A CBS anunciou na noite desta terça-feira (2) a demissão de uma das principais estrelas de seu jornalismo, o repórter especial do programa 60 Minutes Scott Pelley.
A demissão aconteceu um dia após o vazamento de transcrições de uma reunião de equipe que mostra o jornalista, que tinha 37 anos de casa, questionando as qualificações de Bari Weiss, editora-chefe de jornalismo, e Nick Bilton, novo produtor-executivo do 60 Minutes.
Antes da dispensa, um grupo de ex-funcionários da CBS havia assinado uma carta aberta criticando as mudanças recentes no programa de jornalismo investigativo 60 Minutes, um dos mais antigos da televisão americana.
No documento, dirigido diretamente ao CEO, David Elisson e endossado por celebridades, os veteranos lembraram que a compra da CBS veio com a proibição explícita de uso político da emissora, o que eles acusam o bilionário de fazer.
CBS e Pelley: ‘caminhos diferentes’
A demissão de Pelley é mais um episódio da crise que o canal americano protagoniza desde que Donald Trump assumiu o seu segundo mandato.
Passando por uma reformulação que conta com o pagamento de uma indenização milionária a Trump e com a contratação da conservadora Bari Weiss para o cargo de editora-chefe de jornalismo, a empresa acumula demissões, programações canceladas e polêmicas em nome de uma “reestruturação”.
A CBS anunciou a demissão com um memorando interno afirmando que a emissora e o jornalista “seguirão caminhos diferentes”.
A emissora não divulgou o motivo oficial da dispensa, mas, de acordo com uma carta obtida pelo The New York Times, Pelley foi demitido por justa causa. Em entrevista ao Times, o apresentador afirmou que ainda “se importa muito” com o programa.
“Estive em combate no Afeganistão, no Iraque. Fui à zona de guerra da Ucrânia várias vezes. Arrisquei minha vida e a felicidade da minha família por devoção ao programa”, disse ele.
Em um comunicado divulgado depois da confirmação, ele foi duro com a rede:
“Eu saio depois de 37 anos na CBS com emoção – um coração repleto de gratidão pelos homens e mulheres da CBS News que incentivaram e enriqueceram meu trabalho, muitas vezes arriscando suas próprias vidas. Eu rezo pelo dia em que essas pessoas e seus ideais sejam honrados novamente – um dia em que a sanidade, a competência e a coragem retornem.”
Reunião de equipe vazada
Antes de ser demitido, Pelley protagonizou um dos episódios mais recentes da turbulência envolvendo o programa. O caso aconteceu durante a apresentação do novo produtor executivo do 60 Minutes, Nick Bilton, e foi divulgado pelo jornal The New York Times..
Bilton abriu a reunião falando que o programa ficaria “exatamente como está por enquanto” e disse que Bari Weiss “adora o 60 Minutes”.
Imediatamente, Scott Pelley confrontou o novo produtor. “Ela [Bari] está assassinando o 60 Minutes. Ela não gosta deste lugar. Ela foi contratada para acabar com ele”, afirmou, de acordo com a transcrição do New York Times.
Pelley chamou, ainda, Bari e Bilton de “desqualificados” para o cargo. Bari não esteve presente na reunião e o novo produtor do programa finalizou a conversa afirmando que está “muito animado para encontrar todos” e para falar sobre os planos para o futuro.
Bilton, que substituiu Tanya, é jornalista de tecnologia, documentarista e não tem experiência com TV aberta. Ele também é ex-colunista do The New York Times.
Carta para o CEO da Paramount
A carta de ex-funcionários enviada segunda-feira (1º) a David Elisson critica diretamente as demissões recentes no programa. O documento afirma que, apesar de importante, a modernização do 60 Minutes para novos públicos não pode vir “a custo da integridade editorial”.
A mensagem pede que Elisson deixe claro que respeita o público e valoriza a independência editorial e a liberdade de imprensa. “A demissão em massa da gestão editorial, sem um compromisso público de manter os valores, padrões e tradições deste programa, coloca o legado do 60 Minutes em risco”, afirma trecho do documento.
“A compra da CBS News veio com um requerimento legal de servir ao interesse público, evitar interferências políticas e manter independência editorial. A confiança institucional não é transferida por meio da propriedade.”
O documento tinha mais de 90 assinaturas, de veteranos da CBS e do programa 60 Minutes, até a noite dessa terça-feira (2). Além disso, também assinaram a carta jornalistas independentes, professores universitários, líderes de organizações e espectadores.
Entre os nomes signatários está o de Glenn Close, atriz americana, e Steve Kroft, que já ganhou mais de 11 Emmys trabalhando na CBS News.
Demissões e reformulação do 60 Minutes
No fim de maio, a CBS demitiu Tanya Simon, produtora executiva que trabalhava havia 26 anos no 60 Minutes, e a sua assistente.
Tanya é filha do ex-correspondente do 60 Minutes, Bob Simon, e assumiu o maior cargo do programa no ano anterior. Ela ficou no lugar de Bill Owens, que renunciou em protesto contra a “interferência corporativa” da Paramount na atração.
A companhia também demitiu a correspondente Cecilia Vega e não renovou o contrato de Sharyn Alfonsi, repórter que protagonizou um embate direto com Bari Weiss meses antes.
Após sair da empresa, Vega publicou um vídeo nas redes sociais acusando a CBS News de “censura” e afirmando que ela temia pelo futuro do 60 Minutes.
“Tenho grande admiração e respeito pelos meus colegas de ’60 Minutes’, mas tenho muito medo do que vem a seguir para o futuro desse programa legendário.”
Alfonsi, por sua vez, relembrou da censura à sua matéria sobre uma prisão de El Salvador e citou “disputas editoriais” que culminaram no seu não-retorno para a 59ª temporada do programa.
“A direção da emissora pode tentar se esconder atrás de eufemismos corporativos como ‘modernização’ e ‘reestruturação’ para justificar minha saída. Não se deixem enganar. Esta não foi uma transição corporativa de rotina”.
Programa jornalístico mais antigo dos EUA
O 60 Minutes é o programa jornalístico televisivo mais antigo dos Estados Unidos. Ele está no ar desde 1968 e hoje ocupa o horário nobre da CBS, nos domingos à noite.
Geralmente, o programa apresenta três longas reportagens de temas diferentes, abrindo a transmissão com um cronômetro, marca registrada.
Suas décadas na TV também criaram um histórico de indicações a prêmios, com mais de 140 prêmios Emmy por Notícias e Documentários.
Entre as reportagens mais populares já veiculadas no programa estão uma entrevista de Bill e Hillary Clinton, sobre a infidelidade do então governador, em 1992. Naquele ano, Clinton ganhou a eleição.
Em 2004, o programa também fez uma grande reportagem denunciando as péssimas condições na prisão de Abu Ghraib. com abusos e torturas cometidos por militares contra prisioneiros iraquianos. O escândalo acabou com a expulsão de 17 soldados e oficiais sem honrarias militares.
60 Minutes foi palco de batalha judicial com Trump
Em 2024, Donald Trump acusou o programa de editar de forma tendenciosa uma entrevista com a ex vice -presidente Kamala Harris. Na ocasião, ela era candidata à presidência pelo Partido Democrata.
Depois que Trump voltou à Casa Branca e começou a pressionar a mídia de forma mais agressiva, sinalizando retaliações como obstáculos a negócios que dependem de aprovação do órgão regulador, a CBS começou a negociar um acordo para colocar fim à causa. Isso foi interpretado como uma forma de conseguir concluir uma fusão de US$ 8 bilhões com a Skydance Media.
O acordo foi fechado em julho de 2025, com a CBS aceitando pagar indenização de US$ 16 milhões. A formalização da fusão entre as duas empresas aconteceu em agosto daquele mesmo ano.
Antes disso, porém, o movimento causou uma crise interna. Além da demissão de Bill Owen, a então presidente da CBS News, Wendy McMahon, renunciou ao cargo por discordar dos rumos da rede.
Fim do Late Show e rádio fechada
A crise na CBS News não se restringe ao 60 Minutes. Outra mudança anunciada pela companhia e criticada foi o fim do The Late Show, apresentado por Stephen Colbert. A emissora anunciou em julho de 2025 que encerraria o programa e aposentaria a marca, que tem mais de 30 anos, em maio de 2026.
A justificativa oficial da CBS foi uma “restruturação financeira”, mas os bastidores apontam que há interesses políticos por trás do término. Colbert criticou o acordo milionário entre CBS e Trump em seu programa, chamando o ato de “suborno”, anunciando o fim do programa três dias depois.
Após o cancelamento, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou nas suas redes um vídeo de IA no qual ele aparece jogando o apresentador no lixo.
Ao mesmo tempo em que a CBS preparava o fim do Late Show, a empresa anunciou o fechamento da CBS News Radio, rádio com mais de 100 anos de história, alegando uma “reestruturação estratégica” da marca. Com isso, a empresa demitiu 6% de toda a sua equipe.
Mudança de comando inflamou crise
Em outubro de 2025, a empresa anunciou a jornalista Bari Weiss no cargo de editora-chefe de jornalismo da rede de TV. O anúncio gerou críticas por motivos que vão desde a inexperiência de Bari com televisão ao viés conservador dela.
Antes de assumir o comando editorial da rede, ela fundou o The Free Press, publicação digital com críticas ao progressismo cultural, defesa de uma agenda de liberdade de expressão e forte presença em discussões sobre universidades, mídia e Israel.
Na ocasião, quem criticou a mudança apontou interesses políticos e corporativos dos novos controladores da empresa, a família Elisson. Afinal, a contratação de Bari aconteceu em meio à reorganização da CBS sob a Paramount Skydance.
A nova controladora da CBS comprou o The Free Press, site fundado por Bari Weiss, por US$ 150 milhões antes de colocá-la no comando editorial da CBS News. A escolha foi interpretada como parte de uma tentativa de mudar o perfil da cobertura jornalística da rede, historicamente associada ao centro da imprensa americana.
O grupo é de propriedade de David Elisson, filho de Larry Elisson, fundador da Oracle e um dos empresários mais ricos do mundo. Por trás de David, Larry opera como o principal operador financeiro da marca.
Apesar de “discreta”, a relação de pai e filho com o presidente Trump é concreta. Enquanto David já apareceu ao lado do republicano em uma luta do UFC, o pai dele discursou, em nome da Oracle, na Casa Branca um dia após a posse, em 2025.
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