Em um momento em que a mídia tradicional perde espaço, influenciadores disputam a atenção do público e a confiança nas notícias está em baixa, o que dizer a quem está começando a estudar jornalismo este ano?
Para essa missão, a Columbia Journalism School escolheu uma jornalista que simboliza o momento de tensão vivido pela imprensa, sobretudo nos Estados Unidos: Hannah Natanson, repórter especial do Washington Post, que teve a casa alvo de uma busca do FBI — episódio que despertou preocupações sobre a proteção do sigilo das fontes, princípio básico do jornalismo investigativo.
Em discurso à turma de 2026 da escola, publicado na íntegra pela Columbia Journalism Review, Natanson não tentou suavizar o cenário. Começou reconhecendo que este é um período difícil para iniciar uma carreira no jornalismo: profissionais de imprensa sofrem ataques, os empregos encolhem e a inteligência artificial preocupa redações em todo o mundo.
Ela também observou que os novos jornalistas se formam em um momento em que pessoas no poder adotam medidas sem precedentes para intimidar ou silenciar a imprensa livre.
Sob Trump, os Estados Unidos perderam 11 posições no ranking anual de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras.
Mas Natanson disse que não queria se deter nessa lista de motivos para desânimo. Seu objetivo era outro: convencer os formandos de que fizeram — ou estavam prestes a fazer — a melhor escolha de suas vidas.
“O jornalismo é a base da democracia.”
Para ela (e para muitos que perseveram na profissão), é também o trabalho mais gratificante que alguém pode fazer — e o mais divertido.
Como Hannah Natanson descobriu o jornalismo
Para explicar por quê, Natanson voltou à infância e à figura do pai, um cientista que costumava dizer que nunca havia trabalhado um dia na vida.
Quando criança, ela não entendia a frase. O pai saía todos os dias para o laboratório. Como aquilo poderia não ser trabalho?
A resposta só veio anos depois, quando ela entrou para o jornal estudantil na universidade. Na época, ainda pensava em seguir medicina e via o jornal como uma atividade capaz de diferenciá-la dos demais candidatos.
A mudança começou quando trabalhadores dos refeitórios de Harvard entraram em greve e o jornal pediu voluntários para cobrir o movimento.
Natanson passou a acompanhar piquetes, perder aulas, deixar refeições de lado e cultivar fontes dentro do sindicato. Em uma noite, recebeu a informação de que representantes da universidade e dos trabalhadores estavam em negociações secretas.
Ela e outros estudantes ficaram esperando por horas, até que, perto das duas da manhã, publicaram a notícia de que Harvard e os funcionários haviam chegado a um acordo provisório para encerrar a greve.
Ao voltar para o dormitório, depois de horas de espera, ela percebeu que não estava entediada, cansada nem com frio. Foi ali, disse, que finalmente entendeu o que o pai queria dizer: havia encontrado um trabalho que não parecia apenas trabalho.
O jornalismo como entrada em outros mundos
Natanson seguiu o discurso lembrando experiências que viveu como estagiária do Washington Post.
Escreveu sobre uma igreja online criada para jogadores de videogame, acompanhou Jane Fonda ao sair da prisão depois de um protesto climático, investigou o caso de descendentes negros de Aaron Burr e escreveu sobre um homem da Virgínia que deixou televisores antigos diante de dezenas de casas usando uma TV na própria cabeça.
Depois da graduação, foi contratada pelo Post para cobrir educação. Nessa fase, relatou encontros com professores, famílias e estudantes marcados por disputas sobre raça, memória, currículo escolar e censura de livros.
Natanson lembrou reportagens sobre professores progressistas que tentaram banir um livro em Seattle, um pai da Virgínia que lia e contestava um livro escolar por semana, uma professora da Carolina do Sul denunciada pelos próprios alunos por uma aula sobre raça e um professor branco do Tennessee demitido depois de dizer aos estudantes que privilégio branco era um fato.
Do jornalismo de educação à cobertura do governo Trump
A fala mudou de tom quando Natanson começou a falar sobre o segundo governo Trump. Ainda cobrindo o setor, ela disse que a redação ouvia rumores sobre o desejo do presidente de fechar o Departamento de Educação.
Depois de consultar Lisa Rein, colega experiente na cobertura de assuntos federais, decidiu publicar suas informações de contato no Reddit, em um fórum frequentado por servidores públicos. Uma demonstração de que para fazer jornalismo de qualidade hoje, é preciso dominar as ferramentas digitais.
A publicação trazia seu número no Signal, aplicativo de mensagens criptografadas. Segundo Natanson, aquele gesto acabou levando-a a 1.200 fontes confidenciais dentro do governo.
A partir dali, vieram um novo editor, uma nova equipe e uma nova cobertura: a transformação do governo Trump. Ela disse que o trabalho resultou em 202 reportagens, 150 milhões de visualizações de página e assinaturas compartilhadas com mais de 130 colegas do Washington Post.
Durante um ano, contou, acordou diariamente com dezenas ou centenas de mensagens de servidores públicos. Algumas viraram furos. Outras inspiraram investigações ou reportagens narrativas. Muitas permaneceram apenas como conversas com pessoas assustadas, feridas ou em sofrimento.
Natanson afirmou que sabia estar ajudando o jornal a contar histórias que o público não conheceria de outra forma: o que Trump fazia com o governo federal e quais eram as consequências disso.
Mas também reconheceu o custo pessoal desse trabalho. Trabalhava o tempo todo, vivia presa ao Signal e ao celular, dormia pouco e temia errar ou colocar alguém em risco.
Quando o jornalismo deixa de ser divertido
Nesse ponto, Natanson retomou a afirmação inicial de que o jornalismo é divertido. Admitiu que boa parte do ano anterior — e também daquele ano até então — não poderia ser descrita dessa forma.
“Às vezes, esta carreira é profundamente pouco divertida.”
A razão, segundo ela, é que nem sempre saber que se está produzindo um trabalho relevante basta para atravessar a exaustão, o medo pelas fontes, a preocupação com a verdade e o receio por si mesma.
Foi então que a jornalista apresentou uma das ideias centrais do discurso:
“O jornalismo é um esporte coletivo.”
Ela lembrou que dividiu assinaturas com mais de 130 repórteres porque, para cada dica recebida no Signal, havia um colega do Washington Post pronto para ajudar.
Alguns tinham fontes no Departamento de Defesa. Outros acompanhavam a Previdência Social, a comunidade de inteligência ou o Departamento de Educação. Juntos, conseguiam transformar mensagens isoladas em reportagens.
Natanson também destacou o papel dos editores, que trabalharam à noite, nos fins de semana e até na véspera de Natal para publicar notícias, reportagens narrativas e investigações.
Depois da busca do FBI, a redação como rede de apoio
Depois da busca do FBI em sua casa, contou Natanson, o editor, Mike Madden, atendeu o telefone às seis da manhã e ficou na linha por três horas.
O editor-executivo do Post, Matt Murray, deixou claro, segundo ela, que a equipe jurídica do jornal se mobilizaria para defender a Primeira Emenda.
Naquela manhã, uma editora a levou ao trabalho, desviando de paparazzi, mesmo estando de folga para comemorar o aniversário de 50 anos. Outro editor deixou um colar de pimentas vermelhas em sua mesa.
Uma colega a convidou para caminhadas no parque Rock Creek. Em outro dia, Natanson abriu uma encomenda e encontrou um relógio branco: alguém no jornal havia comprado um Garmin para substituir o que agentes federais haviam levado.
Como Hannah Natanson finaliza o discurso
Na parte final, Natanson voltou à história do próprio Washington Post. Disse ter relido recentemente A Good Life, livro de memórias de Ben Bradlee, lendário editor do jornal, e recomendou a leitura aos estudantes.
Segundo ela, Bradlee não disfarça os desafios enfrentados pelo jornalismo em sua época, embora fossem diferentes dos atuais. Também não se entrega ao desespero. Natanson destacou duas lições do livro.
A primeira vem da cobertura de Watergate. Depois que o Post ganhou o Pulitzer de Serviço Público em 1973, Bob Woodward e Carl Bernstein teriam procurado Bradlee para perguntar por que o prêmio havia sido concedido ao jornal, e não a eles individualmente.
Para Bradlee, a resposta era simples: o Pulitzer de serviço público pertence aos jornais, não a repórteres isolados.
Natanson usou essa passagem para reforçar a ideia de que o melhor jornalismo nasce do trabalho conjunto — da instituição, da equipe, da colaboração entre repórteres, editores, advogados e colegas.
A segunda lição vem de um dos momentos mais difíceis da história do jornal: o caso Janet Cooke, repórter que fabricou uma reportagem sobre uma criança de oito anos viciada em heroína. Segundo Natanson, Bradlee revisitou o episódio para listar lições aprendidas sobre erros, verdade e responsabilidade.
Foi com essa reflexão que ela encerrou o discurso. Bradlee escreveu que não se deve desanimar com a facilidade com que as coisas podem dar errado nem com a dificuldade de encontrar a verdade. Em seguida, propôs um teste: tentar pensar em outra coisa que se preferiria fazer.
Natanson respondeu a esse teste com uma conclusão pessoal. Ela disse que não consegue imaginar outra vida — e prometeu aos novos jornalistas que eles também não conseguirão.
“Eu não consigo. Nunca vou conseguir.”
A íntegra do discurso (em inglês) está na Columbia Journalism Review.
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