais.

Para a indústria de mídia, o resultado indica que os chatbots ainda funcionam, em parte, como intermediários para conteúdos produzidos por redações profissionais, e não apenas como substitutos delas.

Vídeo se consolida como formato dominante

Outra tendência destacada pelo relatório em 2026 é a expansão do consumo de notícias em vídeo.

Pela primeira vez, a maioria da população em todos os 48 mercados analisados afirma assistir regularmente a vídeos jornalísticos online. No total, 77% dos entrevistados consomem notícias em vídeo semanalmente.

O crescimento, porém, ocorre principalmente em plataformas como YouTube, Instagram, TikTok e Facebook, e não nos próprios sites e aplicativos das organizações jornalísticas.

Para os autores do estudo, o dado reforça uma transformação estrutural em curso: as empresas jornalísticas continuam sendo importantes produtoras de informação, mas perderam o controle sobre os principais canais de distribuição.

Público ainda valoriza imparcialidade

Embora as formas de acesso à informação estejam mudando rapidamente, as expectativas do público em relação ao jornalismo permanecem relativamente estáveis.

Globalmente, 45% dos entrevistados afirmam preferir notícias produzidas por veículos que não tomem partido, enquanto apenas 20% dizem preferir conteúdos alinhados às próprias opiniões.

Outros 46% acreditam que consumir notícias imparciais é melhor para a sociedade.

O resultado contraria a percepção de que a audiência busca prioritariamente conteúdos alinhados às próprias crenças políticas ou ideológicas.

Para os autores do estudo, a demanda por imparcialidade continua sendo uma característica central da relação do público com o jornalismo.

O relatório também identifica insatisfação crescente com a cobertura de grandes temas internacionais.

Em diversos mercados, os entrevistados avaliam que a imprensa não tem feito um bom trabalho ao abordar questões como inflação, imigração, mudanças climáticas e conflitos internacionais.

Pagamento por notícias segue estagnado

O relatório também mostra que o avanço das plataformas torna mais difícil para empresas jornalísticas converter audiência em receita direta.

Entre os 20 países acompanhados nesse indicador, 17% dos entrevistados pagam por notícias online, percentual estável em relação ao ano anterior.

Segundo o Instituto Reuters, a redução do acesso direto a sites e aplicativos de notícias pode enfraquecer o funil de assinaturas, já que parte crescente do público chega à informação por redes sociais, vídeo, agregadores e ferramentas de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o estudo identifica motivações que ainda sustentam o pagamento por notícias. Entre os assinantes, 81% dizem pagar pelo benefício direto de acessar conteúdos que desejam consumir, enquanto 46% também mencionam razões ligadas a valores, como apoiar o jornalismo por sua importância para a sociedade.

Estados Unidos ilustram crise global de confiança

Os Estados Unidos aparecem como um dos casos mais emblemáticos da erosão da confiança nas notícias.

Além da queda dos índices de credibilidade, o relatório destaca o impacto da eliminação de aproximadamente US$ 1,1 bilhão em recursos federais destinados à comunicação pública pelo governo de Donald Trump.

A medida levou ao fechamento da Corporation for Public Broadcasting (CPB) no início de 2026 e provocou cortes de programação, demissões e instabilidade financeira em emissoras públicas como PBS e NPR.

No setor privado, o Washington Post anunciou a eliminação de cerca de um terço de sua redação, incluindo equipes internacionais e áreas de cobertura especializada.

Para o Instituto Reuters, o cenário sugere que a principal disputa do jornalismo contemporâneo já não é apenas pela produção de notícias, mas pela capacidade de manter relevância e credibilidade em um ambiente cada vez mais mediado por plataformas, algoritmos, criadores de conteúdo e ferramentas de inteligência artificial.

O relatório completo pode ser visto aqui.


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