Um gol contra. A decisão dos seis principais times do futebol inglês, conhecidos como os Big Six, de aderir à Super Liga Europeia não foi bem recebida pela imprensa local. Dos onze principais jornais, só em um o tema não foi assunto de capa.

Dois deles, o Daily Express e o The Sun, destacaram a fúria desencadeada e o Daily Mirror chamou a iniciativa de escandalosa. Nos três jornais, o tema só foi superado pelas notícias da família real neste período pós-funeral do príncipe Philip.

O Daily Express chamou o movimento dos Big Six de conspiração. O The Sun disse que se trata de uma “luta pelo futuro do futebol” e acusou os Big Six de endossarem os “planos do cartel da elite”. Já o Daily Mirror classificou de escândalo a ruptura no futebol europeu apoiada pelos principais times ingleses.

Outro que não gostou da novidade foi o publicitário Washington Olivetto, que mora em Londres e acompanha de perto o futebol europeu: 

“Não foi uma boa ideia”. 

Ele acha que alguns patrocinadores podem ter dinheiro para investir nas duas ligas, enquanto outros terão que escolher uma delas. Mas considera que o que mais destrói o produto futebol é a queda do nível técnico. 

“O maior problema é que o excesso de campeonatos prejudica o nivel fisico dos atletas e consequentemente o nível técnico das partidas. Acho que estava bem do jeito anterior. É basicamente uma ideia de quem não tem limites para as suas ambições.”

Na tarde de segunda-feira (19/4), o convite para assinar uma petição online contra a Super Ligacirculava nas redes sociais.

 

Por que tanta fúria?

Os times ingleses representam metade dos doze times que anunciaram no domingo (18/4) a criação de uma nova liga europeia que vai desafiar a UEFA.  O grupo pretende realizar a partir de agosto uma competição para rivalizar com a Champions League, até agora o maior campeonato de clubes da Europa e do mundo.

Os Big Six incluem Liverpool, penúltimo campeão do mundo e da Champions League, Manchester City e Chelsea, dois dos semifinalistas da atual edição da Champions, e Manchester United, Arsenal e Tottenham Hotspurs. Eles se uniram a três espanhóis e três italianos e o anúncio assombrou o mundo da bola. Nenhum time alemão ou francês quis participar da empreitada.

Um dos ídolos do fundador Manchester United, o ex-zagueiro Gary Neville, é outro crítico da ideia. Na Sky News ele culpou os donos bilionários dos clubes envolvidos, a maioria deles de outros países:

“É pura ganância. Os donos de Manchester United, Liverpool, Chelsea e Manchester City não têm nada a ver com o futebol deste país. Aliás, o Manchester United, o Arsenal e o Tottenham nem conseguiram se classificar para a Champions League. E eles querem o direito permanente de estar lá? Isso é uma piada absoluta.”

As duas principais críticas

São duas as maiores críticas ao novo campeonato idealizado pela Super Liga: a de que seria uma “competição fechada”, que mataria o mérito esportivo e a imprevisibilidade do futebol, e a de que tornaria ainda mais difícil a vida dos clubes menores. Isso porque a competição pretende reservar um lugar cativo, imune a rebaixamentos, para os fundadores da Super Liga.

Os planos iniciais são de uma disputa com 20 clubes, dos quais 15 estariam eternamente garantidos (espera-se a adesão de outros três grandes clubes) e somente cinco vagas seriam destinadas ao acesso e descenso dos clubes menores.

O melhor dos dois mundos

Os clubes donos da bola pretenderiam jogar o campeonato da liga alternativa entre eles no meio da semana e continuar competindo nas ligas nacionais nos fins de semana.

Mas a UEFA já avisou que sua vingança será maligna, se a ideia for adiante. Todos os clubes rebeldes seriam banidos não apenas das competições nacionais, mas também das europeias e do campeonato mundial.

Além disso, seus jogadores seriam proibidos de jogar por suas seleções nacionais. Nesse caso, a Seleção Brasileira seria privada de craques como Firmino, Gabriel Jesus, Thiago Silva, Fernandinho e Willian, para citar apenas alguns. A entidade afirmou:

“Convocamos os que amam o futebol a se engajarem na luta contra esse projeto. O persistente egoísmo de alguns times já foi longe demais. Basta”. 

Lineker pede oposição conjunta dos torcedores

O maior comentarista esportivo do Reino Unido, Gary Lineker, ex-ídolo da seleção inglesa, com oito milhões de seguidores no Twitter, posicionou-se desde o primeiro momento contra a falta de acesso aos demais clubes:

Ele incentivou os torcedores a se posicionarem em conjunto contra o esquema antipirâmide proposto, que não permite que todos da base tenham a chance de chegar ao topo. 

Mais tarde, voltou a atacar a ideia: 

“Nem VAR causou tanta indignação”

A Sky News, que detém os direitos de transmissão dos jogos da Premier League, cujo campeonato pode ser afetado por essa decisão, também não gostou muito da ideia. O site da emissora publicou uma análise assinada por Martha Kelner em que a Super Liga é apontada como uma iniciativa que tem por objetivo colocar mais poder e dinheiro nas mãos da elite dos clubes:

“Nem mesmo a criação do VAR conseguiu causar tanta polêmica e indignação.”

Primeiro-ministro também é contra

Os jornais The Times e The Daily Telegraph dedicaram chamadas de capa ao posicionamento do primeiro-ministro Boris Johnson contra a iniciativa. Numa de suas frases mais fortes, ele disse:

“Faremos tudo o que pudermos para assegurar que essa ideia não vá adiante.”

Um dos membros de seu gabinete, Christopher Pincher, disse à Sky News:

“Não queremos ver uma elite promovendo futebol de elite, jogado pela elite, para a elite.”

Destaque no Financial Times e no The Guardian

A Super Liga ocupou a chamada do alto de página do Financial Times e foi mencionada na principal foto da capa do The Guardian.

A foto do Guardian mostra o retorno dos torcedores (em quantidade limitada) aos estádios ingleses na semifinal vencida neste domingo pelo Leicester, que vai pela primeira vez desde 1969 à final da FA Cup. Uma façanha que dificilmente seria possível nos moldes da competição idealizada pelos clubes da Super Liga.

Premier League diz que Super Liga destroi sonhos

Num comunicado à imprensa, a Premier League, que comanda o futebol inglês, afirmou:

“Os torcedores de qualquer clube na Inglaterra podem sonhar em ver seu time subir ao topo e jogar contra os melhores. Acreditamos que o conceito de uma Super Liga europeia destruiria este sonho.”

O futebol acabou?

Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, casa dos fundadores Manchester City e Manchester United, resumiu a frustração geral em seu Twitter:

“Nunca gostei da frase de que o futebol acabou. Mas com o VAR e agora com isso, nada resume melhor onde estamos. É a frase do dia.”

Menor entre os maiores ou o maior entre os menores?

No meio de todas as análises, uma das melhores tiradas foi a de Jonathan Liew. Num comentário intitulado “Só quem realmente odeia futebol pode estar por trás de uma superliga europeia”, publicado pelo The Guardian, ele perguntou:

“Por que diabos o Tottenham resolveu aderir? Sem os outros, não sabem que esta seria a sua melhor chance de ganhar alguma coisa?”

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