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Violência contra jornalistas

Reconstituição confirma que repórter libanesa ficou viva por horas sem socorro após ataque de Israel

Investigação do Washington Post reconstituiu as últimas horas de Amal Khalil e apurou que equipes de resgate não tiveram autorização para chegar até ela enquanto ainda estava viva

Cortejo fúnebre da jornalista Amal Khalil, morta no Líbano por ataque de Israel

Cortejo fúnebre da jornalista libanesa reuniu milhares de pessoas (foto: reprodução livestream)




Uma reconstituição detalhada feita pelo jornal Washington Post confirmou a suspeita de que a jornalista libanesa Amal Khalil permaneceu viva por aproximadamente duas horas e meia após ser ferida em um ataque aéreo israelense no sul do Líbano, enquanto equipes de resgate aguardavam autorização do exército de Israel para chegar ao local.

Repórter do jornal libanês Al-Akhbar, Khalil foi morta em 22 de abril, aos 42 anos, após uma sequência de três ataques aéreos israelenses.

Amal Khalil (foto: Wikipedia)

A investigação do Post se baseou em registros médicos, imagens de satélite, registros de chamadas e entrevistas com 17 sobreviventes, testemunhas, socorristas e autoridades militares.

Segundo o jornal, equipes do Exército libanês, da Defesa Civil e da Cruz Vermelha ficaram à espera de autorização para chegar ao local onde ela estava ferida. O Post apurou que esse atraso ocorreu em um período considerado crucial para sua sobrevivência.

Três ataques sucessivos

Khalil havia viajado ao sul do Líbano com a jornalista visual Zeinab Faraj para documentar os efeitos dos ataques aéreos israelenses e das demolições controladas na região. Elas estavam em al-Tiri, uma vila libanesa próxima da fronteira com Israel.

Segundo o relato reconstruído pelo Post e confirmado pela Repórteres Sem Fronteiras, dois homens que acompanhavam a equipe estavam em outro carro, à frente do veículo das jornalistas, quando o primeiro ataque atingiu o automóvel, às 14h30. Os dois morreram.

Pouco depois, Khalil enviou uma mensagem de voz ao irmão dizendo que o carro à frente havia sido atingido, mas que ela estava bem.

Na gravação analisada pelo jornal, ela dizia que aguardava a Cruz Vermelha e a força de paz da ONU no Líbano, a UNIFIL, por precaução.

O segundo ataque, por volta de 16h destruiu o carro das jornalistas. O terceiro, às 16h27 depois, derrubou o prédio onde Khalil e Faraj haviam se abrigado.

Khalil ficou ferida e presa nos escombros. Faraj sobreviveu e falou ao Washington Post de seu leito de hospital.

Socorristas aguardaram autorização para entrar na área

De acordo com a reconstituição do jornal americano, os socorristas estavam a cerca de oito quilômetros do local onde a jornalista estava e aguardavam autorização por meio de intermediários internacionais.

Duas pessoas familiarizadas com as discussões sobre a liberação disseram ao jornal que as Forças de Defesa de Israel não haviam dado sinal verde para a entrada das equipes.

Os socorristas chegaram a se aproximar do prédio pouco antes das 18h, mas recuaram depois que uma granada de efeito moral explodiu perto de onde estavam.

A autorização israelense, segundo o Washington Post, só foi enviada aos intermediários por volta das 20h15. O prontuário médico registra a morte da jornalista às 19h.

Às 20h26, as Forças de Defesa de Israel afirmaram no Telegram que não estavam “impedindo equipes de resgate de chegar à área” e que atuavam para reduzir danos a jornalistas, mantendo a segurança de seus soldados.

Naquele momento, a situação de Khalil já havia se tornado pública. A Repórteres Sem Fronteiras estava entre as organizações que pediam pressão internacional para que os militares israelenses permitissem o acesso dos socorristas.

Israel diz que investigará o caso

O Exército israelense afirmou que dois homens que acompanhavam a equipe, Ali Nabil Bazi e Mohammed Al-Kourani, seriam integrantes militares do Hezbollah e seriam os alvos dos ataques.

Segundo o Washington Post, Israel não apresentou evidências de que os dois homens fossem agentes militares do grupo.

O Exército israelense também não respondeu, de acordo com o Post, sobre o motivo do segundo e do terceiro ataques, realizados depois que os alvos iniciais já haviam sido atingidos.

Em nota, as Forças de Defesa de Israel disseram que “lamentam o ferimento da jornalista” e que tratam o incidente “com a máxima seriedade”. O Exército israelense afirma que não mira jornalistas.

Organizações cobram investigação

Organizações de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos condenaram o ataque e a demora no acesso médico.

Segundo o Washington Post, grupos afirmam que o ataque contra uma jornalista e a negação de acesso a atendimento podem configurar crimes de guerra sob as Convenções de Genebra.

O diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany, pediu uma investigação sobre a morte de Khalil. Ele afirmou que jornalistas têm papel crucial para garantir o fluxo de informação em situações de conflito e que sua proteção é essencial para todas as partes.

Bloqueio a socorro após ataques que vitimaram jornalistas

A diretora-executiva do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Jodie Ginsberg, disse que este não é o primeiro caso em que Israel impediu serviços de emergência de chegar a jornalistas feridos por seus ataques.

Ela citou o caso do cinegrafista da Al Jazeera Samer Abu Daqqa, que morreu em dezembro de 2023 depois de ser ferido por um ataque israelense em Khan Younis, na Faixa de Gaza, enquanto equipes de resgate tentavam alcançá-lo.

“Jornalistas são civis e são protegidos pelo direito internacional. O flagrante desrespeito de Israel por essas normas — e a incapacidade da comunidade internacional de responsabilizá-lo — é abominável”, afirmou Ginsberg, em declaração citada pelo Washington Post.

Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), Khalil é a nona jornalista ou profissional de mídia morta no Líbano em 2026.

Em 2025, quando um recorde de 132 jornalistas foram mortos no mundo, a maioria das mortes se concentrou em Gaza, e o CPJ apontou Israel como responsável por dois terços delas.


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