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Família real

‘Pobre Harry’: Daily Mail reage com ironia após derrota de Príncipe e celebridades em processo por invasão de privacidade

Resultado do processo foi favorável ao jornal e causou reações dos requerentes e de uma organização que pede a regulamentação da mídia no país

Príncipe Harry desistiu de processo contra tabloide por difamação

Príncipe Harry, em entrevista ao The Late Show divulgando sua biografia, Spare (screenshot)




O Príncipe Harry perdeu nessa terça-feira (7) um processo contra a editora Associated Newspapers, responsável pelos tabloides  Daily Mail, Mail on Sunday e MailOnline.

Para a Justiça, a acusação dele e de outras seis personalidades de que o jornal invadiu a privacidade e usou métodos ilegais para obter informações, como escutas telefônicas e acesso a dados confidenciais de saúde e bancos, são infundadas.

Entre os autores estão o marido de Elton John e a atriz Liz Hurley.

As reações à sentença foram imediatas. De um lado, o Daily Mail comemorou a vitória, tratou Harry como um “jovem confuso e revoltado” e disse que a batalha custaria milhões aos famosos.

Do outro, os requerentes criticaram a decisão e afirmaram, indiretamente, que a Justiça agiu com dois pesos e duas medidas aceitando a tese de que em muitos casos, vazamentos que deram origem a notícias foram feitos por pessoas do próprio círculo íntimo dos envolvidos.

Diferentemente de outras ações judiciais movidas pelo próprio Harry junto com sua mulher, Meghan, e que resultaram em vitória ou acordo, esta não mirava uma reportagem específica, e sim a alegação de um sistema ilegal mantido pela editora para alimentar o tabloide com notícias sensacionalistas.

E foi isso que a equipe jurídica dos autores não conseguiu provar, em uma derrota também para o famoso advogado de celebridades David Sherborne.

O que diz a sentença

A sentença emitida hoje pelo juiz Matthew Nicklin, do Tribunal Superior Inglês, no processo, rejeitou os argumentos de Harry e de outras celebridades afirmando que eles “não conseguiram comprovar as alegações de coleta ilegal de informações” contra o Daily Mail.

Em um documento de 436 páginas, o magistrado destrinchou 55 reportagens apontadas pelas defesas do grupo.

Ele analisou separadamente cada um dos textos, feitos entre 1997 e 2015, dizendo em cada um deles o porquê de não aceitar as versões da defesa.

Em alguns casos, o juiz chegou a afirmar que documentos eram “incriminadores” e tinham dados “não facilmente explicados”, mas, ainda assim, ele disse que isso “não basta”.

Em dois casos específicos, o da atriz Sadie Frost e do ex-parlamentar Simon Hughes, o juiz explicou que os casos prescreveram, já que aconteceram décadas atrás.

Trocas de mensagens com jornalista do Mail

Um dos momentos que começou a sinalizar a possibilidade de derrota foi em uma das audiências, em que Harry afirmou que não mantinha amigos jornalistas (que pudesse ter acesso a informações sobre ele) e foi confrontado com mensagens trocadas no Facebook com a repórter Charlotte Griffiths, do próprio Daily Mail.

Ele rebateu dizendo que a conheceu em uma festa e que manteve contato até descobrir que ela era jornalista e daí teria interrompido a conversa.

Uma nova audiência para ouvir argumentos das partes foi marcada para o fim deste mês, mas ela é protocolar e não deve alterar a sentença.

Em outro revés, um investigador particular que havia testemunhado negou posteriormente que tenha sido contratado para seguir celebridades, afirmando que suas falas teriam sido forjadas.

Além de emitir a decisão contrária a Harry, o juiz também organizou um cronograma para as partes envolvidas, que inclui o pagamento milionário dos custos processuais.

Como reagiram os derrotados

O processo contra a editora do Daily Mail tramita desde 2022 e não é movido somente pelo Príncipe Harry.

Também estão na ação o cantor Elton John e seu marido, o cineasta David Furnish, a atriz e empresária Elizabeth Hurley, a atriz e diretora Sadie Frost, a baronesa Doreen Lawrence — ativista e mãe de Stephen Lawrence, assassinado em 1993 — e o ex-parlamentar liberal-democrata Sir Simon Hughes.

O ex-parlamentar foi o primeiro a se pronunciar.

Ele classificou a sentença como “muito decepcionante”. “Vou dedicar um tempo para analisar a longa sentença em detalhes e não pretendo fazer mais comentários em um futuro próximo”, afirmou.

A baronesa agradeceu à sua defesa e disse que “parece haver uma regra para os jornais e outra para os demandantes”.

Já Harry classificou a decisão como uma “inversão completa” e disse que as medidas do tribunal são “tão chocantes quanto injustificadas”.

Daily Mail critica Harry e organização rebate

Em um vídeo publicado pouco após a decisão, o ex-diretor do Daily Mail e diretor-chefe da ANL, Paul Dacre, chamou o caso de uma “vitória monumental para os magníficos jornalistas do Associated”.

Ele chamou a ação movida por Harry contra o Daily Mail de um “processo fabricado” e uma “conspiração” e criticou nominalmente o príncipe.

“Não existe lavanderia no cosmos grande o suficiente para lavar toda a roupa suja que [o Príncipe Harry] expôs sobre sua própria família. Pobre Harry. Sinto muito pela forma como um jovem confuso e revoltado foi envolvido neste caso.”

Por outro lado, o grupo Hacked Off, que é ativista pela reforma da imprensa britânica, criticou a decisão e disse que os tribunais “não são o meio adequado para investigar” casos do tipo.

Por meio da sua diretora, Jacqui Hames, o grupo disse que a conduta do Daily Mail foi “aquém dos padrões profissionais” e pediu a abertura de uma investigação pública sobre o assunto.

“A adoção de medidas para melhorar os padrões da imprensa já deveria ter ocorrido há muito tempo e deve ser uma prioridade para o próximo governo.”

Custos milionários

Além de amargar a derrota movida no processo contra o Daily Mail, os requerentes precisarão pagar um valor milionário das custas do processo.

A princípio, o orçamento proposto pelos advogados da editora foi de £ 40 milhões. O juiz, porém, reduziu os custos em quase 90%.

“Em última análise, o tribunal aprovou o orçamento total de custos de 4,084 milhões de libras para os requerentes e de 4,445 milhões de libras para a Associated Newspapers Limited.”, diz a decisão.

Processo aberto em 2022

De acordo com o grupo que moveu o processo contra o Daily Mail com Harry, a Associated Newspapers contratou investigadores particulares para obter ilegalmente informações privadas de diversas formas. Eles denunciam que a empresa:

  • Instalou escutas clandestinas em residências e veículos;
  • Grampeou conversas telefônicas em tempo real;
  • Acessou de forma indevida contas bancárias, históricos de crédito e transações financeiras;
  • Pagou a policiais com vínculos com investigadores particulares para obter informações internas;
  • Acessou registros médicos por meio de identidade falsa em hospitais e clínicas privadas.

A acusação diz que as provas chegaram até as vítimas por meios “altamente angustiantes”, que revelariam não só atividades “criminosas e abjetas”, como também “graves violações de privacidade”.

Desde o começo, a editora nega todas as acusações e afirma que o processo se baseia em “calúnias absurdas”. A editora foi representada por ex-executivos e jornalistas seniores. Entre os que depuseram estão Paul Dacre, ex-editor do Daily Mail e atual editor-chefe da DMG Media, braço editorial da empresa.

De acordo com a Associated Newspapers, trata-se de uma “fishing expedition” (tentativa especulativa de encontrar provas) conduzida pelos autores e seus advogados. Segundo eles, todas as reportagens publicadas teriam sido feitas com base em informações legítimas.

Direito à privacidade

Antes da decisão, Harry e os outros membros do processo contrao Daily Mail depuseram no tribunal. O membro da família real afirmou que ele e a sua esposa, a atriz Meghan Markle, vivem perseguições e um “verdadeiro inferno”.

Harry também argumentou que este processo tem um elemento social e que sentia que é seu dever agir.

“É uma questão de interesse nacional o fato de essas organizações de mídia acreditarem que são donas da privacidade das pessoas. Que tenham transformado algo que não deveria ser da conta delas em algo que é muito da conta delas.”, afirmou.

Em seu depoimento de cerca de duas horas, ele também mencionou a mãe, mota em um acidente quando tentava fugir de fotógrafos na França.

Tanto Harry quanto a atriz Liz Hurley negaram as sugestões de que vazamentos de informações sobre suas vidas vieram de pessoas que eles consideram amigos.

Outros processos

O processo perdido contra o Daily Mail é o segundo em que o Príncipe Harry depõe contra um grupo de mídia britânico.

Em 2023, ele se tornou o primeiro membro da família real em mais de 130 anos a testemunhar em tribunal, em um processo bem-sucedido contra o grupo responsável pelo Daily Mirror.

Na ocasião, o juiz Timothy Fancourt considerou que os jornais fizeram um “hackeamento extensivo” do príncipe entre 2006 e 2011.

Ele condenou, também, o grupo de comunicação por contratar detetives particulares para espionar Harry. O grupo jornalístico precisou pagar uma indenização de £ 140,6 mil.

Antes disso, ele também moveu outras duas ações contra o Associated Newspapers em 2020 e 2021.

Elas acabaram com um pedido de desculpas e sem depoimentos. Ele também moveu uma ação contra o News Group Newspaper sobre “coleta ilegal de informações”, que acabou com um acordo.

Ao comentar o resultado do processo de 2023, Harry afirmou que estava “feliz por ter vencido, e por ter ‘encarado o dragão'”.

A família real britânica, que se manteve afastada dos processos judiciais movidos por Harry e Meghan Markle contra a imprensa do Reino Unido, não comentou o caso.


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