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Desinformação

‘Eu provavelmente ignoraria’: estudo revela como adolescentes reagem às fake news nas redes sociais

Yvonne Skipper, da Universidade de Glasgow, estudou o comportamento de alunos entre 11 e 14 anos para entender como reagem a postagens com desinformação nas redes sociais

Adolescente olhando o celular no escuro, com a tela iluminando o rosto

Foto: Unplash




Enquanto milhões de vídeos são assistidos e mensagens compartilhadas, cresce também a quantidade de conteúdo falso circulando pelas redes sociais. Mas o que os adolescentes pensam sobre isso? Sabem distinguir verdade de mentira? Estão dispostos a agir diante disso?

Foi para responder a essas perguntas que a pesquisadora Yvonne Skipper, da Universidade de Glasgow, realizou o estudo “I’d Probably Scroll by” (“Eu provavelmente não daria importância”, em tradução literal), com jovens de 11 a 14 anos.

A pesquisa foi conduzida com 37 alunos de uma escola pública escocesa localizada em uma área de vulnerabilidade econômica. Eles participaram de seis grupos focais, com discussões abertas sobre suas percepções e atitudes diante da desinformação online.

O nome do estudo vem de uma resposta recorrente entre os adolescentes: ao encontrar uma fake news, a maioria declarou que “provavelmente não daria importância” – ou seja, não reagiria.

E os resultados são importantes no momento em que vários países estão impondo ou já impuseram limites de idade ou até horário para acesso de crianças e jovens às redes sociais.

Desinformação só existiria “em grandes eventos” ou golpes

Segundo Skipper, os jovens têm uma visão estreita do que é conteúdo enganoso. Para muitos, o conceito se restringe a teorias da conspiração sobre política ou previsões apocalípticas.

“Eles acreditam que a desinformação está ligada apenas a coisas como ‘o mundo vai acabar’ ou ‘a guerra começou’. Isso os leva a subestimar a presença de fake news em conteúdos mais cotidianos”, explica a autora.

Um dos participantes disse acreditar que, no Instagram, ele só vê “a vida das pessoas”: “Não é tipo ‘isso tá acontecendo no mundo’, é só vida normal”.

Essa ideia de que informações falsas são apenas relacionadas a notícias ou escândalos políticos faz com que jovens não a reconheçam em posts sobre saúde, celebridades ou até vídeos manipulados com inteligência artificial.

A intuição como “bússola da verdade”

Grande parte dos adolescentes afirmou que consegue identificar se um conteúdo é falso “só de olhar”. Para muitos, é uma habilidade inata: “A gente só sente que é falso”, disse um participante.

Outros admitiram depender de sinais superficiais, como a quantidade de comentários ou quantas vezes viram aquele conteúdo. “Se tiver muitas matérias sobre isso, aí eu acredito”, declarou um aluno de 13 anos.

O uso da IA também surgiu como desafio. Alguns relataram que só descobriram que vídeos eram manipulados ao ver os comentários.

“Vi um vídeo do [nome de celebridade] falando uma coisa muito estranha. Eu acreditei. Mas depois vi nos comentários que era gerado por IA,” disse um estudante de 13 anos. Outros contaram que tentam decifrar se textos eram falsos por emojis exagerados ou erros de linguagem.

Segundo Skipper, isso demonstra que os jovens não se aprofundam nos conteúdos, avaliando com base no que já acreditam, no que os amigos comentam, ou no número de vezes que viram a mesma postagem. “Isso é exatamente o que torna a desinformação tão eficaz”, avalia.

“Não me incomoda”, “não vale a pena”, “posso me meter em briga”

Quando o assunto é agir diante da desinformação, o cenário é ainda mais preocupante. A maioria disse que simplesmente ignora. “Por que eu iria perder tempo pesquisando se é verdade ou não?” disse um aluno.

Outro afirmou: “Enviar um vídeo para alguém não vai afetar ninguém.”

Mesmo quando percebem que algo é falso, raramente denunciam ou comentam. O motivo? Medo. “E se alguém ficar com raiva de mim?”, comentou uma menina. Outro se preocupou com possíveis ameaças:

“E se descobrirem meu IP?”

Alguns até consideram reagir, mas de forma breve e simbólica: “Eu só escreveria ‘isso é fake’ e colocaria um emoji de caveira, e sairia”, disse um estudante.

Segundo a pesquisadora, essa passividade tem três raízes principais: a percepção de que a desinformação “não causa problemas”, o medo de retaliações e a crença de que uma ação individual “não vai mudar nada”.

Confiança cega em plataformas e algoritmos

O estudo também revelou que os jovens delegam a responsabilidade de combater a desinformação às plataformas e ao governo.

Para eles, se um conteúdo enganoso aparece, “é problema do Instagram ou do TikTok”.

“Se a plataforma permite que postem fake news, então ela deveria cuidar disso”, afirmou uma participante de 14 anos.

Apesar de reconhecerem que os algoritmos moldam o que veem, a maioria ainda os vê de forma positiva, como algo que “só mostra o que gostamos”. Poucos notaram que esses mesmos algoritmos podem amplificar conteúdo enganoso.

“Esse é um ponto central: precisamos ensinar aos jovens que algoritmos também promovem o que é sensacionalista, inclusive mentiras, porque isso gera engajamento”, alerta Skipper.

O que fazer agora?

Para a pesquisadora, os resultados deixam claro que é urgente repensar como a educação digital é abordada nas escolas:

“Não basta ensinar como usar ferramentas online. Precisamos ir além, desmistificando a ideia de que saber identificar desinformação é algo intuitivo. É uma habilidade que precisa ser ensinada e praticada”

Ela também sugere que as intervenções pedagógicas incluam exemplos variados — não apenas de política ou saúde pública, mas também em temas do cotidiano como estilo de vida, esporte, relacionamentos e cultura pop. 

“Quanto mais ampla a abordagem, maior a chance de os jovens perceberem a desinformação no dia a dia,” completa.

O estudo termina com um alerta: se queremos que as novas gerações não sejam apenas consumidores passivos de informação, é preciso prepará-las para questionar, verificar e, principalmente, agir – com segurança e confiança – diante da avalanche de conteúdo que enfrentam online.

No universo digital, “não dar importância” pode ter consequências muito maiores do que parece.

Clique aqui para baixar o estudo completo, em inglês.


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