Ao justificar a escolha de Gana para instalar sua sede na África, o Twitter sinalizou o tamanho da preocupação das plataformas digitais globais com países em que a regulamentação possa ameaçar seus negócios ou suas práticas. É claro que outros fatores também influenciaram na decisão, mas a empresa preferiu destacar o papel de Gana como país defensor da liberdade de expressão, da liberdade online e da internet aberta. 

A crise mais recente entre governos e plataformas acontece na Índia, onde a administração de Narendra Modi baixou em fevereiro um decreto apertando o cerco contra as Big Techs. E, com o agravamento da crise do coronavírus, ordenou a Twitter, Instagram e Facebook a remoção de postagens desfavoráveis feitas por ativistas, políticos e jornalistas. 

Especulava-se que a escolha do país para sediar o Twitter na África poderia recair sobre Nigéria, Egito, África do Sul e Quênia, geralmente considerados os centros de tecnologia do continente. Mas a recente nomeação de Gana como sede da Área de Livre Comércio Continental Africano e a postura proativa do presidente ganense Nana Akufo-Addo contribuíram para desequilibrar o jogo.

Tanto que o nome do presidente ganense foi citado pelo CEO e cofundador do Twitter, Jack Dorsey, no tuíte em que anunciou a decisão:

O presidente ganense não perdeu tempo em retuitar imediatamente a ótima notícia para o país. Ele considerou a escolha um passo decisivo para o desenvolvimento do setor de tecnologia e da própria economia do país:

“Estes são tempos empolgantes para estar e fazer negócios em Gana.”

Nigéria culpa má imagem criada pela imprensa local

Muitos líderes do setor ficaram inicialmente surpresos, principalmente os líderes políticos. Mas os que mais se decepcionaram foram as autoridades da Nigéria, uma das duas maiores economias da África, que tem um setor de tecnologia próspero, mas enfrenta desafios de segurança, como uma insurgência islâmica no nordeste do país, sequestros em massa em escolas do noroeste e pirataria no Golfo da Guiné.

Questionado sobre a decisão, o ministro da Informação nigeriano, Lai Mohammed, preferiu jogar a culpa nos jornalistas locais:

“A expectativa natural seria que a Nigéria fosse a sede do Twitter na África. Isso é o que você obtém quando se desvaloriza o mercado de seu próprio país”.

Ele citou a cobertura da imprensa sobre os protestos contra a reforma da polícia no ano passado. Durante essas manifestações, pelo menos 12 pessoas foram mortas a tiros por policiais e soldados, conforme o grupo de direitos humanos Anistia Internacional. Os militares negam as acusações.

Os usuários do Twitter usaram a hashtag #EndSARS contra o Esquadrão Especial Antirroubo, que acabou sendo dissolvido depois das acusações de abuso. Na época, o próprio CEO do Twitter envolveu-se na campanha, apoiando os denunciantes dos abusos policiais e pedindo a seus seguidores para apoiá-los com a doação de bitcoins.

Após a campanha e a circulação de imagens dos protestos pelas redes sociais, o ministro disse que “alguma forma de regulamentação” poderia ser imposta às plataformas para combater as “notícias falsas”. Ele voltou ao tema ao comentar a escolha de Gana pelo Twitter:

“Os jornalistas nigerianos pintaram a Nigéria como um inferno onde ninguém deveria viver”.

Twitter segue o Google

O Twitter junta-se ao Google e a outras empresas de TI com escritórios em Gana. A ministra das comunicações e digitalização de Gana, Ursula Owusu-Ekuful, afirmou à Voice of America que, além da boa governança, o país estabeleceu padrões elevados para fazer negócios.

Em comunicado, o Twitter afirma que a escolha de Gana foi uma forma de se tornar “mais imerso nas comunidades vibrantes que impulsionam as conversas que acontecem todos os dias em todo o continente africano”.

De acordo com o Relatório Digital 2021 da Hootsuite, havia 14,7 milhões de usuários da internet em Gana em janeiro de 2020. O país tem seis milhões de usuários de mídia social.

“Celeiro de inovação”

Em entrevista à BBC, o ex-executivo sênior do Twitter Bruce Daisley avalia que a decisão torna Gana o “celeiro da inovação” na África.

George Appiah, diretor executivo do Ghana Tech Lab, destacou à BBC a descentralização como a força do setor de tecnologia ganense:

“Em comparação com outros países africanos, onde você encontra o espaço tecnológico prosperando em apenas uma cidade como Nairóbi ou Lagos, em Gana temos o setor crescendo, com muitas startups em Kumasi, em Takoradi, em Tamale e na capital Acra.”

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