Advogados do ex-presidente dos Estados Unidos Joe Biden acionaram a Justiça para impedir a divulgação de mais de 70 horas de áudios dele conversando com seu biógrafo, Mark Zwonitzer.
Os documentos constam em uma investigação que acabou com um procurador dos EUA afirmando que o declínio mental do democrata era sabido, mas foi ocultado pela sua equipe no seu primeiro mandato.
Segundo os advogados do ex-presidente, as conversas são privadas e têm detalhes pessoais irrelevantes para a população. Eles acusam o governo de usar processos movidos por republicanos para expor indevidamente Biden e sua família.
O material não é novo: foi gravado dez anos atrás e chegou às mãos da Justiça em 2017. A questão é que só agora, sob comando de Donald Trump, ele corre risco de virar público.
Como entrevista chegou às mãos de procurador dos EUA
Os áudios de Biden com Zwonitzer estavam em um HD fornecido pelo próprio autor à Justiça durante uma investigação contra o democrata. A investigação federal aberta em 2023 analisava o manuseio de documentos confidenciais por parte dele.
Naquele ano Biden era presidente, mas documentos da época em que ele era vice de Barack Obama foram encontrados no Penn Biden Center, em uma sala que era dele quando ele lecionava na Universidade da Pensilvânia e estava prestes a ser esvaziada.
Robert Hur concluiu a investigação em 2024 e não acusou o presidente, mas sugeriu que o governo escondeu áudios que demonstram um “declínio no estado mental de Biden”.
Naquele mesmo ano, Biden desistiu de tentar a reeleição após preocupações com a sua saúde. A oposição usou trechos de reportagens em que ele parecia confuso para descredibilizar o presidente e Kamala Harris acabou como indicada para representar os democratas nas eleições, perdendo para Donald Trump.
Departamento de Justiça “mudou de ideia” após Trump assumir
Diante do parecer de Hur, opositores foram à Justiça pedir a divulgação dos áudios de Biden e documentos da investigação. A princípio, o Departamento de Justiça negou a divulgação alegando motivos de privacidade, mas essa visão mudou em 2025.
No ano passado, sob o comando de Donald Trump, o órgão acusou a gestão anterior de “tentar esconder os áudios que mostram claramente um declínio das capacidades cognitivas de Joe Biden”. Como resposta às solicitações da oposição do democrata na Justiça, o órgão federal disse que divulgaria os dados em 15 de junho de 2026 – a não ser que uma decisão judicial impedisse tal divulgação.
Foi aí que os advogados do ex-presidente entraram em ação. Eles acionaram a Justiça nessa terça-feira (26), pedindo uma “intervenção judicial urgente” para bloquear a entrega.
Entre as muitas alegações dos advogados estão de que não há “propósito legislativo” na divulgação dos documentos. “O pedido é pretextual, carece de propósito legislativo legítimo, está fora do âmbito das competências investigativas da comissão”, diz trecho do processo divulgado pelo jornal The New York Times.
O que diz a defesa de Biden
Os advogados de Joe Biden também afirmaram que, assim como outros americanos, o ex-presidente tem direito à privacidade de suas conversas pessoais. Ao acionar a Justiça dos EUA eles falaram, ainda, que o democrata e o seu biógrafo nunca quiseram divulgar as conversas.
Para além dessas alegações, o ex-presidente cita que tópicos sensíveis estão na documentação reunida pelo Departamento de Justiça. Segundo eles, Biden pediu a ocultação de trechos dos documentos “necessários para proteger adequadamente os interesses de privacidade do presidente”, o que não aconteceu.
A Justiça não informou até o momento se já apreciou os pedidos da defesa.
Entre os temas discutidos nas mais de 70 horas de gravação estariam a decisão de não concorrer à eleição em 2016. Além disso, ele falou sobre o luto pela morte do filho dele.
O livro de memórias de Biden
As entrevistas que estão no centro da polêmica originaram o livro “Promise Me, Dad”, publicado em 2017. Assinado por Biden, o livro contou com ajuda de Mark Zwonitzer, que é biógrafo e ghostwriter.
A publicação foca nos últimos anos de Biden como vice-presidente, enquanto o filho dele, Beau Biden, lutava contra um câncer cerebral. O título da publicação, inclusive, faz menção direta a uma conversa entre os dois, quando Beau pediu que o pai não desistisse dos seus objetivos, mesmo quando ele morresse. Beau morreu em 2015, aos 46 anos.
Apesar de entregar os documentos ao FBI, o biógrafo de Biden tentou apagar algumas das gravações. Ele afirmou que teve medo de virar alvo de hackers.
A polícia recuperou os áudios em questão após o escritor entregar seus aparelhos eletrônicos. Em depoimento ao senado dos EUA, Hur afirmou que “provas incriminatórias” estavam entre os itens deletados.
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