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Após embate jurídico, acordo sela compra da Warner pela Paramount; veja como fica a situação da CNN sob a Skydance

Diretor-geral da rede de notícias seguirá no cargo e a nova empresa terá um conselho de independência para gerenciar questões editoriais envolvendo CNN e CBS

Logomarca da Skydance cercada por marcas de estúdios e empresas unidas com a fusão da Paramount e Warner

Skydance, fusão da Warner com a Paramount, reúne marcas lendárias da mídia de notícias e de entretenimento (foto: reprodução vídeo)




A confirmação da compra da Warner pela Paramount mal tinha sido anunciada quando os monitores corporativos da sede da CNN passaram a exibir o logo da Skydance, a empresa resultante da fusão dos ativos das duas companhias, nesta terça-feira (6).

A conclusão do negócio aconteceu após um longo embate judicial que questionava, entre outras preocupações, a independência do canal de notícias, um dos maiores dos EUA, ao ser comprado pelos donos da CBS, sua concorrente de longa data, e pela ligação da família Elisson com Donald Trump.

O futuro da CNN, agora parte da Skydance, foi um dos pontos levantados por procuradores-gerais que entraram na Justiça contra a fusão das empresas.

O acordo aceito por eles para permitir a compra prevê a criação de um conselho de independência jornalística, visto por muitos como uma solução formal, porém com riscos de na prática ser pouco eficiente.

As certezas sobre o que acontece a partir de agora não só com a CNN, mas com muitos outros projetos do audiovisual americano são poucas, embora a confirmação de que o atual CEO da rede de notícias, Mark Thompson, seguirá no cargo tenha dado um alívio aos que temiam interferências editoriais imediatas.

Compra da Warner pela Paramount

O valor pago pela Paramount Skydance para adquirir a Warner Bros. Discovery foi de US$ 110 bilhões.

A fusão, que foi a princípio aprovada pela agência reguladora de mídia FCC (Federal Communications Commission), mas barrada pela Justiça, desafiou um grande processo antitruste e acabou com a união das duas gigantes potências de Hollywood em um único nome: Skydance.

Além de tornar a CNN e a CBS canais de notícias “irmãos”, a fusão une mundos diversos, como Harry Potter, Game of Thrones e o Universo DC. Os canais de TV por assinatura também passam a morar na mesma casa. Fazem parte do novo conglomerado HBO, TNT, TBS, Comedy Central e Nickelodeon.

O vídeo de apresentação usa cenas de clássicos das duas companhias, enfatizando que o que era o ‘pico’, em alusão à imagem da montanha que ilustra a marca da Paramount, agora “é só o começo”.

A mudança prevê a separação de canais de notícias, mas unirá os streamings Max e Paramount+. A nova empresa será obrigada a cumprir uma série de exigências para produção e exibição de filmes.

O Conselho de Administração

A Skydance também anunciou nesta terça-feira a composição do conselho de administração da nova companhia. O órgão será responsável pela supervisão estratégica e pela governança de todo o grupo.

David Ellison, presidente e CEO da Skydance, continua como presidente do conselho. Ele é filho de Larry Ellison, fundador da Oracle e uma das figuras mais próximas de Donald Trump no mundo da mídia e tecnologia.

Entre os novos integrantes estão Ynon Kreiz, co-CEO da empresa; Laurene Powell Jobs, fundadora da Emerson Collective e investidora do The Atlantic; e Bobby Kotick, fundador e ex-CEO da Activision.

Outros nomes confirmados são Safra Catz, vice-presidente executiva da Oracle; Gerry Cardinale, fundador da RedBird Capital Partners; e Sherry Lansing, ex-presidente da Paramount Pictures. O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair também foi anunciado, mas como assessor do conselho, sem integrar o grupo de diretores.

Esse conselho corporativo é separado do futuro conselho de independência editorial que deverá acompanhar CNN e CBS News.

O que acontece, de fato, com a CNN

A CNN e a CBS continuarão sendo duas empresas de notícias diferentes, geridas por diretorias independentes. Apesar disso, elas vão responder ao mesmo dono: David Ellison, filho do bilionário Larry Ellison.

Algumas definições já foram feitas, como a manutenção do diretor-geral da CNN e cláusulas de separação impostas pela Justiça para garantir uma suposta independência dos dois lados.

As cláusulas envolvendo os dois canais de notícias mencionam uma “proteção contra ingerência”, mas não detalham como o “monitoramento contra pressões de proprietários ou acionistas” acontecerá.

Diretor diz que fica

Um dia antes da fusão da Warner com a Paramount, Mark Thompson, que é CEO da CNN há três anos, divulgou um comunicado informando que aceitou o convite para seguir no cargo. Agora, ele responde diretamente a David Ellison e a Ynon Kreiz, co-CEO da Skydance.

No seu comunicado, Thompson adotou um tom otimista sobre a fusão. Ele disse estar convencido de que Ellison e outros líderes da Skydance “acreditam que o jornalismo, juntamente com o entretenimento, representa uma importante oportunidade estratégica para a nova empresa”.

Mark Thompson
Mark Thompson, CEO da CNN, seguirá no cargo após fusão da Warner com a Paramount
Foto: Eirik Solheim/Creative Commons

Além disso, de acordo com o CEO, após uma conversa com Ellison e com Kreiz, ele espera o “apoio integral” ao princípio e a prática do jornalismo independente.

“É por isso que liderarei a CNN neste novo capítulo, à medida que ela se torna um dos principais ativos de mídia e marcas globais da Skydance, e a liderarei como editor-chefe independente, com as mesmas responsabilidades e prerrogativas que tenho agora.”

Independentes, mas nem tanto

A garantia de que a CNN e a CBS seriam canais independentes foi uma das exigências da fusão. Apesar de seus nomes – e seus diretores executivos – se manterem separados, a Skydance criou um comitê para compartilhamento de informações entre as empresas, de acordo com o The New York Times.

Uma “equipe executiva de liderança de notícias”, formada por Mark Thompson e por Bari Weiss, a polêmica editora-chefe da CBS News, foi  A ideia é que essa equipe lidere as discussões sobre o compartilhamento de informações entre as redações.

Além disso, estão previstos o alinhamento de estratégias e a expansão de plataformas digitais para compensar o declínio da TV a cabo.

O anúncio dessa equipe criou desconfiança entre funcionários de alto escalão, com o âncora Anderson Cooper, um dos nomes mais famosos da CNN hoje, afirmando a colegas que não trabalharia sob o comando de Weiss.

Quem vai fiscalizar a atuação conjunta de Weiss e Thompson é o conselho de independência editorial, formado por cinco jornalistas e exigido no acordo feito entre os promotores-gerais e a Paramount para permitir a fusão.

Além de fiscalizar os CEOs, o conselho deve resolver disputas sobre “a suposta parcialidade na cobertura jornalística, ou o descumprimento dos padrões de imparcialidade acordados” em notícias distribuídas nos EUA.

Conselho de independência agradou a poucos

A Skydance ainda não anunciou os nomes do conselho que vai fiscalizar a independência da CNN e da CBS. A previsão legal é da criação do grupo em até seis meses após a conclusão do negócio.

De acordo com a exigência legal, o conselho terá cinco jornalistas da ativa ou aposentados, com no mínimo 10 anos de experiência. Além disso, cada jornalista vai cumprir um mandato de três anos e só sairá do conselho por justa causa.

Somente dois dos cinco jornalistas poderão ter alinhamento ao mesmo partido político e eles serão indicados pelo conselho de administração da Paramount.

A escolha da própria Paramount para apontar os membros do conselho que vai fiscalizá-la foi um dos motivos de críticas de órgãos especializados em liberdade de imprensa. Muitos afirmam que o conselho nada mais é que uma fachada para agradar os procuradores-gerais e permitir que a empresa faça o que quiser.

Para a Freedom of the Press Foundation, o fato de que a própria empresa apontará seu conselho de independência editorial mostra que a medida “não vale nada”. O analista de mídia Joshua Benton, do Nieman Lab disse, ainda, que Ellison “acabará assumindo o controle da CNN”.

Próximos passos são incertos

Além dos comunicados a funcionários e dos acordos assinados na Justiça, pouco se sabe sobre o que acontecerá no futuro das empresas. O maior temor, porém, é que mesmo sob as promessas de Thompson, a CNN perca seu formato original.

A CBS News já não vive um bom momento, com uma grande crise institucional agravada pela chegada de Bari Weiss. Além disso, o canal vive demissões e acusações de falta de independência editorial no programa 60 Minutes.

A CNN, por sua vez, vive uma crise “na contramão” da CBS. Enquanto sua nova emissora irmã é acusada de conluio com o governo Trump para conseguir benefícios – incluindo a aprovação da fusão pela FCC – a CNN virou alvo recente do governo, está proibida de participar de coberturas na Casa Branca e teve, por mais de uma vez, sua principal repórter humilhada em público pelo presidente dos EUA.

Outra mudança esperada é o corte de gastos nas empresas. Para lidar com a dívida acumulada na fusão, a Skydance tem plano de economizar US$ 6 bilhões em custos nos próximos três anos.

Devido às funções sobrepostas e operações duplicadas entre a CNN e a CBS News, eliminação de vagas não devem ser descartadas, como é comum em fusões. Os dois CEOs admitiram ao comentar o futuro da nova empresa que “decisões difíceis terão que ser tomadas”, em um memorando enviado à equipe logo após a confirmação do negócio.

Mudanças para além do jornalismo

Além de exigir a separação da CNN e da CBS, o acordo para fusão da Paramount com a Warner também prevê:

  • Lançamento de ao menos 30 filmes por ano nos próximos dois anos, aumentando este número para 32 nos três anos seguintes.
  • Ao menos quatro filmes independentes por ano e 20% de todas as produções com ao menos US$ 50 milhões de orçamento (dentro dos 30 filmes previstos).
  • Investimento de US$ 1,5 bilhão na produção cinematográfica dos EUA.
  • Criação de medidas para limitar o aumento dos preços dos ingressos de cinema.
  • Impor uma janela de exibição mínima de 45 dias a filmes, deixando-os por ao menos três meses fora dos streamings.
  • Pagamento de US$ 30 milhões de multa por cada filme que violar as cláusulas
  • Negociação de contratos dos canais de assinatura da Paramount e da Warner separadamente por ao menos cinco anos para preservar a concorrência
  • Proibição de vender estúdios da Paramount e da Warner nos próximos cinco anos.

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