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Jornalismo e clima

Dia do Meio Ambiente: RSF lembra Dom Philips e lista 10 ameaças ao jornalismo climático no mundo

Riscos para profissionais de imprensa que cobrem o clima vão além da violência física, incluindo também assédio digital, judicial, barreiras de acesso e intimidação de fontes

Dom Philips jornalista inglês morto na Amazônia do Brasil em 2022

Dom Philips, jornalista inglês que morreu na Amazônia em 2022 (Foto: perfil Twitter)




Para marcar o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho — o mesmo dia em que o jornalista ambiental Dom Phillips foi assassinado na Amazônia brasileira em 2022 – a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) listou as 10 principais ameaças ao jornalismo ambiental.

O Dia Mundial do Meio Ambiente  foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 15 de dezembro de 1972 em uma conferência de Estocolmo, na Suécia, cujo tema foi o Ambiente Humano.

O principal objetivo da data é promover ações globais de conscientização e proteção dos recursos naturais, e para isso o papel do jornalismo é vital para mobilizar a sociedade, cobrar ação de governos e denunciar más práticas.

No entanto, as ameaças são cada vez maiores, com jornalistas ameaçados, silenciados e até mortos, como aconteceu com o inglês.

Philips foi assassinado há quatro anos junto com o especialista em assuntos indígenas brasileiros Bruno Pereira.

Os nove indivíduos acusados pela polícia federal em conexão com o crime, cometido no Vale de Javari, ainda estão aguardando julgamento.

A RSF aproveitou a data para pedir mais proteção dos jornalistas e o direito a informações confiáveis, que são indispensáveis para uma ação transformadora e eficaz contra as mudanças climáticas.

1. Acesso bloqueado a jornalistas ambientais

Antes mesmo de poderem tirar seu notebook ou câmera, os jornalistas especializados em assuntos ambientais muitas vezes enfrentam um grande obstáculo: o acesso físico, aponta a RSF.

 Essa realidade é ainda mais preocupante porque quase dois terços dos recursos naturais do mundo são extraídos em países onde a liberdade de imprensa é seriamente restrita.

Em alguns estados, como Arábia Saudita e China, as zonas de extração estão praticamente fechadas para jornalistas por causa das restrições impostas à imprensa.

Em outros lugares, os conflitos armados tornam impossível denunciar a crise do clima. É o caso da República Democrática do Congo (RDC) e em vários países do Sahel africano, que são ricos em recursos naturais, mas devastados pela insegurança, tornando o jornalismo ambiental extremamente difícil, se não impossível.

2. Falta de acesso à informação

O acesso à informação é outro campo de batalha para jornalistas ambientais. Ao retornar à Casa Branca, Donald Trump lançou uma ampla reversão de informações ambientais públicas nos Estados Unidos, destacou a Repórteres Sem Fronteiras.

. No final de janeiro de 2025, milhares de páginas da web hospedadas por agências federais — incluindo a Agência de Proteção Ambiental (EPA) — foram removidas. A remoção de dados que servem ao interesse público prejudica o direito à informação para jornalistas e cidadãos.

Plataformas online também podem se tornar ferramentas de censura. Na Índia, uma investigação em vídeo publicada pela Ecosystem Relation Communities — uma rede de jornalistas e redações que colaboram em crimes ambientais — sobre o deslocamento forçado de comunidades ligadas à construção de um data center foi bloqueada no Instagram sob a Lei de Tecnologia da Informação.

3. Fontes ameaçadas

O jornalismo ambiental depende muito de fontes que, quando concordam em falar, se expõem a riscos significativos de retaliação.

Vários ativistas cambojanos apresentados em um relatório do canal de televisão francês France 24 — que o Ministério do Meio Ambiente de Camboja alegou ser “notícias falsas” — foram presos e posteriormente libertados com a condição de que cessassem todo o contato com jornalistas estrangeiros.

O jornalista ambiental britânico Gerald Flynn, que também apareceu no documentário, foi colocado em uma lista negra desde novembro de 2024, o que efetivamente o impede de retornar ao Camboja, disse a organização.

4. Assédio digital

As plataformas online se tornaram ferramentas poderosas para intimidar jornalistas. Em junho de 2025, a jornalista freelancer ucraniana Olena Mudra foi alvo de uma campanha de difamação online depois de publicar uma série de investigações sobre um controverso projeto de parque eólico nas Montanhas dos Cárpatos da Transcarpátia, oeste da Ucrânia.

Imagens manipuladas retratando-a em um uniforme militar russo circularam online, acompanhadas de acusações de que ela estava conduzindo investigações enganosas em nome de Moscou, segundo a RSF.

5. Redaçãos sob ataque

Os próprios meios de comunicação não são poupados. Em 5 de janeiro de 2026, cerca de 50 criadores de ostras incendiaram o portão do jornal diário francês Midi Libre em Saint-Jean-de-Védas, sul da França, depois que o jornal informou sobre a proibição da venda de ostras da lagoa Thau.

Em resposta ao ataque, o editor-chefe Olivier Marino enfatizou que relatar medidas de saneamento público é “uma questão de informação pública e saúde pública”.

6. Assédio judicial

Para silenciar os jornalistas, alguns dos indivíduos alvo de suas investigações utilizam o sistema judicial. Ações judiciais estratégicas contra a participação pública (SLAPPs) — processos legais abusivos destinados a intimidar profissionais da mídia, drenar seus recursos financeiros e, em última análise, impedir o escrutínio de questões de interesse público — estão sendo cada vez mais usadas contra jornalistas que cobrem questões ambientais.

Na França, uma figura de liderança no poderoso lobby da indústria suína bretã processou o meio de investigação Splann! após uma investigação publicada em maio de 2024. O caso foi finalmente arquivado um ano depois pela câmara de investigação do Tribunal de Apelação de Rennes, destacando a natureza intimidante de tais processos, na avaliação da Repórteres Sem Fronteiras.

7. Violência física em protestos

A organização destacou que ser jornalista — e claramente identificado como um — não é mais suficiente para garantir proteção. Prisões durante protestos estão se tornando cada vez mais comuns, inclusive durante a cobertura de questões ambientais.

No final de março de 2025, o jornalista Sumit Jha foi preso pela polícia enquanto relatava manifestações contra a limpeza de terrenos arborizados no campus da Universidade de Hyderabad, em Telangana.

8. Detenção de profissionais de imprensa

Em muitos países, documentar questões ambientais pode levar diretamente à prisão. Em Mianmar, a documentarista e jornalista Shin Daewe, conhecida por seu trabalho sobre questões ambientais e as consequências da guerra civil, foi presa em outubro de 2023 enquanto trabalhava em um documentário.

Falsamente acusada de “institur o terrorismo” pela junta militar, ela foi condenada à prisão perpétua em janeiro de 2024, uma sentença posteriormente reduzida para quinze anos. De acordo com seus parentes, ela foi submetida a repetidos interrogatórios e torturas enquanto estava detida. Depois de 915 dias atrás das grades, ela foi finalmente libertada em abril de 2026 como parte de uma anistia, informou a RSF.

9. Ameaças de morte e assassinato

O caso de Dom Philips não é único. Na Turquia, o jornalista ambiental e documentarista Hakan Tosun morreu em Istambul em 13 de outubro de 2025, três dias depois de ser vítima de um ataque extremamente violento.

Conhecido por seus documentários sobre questões ambientais, políticas de planejamento urbano e movimentos sociais, ele passou vários anos investigando conflitos de uso da terra.

Em Moçambique, Carlitos Cadangue, jornalista do canal de televisão privado STV, sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 4 de fevereiro de 2026. Por vários meses, ele documentou atividades ilegais de mineração e expôs o suposto envolvimento de vários atores nessas redes de tráfico.

10. Exposição a riscos ambientais

Cobrir questões ambientais também significa estar diretamente exposto às consequências das mudanças climáticas. Ciclones, inundações, incêndios florestais e secas colocam jornalistas em perigo e enfraquecem as redações locais, que muitas vezes estão na linha de frente da informação das comunidades afetadas.

Em Mayotte, o ciclone Chido, que atingiu o arquipélago em dezembro de 2024, devastou os meios de comunicação locais junto com o resto do território, interrompendo severamente a cobertura do desastre por meses.

No Brasil, as inundações que devastaram o Rio Grande do Sul na primavera de 2024 também atingiram duramente a mídia regional: as redações foram inundadas, o equipamento foi danificado e as condições de reportagem foram perigosas.

De acordo com informações da RSF, mais de 70% dos meios de comunicação no estado não tinham plano de emergência em vigor.


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