Adiar a entrada de crianças e adolescentes nas redes sociais pode trazer benefícios duradouros para o desempenho escolar de sua vida futura, aponta um novo estudo publicado na revista científica Nature Human Behaviour.
O trabalhou constatou que estudantes que criaram uma conta ainda no início da adolescência apresentaram desempenho inferior em matemática e no idioma materno anos depois em comparação com colegas que esperaram até o 9º ano escolar, quando tinham por volta de 14 anos.
Os resultados reforçam os argumentos dos que defendem limite de idade mínima para crianças e jovens nas redes sociais, como já fizeram a Austrália e outros países.
A pesquisa analisou dados de 5.227 estudantes do norte da Itália e encontrou um padrão consistente: quanto mais cedo começava o uso das redes sociais, maior era a diferença observada no desempenho acadêmico posterior.
Uso invasivo do smartphone pode ajudar a explicar o efeito
O estudo não mediu diretamente o tempo de tela nem identificou quais conteúdos eram consumidos pelos estudantes. Em vez disso, avaliou a presença do smartphone em diferentes momentos ligados ao estudo, ao sono e à concentração.
Foram considerados comportamentos como usar o aparelho durante a lição de casa, antes de dormir, logo ao acordar e no ambiente escolar. Quanto mais invasivo era esse uso, pior tendia a ser o desempenho acadêmico.
Segundo as análises, esse padrão explicou estatisticamente entre 33% e 47% do efeito observado em matemática e entre 15% e 34% em italiano.
Os pesquisadores destacam que essa parte da análise indica mecanismos possíveis, como interrupções da atenção, sobrecarga cognitiva e prejuízos ao sono, mas não prova de forma definitiva que sejam a causa direta da queda nas notas.
Redes sociais e desempenho escolar: quanto mais cedo, maior a perda
Entre os estudantes que criaram uma conta no 6º ano escolar, o desempenho no 10º ano ficou 0,22 desvio-padrão abaixo em italiano e 0,27 abaixo em matemática, em comparação com os alunos que esperaram até o 9º ano ou mais.
Entre os que começaram no 7º ano, as perdas também foram relevantes: 0,17 desvio-padrão em italiano e 0,22 em matemática no 10º ano.
Os efeitos foram menores entre os estudantes que abriram a primeira conta no 8º ano, mas seguiram na mesma direção. Segundo os pesquisadores, os resultados mais robustos foram observados entre aqueles que começaram no 6º e no 7º anos.
Diferenças continuaram anos depois
As perdas não desapareceram quando os estudantes que haviam adiado o ingresso também passaram a utilizar redes sociais. No 10º ano, as diferenças de desempenho ainda estavam presentes e, em matemática, tornaram-se maiores entre alguns dos grupos que começaram mais cedo.
Esse resultado enfraquece a hipótese de que adiar o acesso apenas postergaria um efeito inevitável.
Para os pesquisadores, os dados são compatíveis com um efeito cumulativo, em que mais anos de exposição estão associados a perdas maiores.
Repetência e confiança acadêmica também foram afetadas
Os efeitos não apareceram apenas nas avaliações padronizadas. Os estudantes que criaram uma conta no 6º ou no 7º ano também apresentaram maior probabilidade de repetir uma série do ensino médio.
Os grupos que começaram mais cedo tiveram ainda menor chance de alcançar notas finais consideradas excelentes e relataram níveis mais baixos de autoeficácia acadêmica, medida relacionada à percepção que o estudante tem sobre a própria capacidade de aprender e realizar tarefas escolares.
A escolha da modalidade de ensino médio, por outro lado, pareceu ser pouco afetada pela idade de entrada nas redes sociais.
Inglês foi uma exceção
Diferentemente do que ocorreu em matemática e italiano, o estudo não encontrou diferenças estatisticamente significativas no desempenho em inglês.
Os autores levantam a hipótese de que a exposição frequente a conteúdos em inglês nas plataformas digitais possa compensar parte dos efeitos negativos.
Como o estudo foi realizado
Os pesquisadores combinaram informações sobre os hábitos digitais dos estudantes com resultados de avaliações escolares aplicadas em diferentes momentos da trajetória acadêmica.
Os participantes informaram em que ano haviam recebido o primeiro smartphone conectado à internet e criado o primeiro perfil pessoal em redes sociais.
Esses dados foram comparados com resultados de provas de italiano, matemática e inglês realizadas ao longo da vida escolar.
A análise levou em conta fatores como desempenho anterior, escolaridade dos pais, estrutura familiar, dificuldades econômicas, origem migratória e práticas de supervisão parental.
O objetivo foi comparar estudantes com características semelhantes antes da abertura das contas, reduzindo o risco de que as diferenças posteriores fossem explicadas apenas por desigualdades já existentes.
O que o estudo não permite afirmar
Embora os resultados sejam consistentes com um efeito causal negativo, os pesquisadores alertam para o fato de que não é possível descartar completamente a influência de fatores não observados.
No entanto, ao deslocar parte do debate do tempo de tela para a idade de entrada nas plataformas, o estudo sugere que o momento em que crianças e adolescentes começam a usar redes sociais pode ser um fator relevante para o desempenho escolar.
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