Vinte e cinco anos depois, o legado dos ataques de 11 de Setembro vai além dos efeitos físicos e econômicos iniciais.
Os acontecimentos de 11 de setembro de 2021 e a subsequente “guerra ao terror” abalaram profundamente a confiança na mídia tradicional nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, abrindo caminho para o ambiente de informação fragmentado e altamente polarizado de hoje.
Quando o patriotismo entrou nas redações
Nos dias e semanas após os ataques, jornalistas americanos enfrentaram um dilema: manter os padrões profissionais de objetividade, equilíbrio e imparcialidade ou “cerrar fileiras em torno da bandeira” em apoio ao Estado.
Muitos escolheram a segunda opção, e um forte sentimento patriótico tomou conta das redações americanas.
Jornalistas e apresentadores usavam broches com a bandeira dos Estados Unidos, enquanto emissoras adotavam slogans como “America Under Attack” (“América sob ataque”) nos telejornais noturnos.
O veterano apresentador Dan Rather expressou esse tom patriótico durante uma entrevista emocionada ao apresentador David Letterman: “George Bush é o presidente, ele toma as decisões… onde quer que ele queira que eu esteja, basta me dizer onde”.
Em um discurso feito dias depois dos ataques, Bush estabeleceu a narrativa que definiria grande parte do período pós-11 de Setembro:
“Um grande mal nos foi causado. Sofremos uma grande perda. E, em nossa dor e nossa raiva, encontramos nossa missão e nosso momento. Liberdade e medo estão em guerra. O avanço da liberdade humana — a grande conquista do nosso tempo e a grande esperança de todos os tempos — agora depende de nós.
Nossa nação — esta geração — eliminará a sombria ameaça de violência contra nosso povo e nosso futuro. Mobilizaremos o mundo para essa causa por meio de nossos esforços, de nossa coragem.
Essa mensagem, denominada por estudiosos de narrativa da “guerra ao terror”, ajudou a justificar a enorme resposta militar dos Estados Unidos aos ataques, que se estendeu por décadas.
A mídia acompanhou a narrativa do governo
As redações, em vez de atuarem como fiscais críticos do poder, acabaram, segundo essa interpretação, reproduzindo essa narrativa.
Estudo após estudo mostrou como jornalistas se alinharam ao enquadramento do governo, enquanto organizações de notícias aumentaram significativamente o uso de termos como “guerra”, “terror” e “liberdade” em seu noticiário.
Esse é um exemplo do que estudiosos da mídia chamam de reinstitucionalização. Isso ocorre quando um pequeno grupo de fontes políticas assume o controle da narrativa após uma crise e impõe sua interpretação à mídia.
Esse tipo de cobertura patriótica não ficou restrito aos Estados Unidos.
Veículos de comunicação do Reino Unido, da Espanha e da Alemanha adotaram padrões de cobertura muito semelhantes.
Islamismo e terrorismo passaram a ser associados
Um tema encontrado na mídia de vários países foi a associação entre islamismo e terrorismo.
Nos anos posteriores ao 11 de Setembro, ataques terroristas nos Estados Unidos teriam recebido 357% mais atenção da imprensa quando o autor era identificado como muçulmano.
Isso apesar das evidências de que ataques cometidos por extremistas de direita têm sido muito mais frequentes nos Estados Unidos pelo menos desde 2001. Padrões semelhantes surgiram no Reino Unido e na Europa.
Como o consumo de notícias mudou desde o 11 de Setembro
Quase 90% dos americanos receberam pela televisão as notícias sobre o 11 de Setembro. Mas muita coisa mudou no quarto de século que se passou desde então.
Um aumento inicial no consumo de notícias nos Estados Unidos após o 11 de Setembro deu lugar ao cansaço, e hoje americanos mais jovens consomem menos notícias ou até as evitam completamente.
O surgimento de novas tecnologias ao longo dos anos 2000 teria acelerado essas mudanças. Hoje, os níveis de confiança nas notícias permanecem próximos de mínimas históricas nas democracias ocidentais.
Para muitas pessoas — especialmente minorias étnicas —, a percepção de parcialidade na cobertura dos ataques e da invasão do Iraque prejudicou a credibilidade das organizações de notícias.
Pesquisas realizadas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália mostraram como atitudes negativas em relação à mídia tradicional levaram pessoas a “se afastar ativamente” das fontes tradicionais e procurar formas alternativas de participação política.
Teorias conspiratórias ganharam espaço
Os primeiros sinais desse afastamento puderam ser vistos poucas semanas depois do 11 de Setembro.
Enquanto jornalistas cerravam fileiras em torno da bandeira, contranarrativas populares e teorias conspiratórias surgiram para especular sobre os “verdadeiros” motivos por trás dos ataques.
Essas versões produzidas de baixo para cima iam desde alegações de que os Estados Unidos haviam “encenado” o 11 de Setembro até temores mais amplos, muitas vezes antissemitas, sobre o surgimento de um sinistro “governo mundial”.
Embora haja debate sobre até que ponto essas teorias conspiratórias eram disseminadas na época, pesquisas sugerem que elas ajudaram os americanos, ao mesmo tempo, a processar o trauma do 11 de Setembro e a explorar conexões ausentes das narrativas da mídia tradicional.
Ao fazer isso, porém, segundo estudiosos, também contribuíram para alimentar uma crescente perda de confiança na mídia tradicional.
Memes e humor mudaram a memória do 11 de Setembro
Para as gerações mais jovens, a memória do 11 de Setembro — e a subsequente queda da confiança — passou a ser moldada menos pela cobertura jornalística tradicional e mais pelo surgimento de subculturas online, humor ácido e memes de internet.
Um exemplo é a teoria conspiratória que virou meme: “combustível de avião não derrete vigas de aço”.
Popularizada inicialmente como um argumento sério pelos teóricos conspiracionistas do movimento “9/11 truth”, a frase se tornou uma piada online amplamente usada para ridicularizar o pensamento conspiratório.
Pesquisas sugerem que o humor ácido pode funcionar como mecanismo de enfrentamento para gerações mais jovens e alienadas ao navegar por ambientes de mídia hiperpolitizados.
Ele pode reduzir a barreira de entrada, permitindo que as pessoas se tornem criadoras ativas de conteúdo político, em vez de consumidoras passivas.
Ao mesmo tempo, porém, críticos argumentam que o uso desses formatos aparentemente inofensivos pode ajudar a fortalecer comunidades online e normalizar posições políticas extremas.
Como resultado, isso pode enfraquecer ainda mais a confiança nas instituições tradicionais. De fato, grande parte do conteúdo online reproduz o mesmo tipo de islamofobia explícita observado nos primeiros anos da “guerra ao terror”.
Uma era de desinformação
A cobertura do 11 de Setembro é um exemplo de como a mídia tradicional pode, inadvertidamente, contribuir para o próprio declínio.
Ao deixar de lado normas jornalísticas básicas em favor de um consenso patriótico e de narrativas impostas de cima para baixo e movidas pelo medo, as organizações de notícias ajudaram a transformar o ceticismo do público sobre as razões por trás dos ataques terroristas em um cinismo profundamente enraizado.
As teorias conspiratórias que surgiram após o 11 de Setembro ajudaram a lançar as bases da moderna “era da desinformação”, da ascensão do QAnon ao negacionismo sobre a Covid-19.
Vinte e cinco anos depois, vivemos no ambiente de informação que o 11 de Setembro ajudou a construir: um ambiente em que a autoridade institucional é rotineiramente rejeitada, a confiança está fragmentada segundo divisões partidárias e a fronteira entre notícias, ressentimento político e entretenimento viral tornou-se permanentemente difusa.
Este artigo foi publicado originalmente pelo The Conversation sob licença Creative Commons.
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