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Liberdade de imprensa

EUA ampliam perseguição e pedem registro telefônico de jornalistas do New York Times para encontrar ‘vazador’ de notícia

Medida foi mais uma tomada na caça por fontes que vazaram informações sobre falta de segurança em aeronave dada de presente pelo Qatar aos EUA e usada como o novo Air Force One

Sede do New York Times

Foto: Unsplash




O governo dos EUA requereu o registro telefônico de jornalistas do The New York Times e de seus familiares em mais um movimento de caça às fontes que avisaram ao jornal sobre falhas de segurança no avião presidencial de Donald Trump.

Desde o começo do mês, quando a reportagem sobre o assunto foi publicada, ao menos três repórteres do jornal foram intimados nas suas próprias casas a prestar depoimento em um processo sobre o caso. O processo foi momentaneamente suspenso após uma moção do próprio jornal, mas a pressão à liberdade de imprensa segue.

A guerra judicial e as manobras do governo Trump acontecem ao mesmo tempo em que uma força-tarefa montada do Departamento de Guerra americano opera uma “caça às fontes” dentro do governo. A justificativa, assim como em outros momentos de vedação à liberdade de imprensa no país, é a segurança nacional.

Jornalistas perseguidos

O Departamento de Justiça dos EUA emitiu intimações a empresas terceirizadas de telefonia pedindo o registro de ligações e mensagens de texto de diversos jornalistas. Os dados constam em uma petição tornada pública nesta segunda-feira (20) pelo juiz Arun Subramanian, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Manhattan.

Além de pedir a quebra de sigilo dos repórteres, o governo dos EUA também pediu informações sobre as ligações e mensagens dos cônjuges de dois deles e da mãe de outro. Os advogados do The New York Times tentam anular os pedidos judiciais, segundo a reportagem do próprio jornal.

“As ações do governo representam uma tentativa extraordinariamente agressiva e pouco convencional do governo Trump de descobrir as fontes confidenciais de jornalistas independentes cujas reportagens haviam irritado o presidente.”

Duas das intimações feitas à Justiça pediam os registros telefônicos dos repórteres desde 1º de janeiro, mais de seis meses antes da publicação da reportagem.

“Esse período sugere fortemente que o departamento está usando esta investigação não para se concentrar em supostas preocupações decorrentes das reportagens de 8 e 9 de julho, mas para vasculhar, de forma mais ampla, informações sobre as relações dos jornalistas com suas fontes.”, diz trecho da petição.

Além disso, o governo também teria agido para evitar que as empresas de telefonia informassem ao jornal sobre os pedidos de registro telefônico. De acordo com os advogados do Times, o Departamento de Justiça recorreu a outro juiz federal para analisar o pedido em questão, mesmo com o processo suspenso para o julgamento de uma moção pelo juiz Arun Subramanian (veja mais sobre isso abaixo).

Nem o governo dos EUA nem um porta-voz do jornal se pronunciaram para além do que estava escrito nos autos sobre o assunto.

Depoimento suspenso

A princípio, os jornalistas do The New York Times seriam ouvidos pela Justiça americana na quarta-feira (15). O jornal, porém, enviou uma moção judicial para anular as intimações emitidas pelo Departamento de Justiça aos jornalistas.

A moção do jornal afirmava que o governo agiu de má-fé para “punir o Times por sua cobertura”. Eles alegavam, ainda, que o governo feriu os direitos constitucionais dos jornalistas e do jornal ao mover a ação judicial em busca de suas fontes.

O julgamento do caso e o depoimento dos jornalistas foi suspenso até que a moção seja analisada. A expectativa é de que isso aconteça na quinta-feira (23), de acordo com o Times.

Processo contra o NYTimes

Ao menos três jornalistas do The New York Times receberam convocações para depor em um júri federal como parte de uma investigação sobre o vazamento de informações a respeito do novo avião presidencial de Donald Trump.

Em uma reportagem divulgada em 8 de julho, Julian E. Barnes, Eric Lipton, Tyler Pager e Eric Schmitt afirmaram que Trump substituiu o Boeing 747-8, um presente do governo do Catar usado como o novo Air Force One, pela aeronave mais antiga do governo por uma questão de segurança.

A reportagem afirmava que o avião não dispunha de todos os sistemas de proteção existentes nas aeronaves mais antigas, como recursos de defesa importantes contra mísseis.

O FBI pediu que o NYTimes não divulgasse as informações, mas o jornal julgou que elas eram de interesse nacional e decidiu publicar o texto. De acordo com o Departamento de Justiça, o objetivo da ação judicial é identificar quem deu ao The New York Times as informações sobre as condições de segurança da aeronave.

Em seu posicionamento, o Times declarou que buscar fontes dentro do governo faz parte do trabalho jornalístico e que o uso de instrumentos criminais para descobrir suas identidades pode dificultar futuras denúncias de interesse público.

Força-tarefa dos EUA para achar fontes

Dias após abrir o processo contra o The New York Times, o governo americano, por meio do seu secretário de Guerra, Pete Hegseth, anunciou uma força-tarefa para encontrar fontes que passam informações confidenciais do governo a jornalistas.

De acordo com ele, a ação era “uma questão de segurança nacional”. O secretário afirmou que solicitações para achar as fontes seriam prioridade do governo, com obrigatoriedade de resposta de até 48 horas.

Enquanto ameaçou as fontes diretamente mencionando “punições” e “ações judiciais”, o secretário deixou aos jornalistas apenas críticas veladas sobre o desejo por audiência. “A segurança da nossa nação não pode ser uma moeda de troca para aqueles que buscam manchetes momentâneas.”, disse.

Antes de ser secretário, Hegseth, que é ex-militar, foi co-apresentador do programa Fox&Friends e comentarista do canal conservador por anos. Desde que assumiu o cargo, ele tem travado outras guerras judiciais contra repórteres, restringindo, por exemplo, o acesso ao Pentágono.

Mudança na investigação de fontes

Apesar de o direito à liberdade de imprensa constar na Constituição dos EUA, o sigilo da fonte não é garantido constitucionalmente. Em 2024, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou por unanimidade um projeto de lei conhecido como PRESS Law. Esse projeto impedia o governo federal de obrigar os jornalistas a revelarem a origem das suas informações.

O projeto, porém, ficou “preso” no Senado, sendo retirado de pauta após objeções. Ele não foi reintroduzido na casa legislativa desde então.

Após a posse de Donald Trump para o seu segundo governo, a situação piorou ainda mais. Em abril de 2025, a procuradora-geral Pam Bondi revogou restrições instituídas pelo Departamento de Justiça durante o governo de Joe Biden.

As regras anteriores limitavam o uso de intimações, ordens judiciais e mandados de busca para obter registros de jornalistas ou identificar fontes em investigações sobre vazamentos. Agora, sob Trump, uma nova política permitiu essas medidas quando o Departamento de Justiça considerar “indícios de crime”.

O uso das ferramentas depende de autorização interna. De acordo com o regulamento, ele deve ser delimitado ao material considerado necessário. A mudança não criou a obrigação automática para que jornalistas revelem fontes, mas ampliou os instrumentos que promotores e investigadores federais.

Após um ano de governo do republicano, os Estados Unidos despencaram no ranking de liberdade de imprensa do Repórteres Sem Fronteiras. O país ficou na 64ª posição, sete números abaixo de 2025.

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