Londres – A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) inaugurou no domingo (13) um centro de liberdade de imprensa na cidade de Lviv, no oeste da Ucrânia, para concentrar o apoio a jornalistas que cobrem o conflito no país.

A inauguração aconteceu duas semanas após a Rússia invadir o território vizinho e no mesmo dia em que o jornalista americano Brent Renaud, de 50 anos, foi morto a tiros por soldados russos na cidade de Irpin, próximo à capital Kiev.

Além de Renaud, outro jornalista já morreu durante a cobertura da guerra e ao menos cinco ficaram feridos após ataques intencionais de soldados russos. A RSF monitora todos os casos de crimes contra à imprensa na região.

Coletes à prova de balas para jornalistas na Ucrânia

“Viemos aqui para expressar nossa solidariedade aos jornalistas ucranianos e fornecer a eles a melhor assistência possível na cobertura da guerra”, disse o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire, durante a inauguração do novo centro em Lviv.

A unidade da RSF na cidade ucraniana é localizada no mesmo prédio do Centro Internacional de Mídia de Lviv.

No local, a ONG está distribuindo conjuntos individuais de equipamentos de proteção para jornalistas com a ajuda da Network for Reporting on Eastern Europe, com sede em Berlim, e do grupo de imprensa sueco Bonnier.

Bonnier coletou 30 coletes à prova de balas e capacetes que estavam nas redações de seus vários meios de comunicação (Dagens Nyheter, Dagens industri e Expressen), com a ajuda do grupo Schibsted e da emissora nacional sueca Sveriges Television.

“Vamos distribuir coletes à prova de balas nos pontos mais afetados do país”, disse Oksana Romaniuk, diretora do Instituto de Informação de Massa (IMI) da Ucrânia, referindo-se à violência contra jornalistas que cobrem a guerra na Ucrânia nos últimos dias.

Desde o início da ofensiva russa, pelo menos 12 jornalistas foram deliberadamente alvejados por combatentes armados e quatro – dois repórteres do jornal dinamarquês Ekstra-Bladet e dois membros de uma equipe de reportagem da Sky News TV do Reino Unido – sofreram ferimentos a bala.

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O caso mais recente é do jornalista americano Brent Renaud, morto após ataque de soldados russos no domingo (13). Ele era um premiado repórter e cineasta que já havia trabalhado como correspondente para o jornal americano New York Times.

Essa foi a primeira morte de um jornalista estrangeiro desde o início da guerra na Ucrânia e alertou entidades de defesa da liberdade de imprensa em todo o mundo para a violência contra os profissionais de mídia in loco.

“Jornalistas são civis que mantêm o mundo informado sobre o andamento dos combates.

Eles devem ser capazes de trabalhar com segurança. Apelamos a todas as partes em conflito para que se comprometam imediatamente a proteger os jornalistas de acordo com o direito internacional.

Também recomendamos que os profissionais tenham o máximo de cautela diante dos muitos ataques de comandos russos enviados à frente como batedores”.

Declarou Jeanne Cavelier, chefe do escritório da RSF na Europa Oriental e Ásia Central, na semana passada.

Para proteger os jornalistas e demais profissionais de mídia que cobrem a guerra, a RSF pediu às autoridades polonesas e ucranianas que facilitem o fornecimento de coletes à prova de balas no novo centro em Lviv.

A circulação de equipamentos precisa de licenças específicas que impedem sua entrega rápida na Ucrânia. Deloire também pediu aos países democráticos que emitam vistos para jornalistas e instem a Rússia a respeitar a Resolução 2222 do Conselho de Segurança da ONU sobre proteção de jornalistas.

Nesta semana, o centro ucraniano da RSF começará a oferecer treinamento em segurança física e primeiros socorros aos jornalistas que comparecerem  no local ou participarem por videoconferência.

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cinegrafista Evgeny Sakun, da Kiev Live TV, morreu após ser atingido no bombardeio da torre de televisão de Kiev, no dia 1º de março. Ao menos outros cinco repórteres foram atacados a bala de forma deliberada desde o início da invasão russa.

Semelhante ao caso que terminou com o jornalista americano Brent Renaud morto, o fotógrafo suíço Guillaume Briquet também teve o carro alvejado por membros de um comando especial russo.

O ataque ocorreu logo após o profissional de imprensa passar por um posto de controle ucraniano em uma estrada em direção à cidade de Mykolaiv, enquanto cobria o avanço russo na região.

Apesar das diversas sinalizações de “Imprensa” no carro e em seu colete à prova de balas, Briquet, um experiente repórter de guerra, foi abordado pelos soldados e teve 3.000 euros e os equipamentos de reportagem roubados.

“Eles estavam a menos de 50 metros de distância”, relatou o fotógrafo à RSF. Ele foi ferido no rosto e no braço por estilhaços de vidro de seu para-brisa.

“Eles atiraram para matar. Se eu não tivesse me abaixado, teria sido atingido. Já fui alvejado em outras zonas de guerra, mas nunca vi isso. Jornalistas que viajam pelo país sem experiência de guerra estão em perigo mortal.”

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