A jornalista Sharyn Alfonsi está deixando o 60 Minutes, principal programa jornalístico da rede americana CBS News, após uma disputa editorial que agravou tensões internas na emissora desde a chegada de Bari Weiss à liderança do jornalismo da rede.
Alfonsi, que entrou no 60 Minutes em 2015, afirmou que seu contrato com a CBS News expirou no fim de semana. Embora ainda esteja tecnicamente vinculada à empresa, ela disse que sua passagem pelo programa chegou ao fim após mais de uma década.
A saída ocorre meses depois de um embate com Weiss sobre uma reportagem a respeito de migrantes venezuelanos enviados à prisão CECOT, em El Salvador. A reportagem foi impedida de ir ao ar sob a alegação de falhas editoriais, que depois não se confirmaram.
Weiss assumiu o comando editorial da CBS News no ano passado, em uma escolha dos novos donos da Paramount Skydance, David e Larry Ellison.
Jornalista conhecida nos Estados Unidos por críticas ao progressismo cultural e por posições associadas ao campo conservador, ela chegou à rede em meio à tentativa da empresa de reposicionar seu jornalismo diante de pressões do governo Trump e do próprio presidente, amigo dos magnatas da mídia.
Na quinta-feira (28), a CBS anunciou o novo produtor executivo do 60 Minutes, o jornalista Nick Bilton, sem experiência anterior em TV, assim como a própria Bari Weiss.
Jornalista da CBS afirma ter sido punida após reportagem
Em comunicado, Sharyn Alfonsi afirmou que sua saída não deve ser tratada como uma simples transição corporativa. Segundo ela, a decisão representaria uma punição por ter se recusado a suavizar uma reportagem que considerava factual.
“Isso não foi uma transição corporativa de rotina; foi uma escolha deliberada para punir uma jornalista por se recusar a ‘sanitizar’ uma reportagem factualmente correta”, disse Alfonsi. Para ela, o episódio envia uma mensagem preocupante para toda a redação.
Segundo Alfonsi, depois da disputa em torno da reportagem sobre a CECOT, ela e seus representantes tentaram discutir uma forma de seguir na emissora, mas foram recebidos com “silêncio absoluto” por parte dos executivos da CBS News.
A jornalista afirmou que a direção da rede poderá tentar explicar sua saída com termos como “modernização” ou “reestruturação”. Ela pediu, porém, que essas justificativas não sejam vistas como a razão real do afastamento.
Para Alfonsi, a CBS News estaria se afastando da tradição de jornalismo independente associada ao 60 Minutes. Ela acusou a direção da emissora de priorizar o acesso a autoridades em vez da responsabilização pública e de proteger o poder em vez de investigá-lo.
Disputa no 60 Minutes envolveu reportagem sobre prisão em El Salvador
O conflito começou em dezembro, quando Weiss interveio para adiar uma reportagem de Alfonsi sobre venezuelanos detidos na CECOT, prisão de segurança máxima em El Salvador.
A editora-chefe alegou que o material precisava incluir uma entrevista em vídeo com um representante do governo Trump, embora a administração tivesse recusado participar da reportagem.
Em mensagem enviada a produtores, Alfonsi acusou Weiss de entregar ao governo uma espécie de “botão de veto” sobre a cobertura da CBS. A reportagem acabou indo ao ar em janeiro, com poucas alterações em relação à versão original e sem a entrevista que Weiss havia solicitado.
No lugar da participação de um representante do governo, Alfonsi narrou um acréscimo curto ao material, incluindo informações adicionais, esclarecimentos e declarações oficiais por escrito.
Alfonsi já havia falado publicamente sobre a turbulência na emissora. Em abril, durante uma cerimônia de premiação, ela disse que sua esperança recente era simplesmente continuar empregada. Também afirmou que acordava todos os dias com manchetes dizendo que havia sido demitida.
Na mesma ocasião, disse que se recusou a alterar a reportagem sobre a CECOT porque acreditava que o material era correto do ponto de vista factual. Segundo ela, qualquer mudança poderia fazer a CBS e o 60 Minutes parecerem vulneráveis a pressões externas.
Bari Weiss e as mudanças na CBS News
A saída de Alfonsi ocorre em um momento de mudanças profundas na CBS News. Desde a chegada de Weiss, a emissora tem enfrentado choques internos, cortes de equipe, fechamento da CBS News Radio e questionamentos sobre a audiência do CBS Evening News, apresentado por Tony Dokoupil, escolhido por ela para a bancada.
O ambiente de instabilidade na CBS também inclui o encerramento do The Late Show with Stephen Colbert, um dos programas mais conhecidos da emissora. A decisão ampliou a percepção de que a rede passa por uma reestruturação mais ampla, envolvendo tanto sua área de jornalismo quanto sua programação de entretenimento.
Leia também | Com Paul McCartney e estrelas, Stephen Colbert dá adeus ao The Late Show com a ironia de ‘Hello, Goodbye’; assista
Quem é Bari Weiss
A trajetória de Weiss ajuda a explicar por que sua chegada à CBS News foi acompanhada de reações tão fortes dentro e fora da empresa.
Antes de assumir o comando editorial da rede, ela fundou o The Free Press, publicação digital que ganhou influência no debate político americano com críticas ao progressismo cultural, defesa de uma agenda de liberdade de expressão e forte presença em discussões sobre universidades, mídia e Israel.
A nomeação agravou a crise interna na emissora, sinalizando uma guinada editorial motivada por interesses políticos e corporativos dos novos controladores da empresa.
A Paramount Skydance e os Ellison
A disputa acontece em meio à reorganização da CBS sob a Paramount Skydance, grupo controlado por David Ellison, filho de Larry Ellison, fundador da Oracle e um dos empresários mais ricos do mundo.
A nova controladora da CBS comprou o The Free Press, site fundado por Bari Weiss, por US$ 150 milhões antes de colocá-la no comando editorial da CBS News. A escolha foi interpretada como parte de uma tentativa de mudar o perfil da cobertura jornalística da rede, historicamente associada ao centro da imprensa americana.
O movimento também ocorre enquanto a Paramount Skydance aguarda aprovação regulatória para comprar a Warner Bros. Discovery. Se aprovada, a operação colocaria CBS News e CNN sob o mesmo grupo empresarial.
Leia também | Larry e David Elisson: como pai e filho acusados por Springsteen de bajular Trump ergueram um império midiático
Leia também | Governo Trump quer conter vazamentos à imprensa com acordo de confidencialidade para servidores públicos
Leia também | O que torna alguém um bom consumidor de notícias? Pesquisa aponta que é saber desconfiar
Leia também | Afastado do império da família, filho de Rupert Murdoch compra metade da Vox Media – incluindo ex-revista do pai
Leia também | New York Times abre segundo processo contra governo Trump por restrições de jornalistas no Pentágono






