Pesquisas sobre os efeitos negativos das redes sociais no bem-estar de jovens, derrotas das plataformas em processos judiciais, questionamentos sobre privacidade e regulamentações mais duras em vários países podem estar levando adultos a repensar sua presença online, como sugere um estudo do Ofcom, órgão regulador das comunicações no Reino Unido.
Desde 2005, o regulador realiza duas pesquisas anuais simultâneas, uma quantitativa e outra qualitativa, para entender como os adultos usam diferentes mídias e tecnologias para acessar serviços, se relacionar, se informar e se divertir, além do que pensam sobre temas como confiança na mídia, inteligência artificial e desinformação.
Na etapa quantitativa, foram ouvidos neste ano mais de 7,5 mil adultos. Já a qualitativa envolveu um painel de 20 participantes, os mesmos desde que o estudo começou.
Adultos mudam a relação com redes sociais e sites
Apesar de toda a controvérsia em torno dos perigos e efeitos negativos das redes, seu uso não caiu entre os britânicos: nove em cada 10 internautas no país acessam pelo menos uma plataforma. Na faixa etária de 16 a 34 anos, esse percentual chega a 97%.
A pesquisa constatou, no entanto, que o uso das redes está se tornando mais “passivo e circunspecto”.
Pouco menos da metade dos entrevistados, 49%, disseram postar, compartilhar ou comentar ativamente nas mídias sociais, enquanto a maioria agora prefere usar as plataformas para ver conteúdo, principalmente de criadores e não de conhecidos, sem interagir.
Há apenas dois anos, 61% afirmavam fazer esse tipo de interação com frequência.
O estudo também mostrou que o medo de problemas futuros causados por postagens antigas cresceu de um ano para o outro. No levantamento anterior, 43% dos entrevistados demonstraram essa preocupação. Em 2026, o índice subiu para 49%.
Segundo o relatório, alguns deixaram de postar completamente, enquanto outros passaram a prestar mais atenção à própria pegada digital, preferindo conteúdos com vida útil limitada, como os Stories do Instagram, em vez de publicações permanentes.
Riscos e benefícios da vida online
A proporção de adultos que consideram que os benefícios de estar online superam os riscos caiu de 72% para 59% em um ano.
Apenas 36% dos usuários de redes sociais afirmam que essas plataformas são benéficas para sua saúde mental, em comparação com 42% no levantamento anterior.
As preocupações com o comportamento online são frequentes: 43% dos usuários dizem que as pessoas são “frequentemente” ou “sempre” maldosas nesses ambientes, e 27% afirmam ver com frequência pontos de vista dos quais discordam.
A preocupação com o tempo de tela também é significativa. Ao todo, 67% afirmam que às vezes passam tempo demais diante das telas, e 40% dizem que isso acontece quase todos os dias.
Apesar disso, muitos adultos relatam benefícios: 71% dizem que estar online ampliou sua compreensão do mundo, e 62% afirmam que isso os ajudou a aprender uma nova habilidade.
Plataformas mais populares variam conforme a idade
O uso das plataformas permanece fortemente desigual entre as faixas etárias, de acordo com a pesquisa do Ofcom. O Snapchat é usado por 78% dos jovens de 16 a 24 anos, em comparação com 3% dos maiores de 75 anos. No TikTok, a diferença é de 83% contra 7%.
O WhatsApp é amplamente utilizado em todas as faixas etárias, e o Facebook continua sendo o mais popular entre o grupo mais velho, com 81% dos usuários online com 75 anos ou mais.
Na etapa qualitativa da pesquisa, o LinkedIn emergiu como plataforma em crescimento. No entanto, o uso foi descrito como para trabalho e não lazer, principalmente para atualização sobre possíveis oportunidades de emprego.
Os usuários mais assíduos são os mesmos participantes que expressaram maior preocupação com a segurança de seus empregos, especialmente em relação à IA.
Os participantes das discussões em grupo indicaram também que o uso do Instagram e do Facebook, em particular, tornou-se mais limitado e direcionado – com menos publicações e, em alguns casos, foco em recursos específicos, como a participação em grupos locais para se manterem informados sobre notícias e eventos da região.
Confiança nas notícias continua sob pressão
A maioria dos adultos entrevistados, 85%, afirmou recorrer à mídia tradicional para se informar, mas a confiança nela varia.
Cerca de um em cada cinco, 19%, dizem sempre confiar nesse conteúdo, enquanto uma proporção semelhante, 21%, afirma sempre questionar sua precisão.
De acordo com o relatório do Ofcom, as experiências nas redes sociais ajudam a criar incerteza sobre em que confiar: 56% dos usuários dessas plataformas afirmam ter visto notícias falsas ou enganosas no último ano.
Na hora de tirar dúvidas, as seções de comentários apareceram como opção para 41% dos entrevistados, sugerindo que as reações de outros usuários podem desempenhar um papel relevante na formação da confiança.
Uso da IA cresce, mas ceticismo segue alto
A pesquisa quantitativa do Ofcom apurou que mais adultos estão usando inteligência artificial em comparação com o ano passado, mas o ceticismo persiste.
Pouco mais da metade dos adultos, 54%, diz usar ferramentas de IA, em comparação com 31% no ano passado.
E, para reforçar as preocupações da indústria de mídia com o efeito da IA sobre o tráfego, três quartos dos adultos online, 75%, leem resumos de pesquisa gerados por ela pelo menos ocasionalmente.
No entanto, as atitudes em relação às notícias geradas por IA são cautelosas: 57% dos adultos que conhecem a tecnologia dizem que confiariam menos nelas do que em uma notícia escrita por um humano.
Privacidade e personalização de conteúdo dividem opiniões
Quase nove em cada dez adultos entrevistados pelo Ofcom sabem que as empresas coletam seus dados, mas apenas 31% conseguem identificar, a partir de uma lista, todas as principais formas como isso acontece.
A percepção de que o conteúdo online é personalizado caiu para 76%, depois de atingir 85% no ano passado.
As opiniões sobre o uso de dados pessoais são divididas: 34% se sentem confortáveis com o uso de suas informações pelas empresas para personalizar o conteúdo exibido, enquanto 37% se sentem desconfortáveis.
Os relatórios completos podem ser visto aqui (quantitativo) e aqui (qualitativo).
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