Após duas semanas de embates entre advogados, o Departamento de Justiça dos EUA voltou atrás e retirou intimações para jornalistas do The New York Times comparecerem ao tribunal em uma investigação para descobrir suas fontes.
Além de retirar as intimações para os depoimentos, o governo Trump também cancelou as solicitações judiciais que pediam o registro telefônico dos mesmos jornalistas e de seus familiares.
O recuo não veio de um súbito bom senso por parte do governo, mas sim de uma “bronca” que os advogados do Departamento de Justiça levaram do juiz responsável pelo caso.
Apesar da não obrigação dos depoimentos dos repórteres, a investigação movida pelo governo contra as fontes do jornal devem continuar.
No jantar com jornalistas que cobrem a Casa Branca, realizado nesta sexta-feira (25), o presidente sinalizou que pretende explorar outros caminhos para obter de jornalistas informações sobre quem vazou informações confidenciais para reportagens capazes de contornar os obstáculos jurídicos encontrados até agora.
A desistência do governo
O governo desistiu das intimações após uma audiência com o juiz federal Arun Subramanian nessa quinta-feira (23). Durante a audiência, o magistrado “deixou claro que acreditava que o governo Trump violou as proteções a jornalistas”, segundo a NPR.
De acordo com o The New York Times, ele afirmou aos advogados que intimar jornalistas é a “última coisa a se fazer, não a primeira”.
A conversa do juiz com os advogados do Departamento de Justiça durou quase uma hora e acabou com o anúncio de “retirada unilateral das intimações” por parte do governo. Na conversa, o magistrado teria deixado claro que, caso o governo não retirasse as intimações, ele mesmo as retiraria.
Apesar da desistência, o governo segue autorizado a intimar os repórteres no futuro, “desde que siga os procedimentos adequados”. Em comunicado, o Departamento de Justiça criticou a posição do juiz, afirmando que Subramanian “ignora o bom senso”.
A princípio, os jornalistas deveriam ter sido ouvidos em 15 de julho, mas o Times conseguiu anular as intimações com uma moção judicial. O jornal comemorou a vitória em um comunicado emitido à imprensa.
“Estamos satisfeitos que o governo finalmente tenha admitido que as intimações violaram a lei, mas elas nunca deveriam ter sido emitidas em primeiro lugar.”
Agente secreto preso em “caça às fontes”
Ao mesmo tempo em que voltou atrás na intimação aos repórteres, o governo americano anunciou aquela que parece ser sua primeira punição no serviço de “caça às fontes” de jornalistas americanos.
Dias após Pete Hegseth anunciar uma força-tarefa para encontrar vazadores de informações do governo, um agente secreto foi afastado pelo vazamento de “conteúdo sensível”. Ele é membro do time de segurança do vice-presidente JD Vance, segundo o próprio Serviço Secreto.
Oficialmente, a Casa Branca não comentou qual seria a informação vazada. De acordo com o canal CNN, porém, o agente teria falado para uma reportagem do MS NOW sobre as “preocupações” da equipe de segurança do vice-presidente com as viagens frequentes da família dele em aviões oficiais.
Entre as viagens fora do padrão estavam um voo de helicóptero militar para levar o filho de Vance a uma aula de golfe e outra para a família visitar casas à venda na capital federal. Além do afastamento, o agente deve responder judicialmente pela divulgação das informações, como prometido por Hegseth.
Os novos embates do governo Trump contra jornalistas coincidem com a semana em que um novo jantar dos correspondentes da Casa Branca acontece em Washington D.C.
O evento, cancelado após uma tentativa de atentado em abril, terá segurança mais rígida. Ele acontece para menos pessoas nesta sexta-feira (24) em um hotel que já foi do presidente.
Entenda o processo contra o NYTimes
Ao menos três jornalistas do The New York Times receberam convocações para depor em um júri federal no começo deste mês.
Os depoimentos eram parte de uma investigação sobre o vazamento de informações a respeito do novo avião presidencial de Donald Trump. As intimações aconteceram apenas dois dias após as reportagens irem ao ar.
Em uma reportagem divulgada em 8 de julho, Eric Lipton, Tyler Pager, Eric Schmitt e Julian E. Barnes afirmaram que Trump substituiu o Boeing 747-8, um presente do governo do Catar usado como o novo Air Force One, pela aeronave mais antiga do governo por uma questão de segurança.
De acordo com a reportagem, o avião não tinha todos os sistemas de proteção existentes nas aeronaves presidenciais mais antigas, como recursos de defesa importantes contra mísseis.
O FBI pediu que o NYTimes não divulgasse as informações, mas o jornal julgou que elas eram de interesse nacional e decidiu publicar o texto. O Departamento de Justiça alegava que o objetivo da ação judicial era identificar quem deu ao The New York Times as informações sobre as condições de segurança da aeronave.
Os jornalistas, inclusive, não constavam como investigados, e sim como testemunhas no processo.
Em seu posicionamento, o Times declarou que buscar fontes dentro do governo faz parte do trabalho jornalístico. O jornal disse, ainda, que o uso de instrumentos criminais para descobrir suas identidades pode dificultar futuras denúncias de interesse público.






