Documentos secretos protocolados na Justiça dos EUA durante o processo movido por uma jovem americana que resultou em condenação da Meta e do Google no início deste ano mostram que o TikTok sabia sobre a relação perigosa dos seus usuários, principalmente de crianças, com a plataforma, chegou a implantou medidas para minimizá-las mas elas não foram eficazes.
Os documentos não vieram a público na época, pois o TikTok e o Snapchat também eram réus na ação, mas fizeram acordo antes do julgamento.
Agora, os estudos produzidos pela própria plataforma, incluindo pesquisas com jovens que confirmam o vício e a má sensação causada por ele, foram obtidos de uma fonte anônima pelo jornal britânico The Times.
As revelações acontecem em um contexto crescente de regulamentação das redes pelo mundo. Entre as mudanças estão a proibição do acesso de menores em alguns países e decisões judiciais que incluem não apenas indenizações milionárias mas também a exigência de mudanças do design para mitigar os danos psicológicos.
O que dizem os documentos
Um dos documentos secretos do TikTok é de 2022-2023 e mede quantos usuários consomem a rede durante seis ou mais horas por dia. Essa frequência de consumo é considerada “prejudicial” para o usuário, de acordo com a própria rede social.
De acordo com o estudo feito por equipes internas do TikTok, cerca de 10 milhões de pessoas, o equivalente a 1,3% de todos os usuários, passam esse tempo no app.
Outro estudo deste mesmo período mostra que 3% de todas as crianças que usam a plataforma passam seis ou mais horas por dia online.
As análises também mostram a baixa adesão do público a ferramentas de ajuda para os usuários “viciados”, implantados em 2022. De acordo com os estudos internos do TikTok, apenas 0,62% dos usuários menores de idade ativaram o recurso de lembrete de pausas durante sessões muito longas.
Além disso, somente 4% dos usuários aderiram à plataforma de emparelhamento familiar, que permite o controle do uso do app por parte dos pais, apuraram as equipes internas de pesquisa de hábitos.
Estudos focais sinalizavam plataforma viciante
Os documentos secretos do TikTok divulgados pelo The Times também mostram que a companhia conduziu estudos de caso sobre a relação de adolescentes com o app. Em um deles, uma adolescente de 16 anos afirmou que “era como ser viciada” usando a rede, uma “sensação muito ruim”, e que se sentiu compelida a “dar um tempo”.
Já outra, de 14, disse que muitos adolescentes “perdem o dia inteiro” e que o TikTok gera isolamento entre os jovens.
Nos documentos divulgados pelo The Times, o TikTok reconhece que:
- O TikTok é popular entre usuários mais jovens, especialmente sensíveis ao reforço na forma de recompensa social e com capacidade mínima de autorregulagem.
- 19% dos adolescentes entre 13 e 15 anos e 25% dos adolescentes entre 16 e 17 anos estão ativos no TikTok de madrugada, enquanto deveriam estar dormindo.
- A plataforma usa táticas de design coercitivas e que prejudicam a autonomia do usuário. Entre elas estão o feed infinito e as notificações constantes.
- TikTok tinha conhecimento de dois estudos externos sobre os riscos do vício na internet, um deles ligando o maior tempo de uso de tela ao aumento do risco de depressão, e outro mostrando o “afinamento no córtex cerebral” para crianças com sete ou mais horas de tela por dia.
TikTok diz que estudos foram mal interpretados
Ao jornal The Times, o TikTok reforçou que o número de 10 milhões de pessoas com uso “problemático” na rede mostra que mais de 98% dos usuários têm uma relação saudável com a plataforma. Em posicionamento, a big tech também disse que os estudos divulgados mostram a preocupação deles com os usuários.
“Esses documentos mostram exatamente o que empresas responsáveis fazem: examinam questões difíceis, identificam riscos potenciais e criam salvaguardas robustas.”
O TikTok também criticou o jornal pelo que chamou de “uso seletivo de documentos antigos” e disse que investe bilhões em segurança e para restringir o tempo de tela.
Processo contra as redes sociais
Os documentos secretos do TikTok divulgados pelo The Times fazem parte de uma ação judicial movida por uma jovem americana contra big techs. O processo acusava as empresas de funcionarem como máquinas viciantes, principalmente para os mais jovens.
Identificada como KGM, a mulher, que hoje tem 20 anos, buscou a Justiça alegando que desenvolveu ansiedade, depressão e problemas de imagem corporal pelo uso das redes. Segundo ela, a exposição começou aos seis anos e seguiu até a adolescência.
O TikTok e o Snapchat fecharam um acordo com a jovem. Já a Meta e o Google decidiram seguir a batalha judicial e perderam.
Enquanto a Meta, considerada culpada por 70% dos problemas da garota, foi condenada a pagar cerca de US$ 4,2 milhões, o Google (considerado culpado por 30% dos problemas), ficou sujeito a uma indenização de US$ 1,8 milhão. Os dois ainda podem recorrer.
O advogado da jovem afirmou ao jornal britânico que os documentos mostram que o TikTok sabia do seu design viciante, mas decidiu ignorar o assunto e lucrar mesmo assim.
“Esses documentos comprovam que [as redes sociais] dirão qualquer coisa para continuarem se beneficiando de seus modelos baseados em engajamento”, afirmou Matthew Bergman.
Debate sobre redes sociais para crianças
Seja com processos judiciais ou em legislações implementadas por países, o debate sobre a regulamentação das redes sociais está em alta no mundo.
Além da ação que revelou os documentos secretos do TikTok, a Meta viveu outras derrotas judiciais em processos movidas em nome de crianças e adolescentes no mundo.
Algumas dessas ações criticavam o design viciante das plataformas e estão em processo de recurso. O desenrolar delas pode resultar em mudanças significativas nas plataformas no futuro.
Reino Unido, Emirados Árabes Unidos e Indonésia estão entre as nações que anunciaram recentemente o banimento das redes sociais para adolescentes. Enquanto isso, a Austrália, percursora da idade mínima para uso das redes, afirmou que as redes não fizeram o suficiente para cumprir a lei e ameaçou acionar a Justiça contra as plataformas.
Alguns especialistas comparam o momento atual vivido pelas big techs com o vivido pela indústria do cigarro em 1980. Naquela época, campanhas e ações alertando sobre os riscos do cigarro resultaram em limitações à propaganda e à comercialização do tabaco no mundo.
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