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Cinema

‘Musk’: documentário estreia em Veneza com avatar do bilionário e clima de medo entre entrevistados

Produção de Alex Gibney estava sendo feita desde o fim de 2022, e foi ganhando mais peso conforme o poder político do bilionário cresceu, principalmente durante o segundo governo Trump




Um documentário com quase quatro horas de duração sobre o bilionário Elon Musk estreou nesta terça–feira (8) no Festival de Cinema de Veneza, mas não contou com o protagonista, que se recusou a participar e foi substituído por um avatar criado com computação gráfica e voz sintetizada com  IA reproduzindo falas reais.

O filme, assinado por Alex Gibney, detentor de um Oscar, não faz parte da mostra competitiva.

O diretor disse que conseguiu a muito custo entrevistar pessoas próximas ao dono da rede social X para pintar um fiel retrato sobre quem é o homem com tanto poder, já que muitos se recusaram a falar.

O trailer do filme, classificando Musk como “O homem mais descontrolado da terra”, já sinalizava que esse retrato poderia ser desagradável para o empresário.

As reações dele, que recusou entrevistas e criticou publicamente o diretor nas redes, reforçam isso.

Quase quatro horas de filme

Dirigido por Gibney, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2007 com Taxi to the Dark Side, o filme tem 3h45min, acompanhando o período desde o começo da carreira empresarial do bilionário até a sua passagem pelo governo de Donald Trump.

A chegada do bilionário ao governo americano esticou a duração prevista do filme.

Em entrevistas, o diretor disse que quando “Musk” foi idealizado, em 2022, a ideia era mostrar o que havia por trás de um dos homens mais ricos do mundo.

Ao longo dos anos, porém, o poder dado a ele foi crescendo, assim como o escopo do documentário.

No fim, a produção evidenciou o tamanho do impacto de um homem em debates públicos sobre tecnologia e redes sociais e na administração de um país.

Em 2025, Elon Musk foi designado por Donald Trump para comandar um departamento destinado a criar eficiência no governo, cortando pessoas, programas públicos e orçamentos.

A exibição em Veneza contou com uma pausa de 10 minutos no meio do documentário por causa do seu tamanho. O filme chega aos cinemas em 16 de outubro.

Musk de CGI e  IA

Crítico do projeto desde a origem, Elon Musk se recusou a conceder uma entrevista para o documentário. A alternativa encontrada pelo diretor para resolver o problema foi engenhosa.

O avatar de Musk, criado com CGI (computação gráfica)  reproduz trechos de entrevistas reais dadas pelo bilionário ao longo da sua carreira inseridas com inteligência artificial.

Com isso, o documentário fica fiel ao que ele de fato disse publicamente. E ironicamente, faz com que Musk, um grande entusiasta da IA – mesmo que ela modifique ou machuque pessoas, como no caso dos recursos de nudificação do Grok – prove um pouco do seu próprio veneno.

Em declarações dadas antes da estreia do filme, Gibney afirmou que consultou advogados, que deram o sinal verde para esta alternativa criativa.

Quem aparece no doc?

Apesar de não ter a participação de Musk, o documentário conta com a presença de algumas pessoas importantes na vida do bilionário.

Entre eles estão, Ashley St. Clair, uma ex-namorada de Musk com quem ele tem um filho, Justine Musk, ex-esposa dele, e Errol Musk, pai do bilionário.

Alguns dos críticos destacaram as falas de Errol Musk como essenciais para pintar o retrato do homem que Musk é hoje.

Um desses relatos conta que Musk, ainda criança, manteve-s totalmente indiferente, sem tirar os olhos dos seus quadrinhos, quando seu pai parou na estrada para ajudar uma pessoa desacordada que estava sendo reanimada por terceiros.

Ashley St. Clair, que teve um filho com o bilionário, chegou a acompanhar o diretor do filme na estreia do documentário em Veneza.

Entre as suas declarações estão a de que ela recusou um acordo de US$ 40 milhões para manter sigilo sobre o relacionamento que viveram.

Também falam no documentário Kara Swisher e Zoë Schiffer, importantes jornalistas de tecnologia que acompanham Musk e o setor; Martin Eberhard, cofundador da Tesla e Geoffrey Hinton, um dos principais pesquisadores de IA.

Medo de entrevistados

Ainda assim, muita gente ficou de fora. Ao apresentar o filme em Veneza, Alex Gibney contou que as quase quatro horas de documentário trazem apenas os relatos de “alguns poucos corajosos” que concederam entrevistas para ele.

De acordo com o diretor, o clima de medo era geral durante a produção, não só por parte daqueles que se opunham a Musk, mas também por parte de colegas. Este é mais um sinal da dimensão do poder que o bilionário exerce.

“Havia um grande medo de falar, um medo quase existencial, tanto entre aqueles que o criticavam quanto entre seus colegas de negócios e amigos.”

O que a crítica falou

A recepção do filme pela imprensa foi, em geral, positiva.

A maioria das críticas destacou a ironia presente na decisão de Gibney em pintar um Musk de IA para contar a sua própria história. Além disso, o retrato fiel de Musk também entusiasmou quem já viu o filme.

Segundo o The Hollywood Reporter, o documentário pinta o bilionário como um “vigarista que recebeu poder demais para ser detido”.

Já o The New York Times destaca a capacidade do diretor de ressaltar elementos que muitos já sabiam sobre Musk.

“Embora grande parte do que ele apresenta aqui sobre Musk não seja exatamente novidade, há um poder assustador na forma como o diretor reúne tudo.

Musk não é apenas uma figura incômoda no noticiário. O mega-retrato de Gibney nos convida a analisar o conjunto de suas ações e a levá-lo a sério como uma ameaça à democracia.”

A revista Variety destaca como um dos principais pontos do documentário a pressa de Musk para anunciar uma versão autônoma do Tesla. O serviço, no fim das contas, teria matado ao menos 60 pessoas.

“Musk, em grande parte, conseguiu abafar os processos judiciais, as investigações federais e os acidentes fatais, que eram evidências de uma imprudência que deveria ter feito o mundo inteiro refletir”, diz trecho da crítica.

O site Deadline, por sua vez, afirma que Musk dá a Elon “a lição que ele merece” ao retratá-lo como uma péssima pessoa.

“O filme retrata o homem mais rico do mundo como mesquinho, narcisista, megalomaníaco, cruel e distante dos seres humanos em um nível pessoal (incluindo várias ex-parceiras e muitos de seus filhos), enquanto alega querer salvar a humanidade colonizando Marte.”

As reações de Musk

O bilionário nunca criticou o documentário de forma oficial, mas tem atacado o seu diretor e até mesmo os jornais que noticiam o filme em comentários no X.

Os comentários acontecem sempre de forma indireta, como resposta a outros usuários simpatizantes dele.

Em 2023, quando “Musk” foi comprado pela Universal, ele comentou que “Gibney é um idiota”. Naquele mesmo ano, ele afirmou que o filme era uma “difamação” contra ele em outra publicação.

Na segunda-feira, primeiro dia de divulgação do filme, Musk concordou com o post de uma podcaster americana que afirmou que a biografia “não pode ser ‘definitiva’ se a pessoa retratada não participou dela”.

“Exatamente”, respondeu o bilionário.


Horas antes, ele respondeu a outro usuário que republicou uma notícia da revista People sobre o filme.

“A People ainda existe mesmo? Acho que não. Literalmente não vejo um exemplar por aí há mais de uma década”, afirmou, em um dos costumeiros ataques à imprensa.


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