A pergunta “Messi ou Ronaldo?” costuma dividir torcedores, com as preferências baseada em critérios esportivos, afetivos ou nacionais.
Mas um estudo internacional envolvendo mais de 10 mil pessoas em 26 países, incluindo o Brasil, apontou que a preferência por um dos dois astros que disputa a Copa do Mundo pode estar também associada à identidade política e a traços de personalidade dos torcedores.
Os que preferem Ronaldo tendem a ser conservadores, e o oposto acontece com os que gostam mais de Messi.
Como o estudo foi feito?
Para entender se a política e a ideologia influencia escolhas do dia a dia, pesquisadores de universidades em Singapura e na Espanha realizaram uma pesquisa com 10.661 participantes.
O grupo foi selecionado para representar a diversidade de seis continentes, incluindo países como Argentina, Portugal, Estados Unidos, China, Egito e Brasil.
Os participantes avaliaram cada jogador em uma escala de favorabilidade de 1 a 7. Além disso, responderam a questionários sobre suas visões políticas, de extremamente conservadoras a extremamente liberais, hábitos de consumo de notícias, autoestima e níveis de autoritarismo.
Os principais achados: ideologia em campo
O resultado indicou uma clara conexão com a ideologia política.
- Adeptos de Messi: pessoas com visões mais liberais ou progressistas tendem a preferir o argentino.
- Adeptos de Ronaldo: pessoas com inclinações mais conservadoras demonstraram maior probabilidade de preferir o português.
Segundo os pesquisadores, essa associação pode estar ligada ao fato de os jogadores projetarem imagens distintas que se alinham ao eixo “comunitário versus dominância”.
Messi é percebido como alguém reservado, focado na família e que prioriza o trabalho em equipe.
Já Ronaldo é visto como uma figura de domínio individual, autopromoção explícita e busca pela excelência pessoal.
Personalidade e redes sociais
Além da política, outros fatores influenciam a preferência.
- Autoritarismo e autoestima: pessoas com maior inclinação ao autoritarismo, entendido no estudo como preferência por líderes fortes e hierarquia, e aquelas com alta autoestima tendem a preferir Cristiano Ronaldo.
- Vídeos curtos: o consumo frequente de notícias por plataformas de vídeos curtos também está associado a uma maior probabilidade de preferir o craque português.
- Raciocínio analítico: pessoas que pontuaram mais alto em testes de reflexão cognitiva, que medem a tendência de pausar para pensar antes de dar uma resposta intuitiva, mostraram uma leve inclinação para Messi. O efeito, porém, foi pequeno e perdeu significância em uma checagem ponderada por idade.
Os dados são importantes não apenas para os fãs de futebol, mas para as marcas que patrocinam os dois jogadores, verdadeiras máquinas de propaganda.
Os perfis de ambos no Instagram são tomados por posts patrocinados por empresas que pagam milhões para terem suas marcas expostas pelos craques – Ronaldo é a pessoa com mais seguidores no Instagram no mundo.
E sabem quem se identifica com cada um pode determinar a preferência por investir em um ou em outro dependendo do público-alvo.
O fator idade
Um detalhe destacado pelo estudo é que essa associação entre ideologia política e preferência por Messi ou Ronaldo é muito mais forte entre os jovens.
Para os mais velhos, a ideologia política quase não afeta a preferência por um jogador. Os cientistas afirmam que isso pode ocorrer porque as gerações mais novas foram socializadas em um ambiente de maior “alinhamento identitário”, onde a política molda uma gama mais ampla de escolhas de estilo de vida.
O Brasil no mapa da disputa
No contexto brasileiro, o estudo classificou o país no grupo dos “indiferentes”, o que significa que não houve uma preferência estatisticamente significativa entre os dois craques na avaliação geral.
O Brasil apresentou médias de aprovação muito altas e equilibradas para ambos: 5,82 para Cristiano Ronaldo e 5,80 para Lionel Messi.
Embora o país seja uma potência histórica do futebol, essa expertise não resultou, segundo o estudo, em uma inclinação nacional clara.
No entanto, em um teste alternativo de “escolha forçada”, usando um controle deslizante, os participantes brasileiros mostraram uma leve tendência favorável a Cristiano Ronaldo.
Por que isso importa?
O estudo demonstra que a identidade política está “transbordando” para áreas da vida sem relação direta com governos ou leis.
A rivalidade Messi-Ronaldo funciona como um experimento social: como ambos são suficientemente comparáveis em métricas convencionais de desempenho, a escolha do público pode revelar mais sobre as características de quem escolhe do que sobre o talento real dos atletas.
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